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Motoristas conseguem aumento de R$ 40,00 no vale e encerram greve

Tisa Moraes com Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 8 min

Fotos/Éder Azevedo

Audiência de conciliação no Ministério Público do Trabalho, com a presença do Sindtran, ontem à tarde, encerrou o movimento

Depois de obterem aumento de R$ 40,00 no vale-alimentação e mais R$ 100,00 anuais de Participação dos Lucros e Resultados (PLR) das empresas, os motoristas do transporte coletivo de Bauru finalmente decidiram encerrar a greve da categoria, deflagrada há exatamente uma semana. A partir das 5h de hoje, 100% dos coletivos voltam a circular normalmente, com cobrança habitual de passagens.

O acordo para o fim da paralisação foi firmado na tarde de ontem, durante audiência de conciliação realizada no Ministério Público do Trabalho (MPT). Da reunião, participaram representantes do Sindicato dos Trabalhadores do Transporte Coletivo (Sindtran), do grupo dissidente que deflagrou o movimento, da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb) e da Associação das Empresas do Transporte Coletivo Urbano de Bauru (Transurb), formada pelas três operadoras do serviço na cidade – Grande Bauru, Baurutrans e Cidade Sem Limites.

Também estavam presentes o prefeito Rodrigo Agostinho e os vereadores Sandro Bussola (PT), Roque Ferreira (PT), Markinho da Diversidade (PMDB) e Lima Junior (PSDB). Depois de duas horas e meia de discussão, empresas e trabalhadores cederam à rigidez de seus posicionamentos iniciais e conseguiram chegar a um consenso.

A Transurb concordou em mudar o valor do vale-alimentação de R$ 360,00 para R$ 400,00 a partir do dia 1º de julho e reajustar a PLR de R$ 1 mil para R$ 1,1 mil. Os motoristas também terão estabilidade no emprego durante seis meses, mas deverão compensar os dias parados pelo menos em um dia por mês, nos próximos sete meses, ou por meio de desconto no banco de horas (veja mais no quadro ao lado). O salário dos trabalhadores, que já haviam desistido do aumento de 12%, foi mantido em R$ 1.520,00, já considerando o reajuste de 8,5% obtido no último acordo coletivo da categoria. Eles também não tiveram avanço em relação à comissão que recebem por desempenhar a função de cobrador.

Inédito

Durante a paralisação, pediam o valor fixo de R$ 400,00 mensais para todos os funcionários ou a contratação imediata de cobradores, mas a Transurb manteve o repasse de 1,5% sobre o valor arrecadado por cada motorista nas passagens pagas em dinheiro e 1% sobre o montante somado no cartão. De acordo com os empregados, os trabalhadores responsáveis por linhas mais movimentadas conseguem receber, no máximo, R$ 200,00 de comissão, enquanto os de itinerários menos concorridos não ganham mais de R$ 50,00.

Embora muitos motoristas tenham ficado descontentes com o que ficou acordado, o procurador do Trabalho que presidiu a audiência, Luís Henrique Rafael, afirmou que o avanço obtido pela categoria foi inédito. “Foi uma conquista muito significativa para um grupo que deflagrou a greve à revelia do sindicato. É algo que eu não vi acontecer pelo menos nesses últimos dez anos”, pondera.

De acordo com ele, os termos serão incluídos no acordo coletivo que já havia sido pactuado entre empresas e Sindtran. Ainda ontem, Rafael informou o Tribunal Regional do Trabalho (TRT), em Campinas, sobre a conciliação, que deverá ser anexada ao processo de dissídio coletivo instaurado pelo órgão.

“Como acabou a greve, tudo leva a crer que este processo no tribunal será extinto. Também informaremos ao desembargador (do TRT) que não houve descumprimento da liminar (que obrigava os ônibus, desde a última segunda-feira, a circular com frota mínima). Nosso consenso foi pela volta do serviço e não pela execução de multa (que era de R$ 100 mil por dia)”, frisa.


Pontos amanhecem lotados

Os pontos das principais avenidas de Bauru amanheceram lotados ontem. A expectativa dos usuários do transporte coletivo era de que, com decisão dos motoristas em colocar 70% da frota dos coletivos nas ruas nos horários de pico (das 5h às 8h e das 17h às 20h), a situação gerada pela greve do transporte público seria atenuada. Entretanto, o que se via pelas ruas da cidade, antes mesmo do término do horário de circulação, era um descontentamento e certa confusão em grande parte das pessoas.

Conforme o JC apurou, algumas linhas circularam até as 8h30, como é o caso dos coletivos com destino ao bairro Octávio Rasi, Parque Cerejeiras e Bauru Shopping, que foram vistos pela reportagem circulando pela avenida.

De acordo com o advogado da Comissão dos Trabalhadores do Transporte Coletivo, Hudson Chaves, os últimos ônibus chegaram às garagens após as 9h.

Mesmo excedendo 30 minutos do horário previsto para o recolhimento dos coletivos às garagens, muitos usuários ficaram insatisfeitos.

 

‘Não adiantou’

“Esse horário não adiantou em nada. Só consegui pegar o ônibus para chegar à Rodrigues Alves, e estou há quase meia hora no ponto esperando para ir ao Geisel. Pelo jeito, não vai passar mais. Terei de ligar para o meu chefe vir me buscar”, reclamou Rudson Rocha, que estava junto a um grupo de pessoas em um dos pontos da avenida Rodrigues Alves, por volta das 8h.

Confusão também parecia ser a palavra de ordem, quer dizer desordem, em outro ponto próximo ao cruzamento com a rua Gustavo Maciel, depois das 8h, quando vários ônibus começavam a passar pela avenida com o painel indicando “Recolhe” e “Garagem”.

Com um guarda-chuva nas mãos, a auxiliar de cozinha Rita de Cássia Augusto, 49 anos, não sabia se o melhor era recorrer a um mototáxi, ir a pé, ligar para a empresa em que trabalha ou esperar para ter certeza de que o coletivo com seu destino não passaria mais pela avenida. “Bem que eles poderiam prolongar o horário até as 9h”, reclamou.

‘Não aprovo’

“Estou aqui desde as 7h25 esperando o ônibus e só passam as linhas que vão para a zona sul. Até as 8h é pouco para nós trabalhadores, só dá para pegar o ônibus até a Rodrigues e mais nada. Não aprovo esse horário”, reclama a doméstica Janaína Silvano, 32 anos, que aguardava pelo coletivo por volta das 8h30.

A mesma decepção com as poucas horas dos circulares era dividida pela aposentada Iraci Beltrami, 62 anos, que assim como outros usuários continuava no ponto, após as 8h40. “Vai que passa. Vou esperar mais um pouco. Pagar R$ 15,00 para pegar um mototáxi não dá. Eles deviam pensar mais na gente”, comenta a idosa, que estava com um dos braços quebrados.


Esforço conjunto com Sindtran

Para o procurador do Trabalho Luís Henrique Rafael e o prefeito Rodrigo Agostinho, a conciliação que colocou fim à greve só foi possível por meio do esforço conjunto que envolveu Sindtran, Transurb, Emdurb, Ministério Público do Trabalho e grevistas. “Foi uma semana difícil para a cidade, em que todos foram penalizados, inclusive a população. Mas estou feliz com o resultado”, pontua o chefe do Executivo.

O líder do movimento que deflagrou a paralisação, Valter Dutra, chegou a chorar ao final do processo. Embora tenha se mostrado descontente por não ter conquistado algumas reivindicações, soube reconhecer a importância do resultado obtido.

“Não avançamos em tudo o que gostaríamos, mas foi mais do que a diretoria do sindicato tinha conseguido no último acordo coletivo. Vencemos uma batalha, mas este é apenas o começo. Vamos voltar ao trabalho com a certeza de que continuaremos a lutar por aquilo em que acreditamos”, observa.


Empresas e Agostinho descartam um reajuste 

As empresas operadoras do transporte coletivo de Bauru e o prefeito Rodrigo Agostinho garantiram que não haverá, ao menos de imediato, reajuste no preço das tarifas. Embora o acordo firmado junto aos trabalhadores envolva elevação de gastos por parte das empresas, o chefe do Executivo informou que não há previsão de repasse desse montante para os usuários.

“Agora, não vamos mexer em tarifas. Vamos reavaliar as planilhas, até porque há uma reivindicação por redução dos preços das passagens”, adianta. De acordo com o diretor da Transurb, José Ricardo Fernandes Órfão, a manutenção dos preços foi um compromisso reassumido pelas empresas durante a audiência.

“Inicialmente, vamos arcar com esta diferença. Este recálculo será feito apenas no futuro”, resume. Da mesma forma, o diretor garantiu que os empregados não serão demitidos por terem participado da greve e, também, que as escalas atualmente realizadas por eles serão mantidas.

Já em relação às horas em que os motoristas circularam com os ônibus sem cobrar passagem dos usuários, Órfão informa que a Transurb ainda não decidiu quais medidas poderão ser adotadas. Ainda ontem, o Tribunal Regional do Trabalho alertou que a adoção de catraca livre poderia ser considerada abuso do exercício do direito de greve.

Ainda de acordo com o diretor da Transurb, as empresas pretendem recorrer das multas que somam mais de R$ 400 mil a serem aplicadas pela Emdurb pelo período em que os coletivos ficaram parados.


Uma semana sem trabalhar

Após ficar uma semana sem trabalhar e ter os dias descontados por não ter como levar o filho de quatro anos à creche, a camareira Rita Veridiana, 22 anos, esperava ontem de manhã no Centro por um ônibus que, finalmente, a levaria até o serviço. “Eu trabalho em um hotel próximo à praça da Paz. Normalmente pego dois ônibus: um para levar meu filho à escola e outro para chegar ao trabalho”, explica a mulher, moradora do Jaraguá.

A empresa onde Rita trabalha chegou a oferecer mototáxi para os funcionários durante o período de paralisação dos ônibus em Bauru, mas, para ela, não adiantava. “Como vou transportar meu filho em uma moto?”, questiona.

Quem mora afastado do Centro também enfrentou atrasos em algumas linhas. No Santa Edwirges, duas aprendizes de um supermercado aguardavam o circular. “Já está atrasado”, dizia uma delas, Jéssica Gerlim, 16 anos.

 

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