O professor de antropologia Cláudio Bertolli, formado em ciências sociais pela Universidade de São Paulo (USP), posiciona que o movimento social de rua assustou a classe política, promoveu o grito de despertar na passividade intramuros brasileira e, agora, tem o desafio de não ver a mobilização ser esvaziada pela agenda difusa ou, em outro viés, monotemática e gerar o que redundaria em uma espécie de “bolha de sabão”. Bertolli, por outro lado, comemora o susto que a mobilização popular causou na classe política, até então folgadamente habituada a fazer e desfazer sem levar em conta a insatisfação presente nas ruas.
Jornal da Cidade - A provocação inicial é: O que os brasileiros, a maioria jovens, foram fazer nas ruas?
Cláudio Bertolli - Foram fazer um pouco de cada coisa. Existe uma geração, a dos pais desses jovens, que viveu o movimento Diretas Já e a redemocratização, e nós observamos que isso tudo gerou a convicção de que as promessas por reformas que foram feitas na metade da década de 80 não foram cumpridas pela classe política, boa parte dela integrada por gente que surgiu ou se elegeu em razão dessas promessas. Foram para as ruas para demonstrar que cansaram de esperar, mas também foram para romper um pouco essa ideia de que brasileiro é passivo, não tem memória, não sabe lutar por seu País, que é pacato e alienado. Uma parte até o é. Mas o movimento mostra que nada é aceito para sempre. Os jovens em suas casas criticam, percebem que as coisas não vão bem. Mas nas ruas ficou claro que eles leem, ouvem, acessam a Internet e estão sim sabendo que as coisas não vão bem. E isso tudo ganha a efervescência por uma classe política que cansou de abusar da nossa capacidade de aceitar tudo em casa.
JC - A rua finalmente amplifica a insatisfação que estava dentro de cada um?
Bertolli - De certa forma, eles materializam nas ruas um pouco do imaginário dos anos rebeldes, da Juventude dos nãos 60 e 80. Eles também querem participar e muitos deles pelo ímpeto natural do direito de protestar. Uma placa em São Paulo simbolizou isso na multidão: ‘Eu protesto pelo direito de protestar’. E tem o elemento cultural nosso de que em casa, na escola, em instituições, e nas empresas quem protesta é visto ou taxado como do contra e lá vem o “você não está vestindo a camisa da empresa”. O protesto ganha efeito negativo em nossa cultura e estamos de fato demonstrando que não só temos do que protestar, como as pessoas querem ser ouvidas.
JC - Então o passe livre foi apenas o estopim para uma sociedade insatisfeita, mas sentada no sofá?
Bertolli - Sim, o passe livre é o estopim, mas dele deriva o natural engajamento de todos os que também queriam protestar. E os políticos subdimensionaram, porque estão acostumados a deixar para lá e seguir seus interesses sem que a sociedade reaja de fato. Por isso um movimento pequeno, restrito inicialmente à cidade de São Paulo, despertou nas pessoas a possibilidade de que isso poderia ser potencializado e se transformar em algo amplo.
JC - A agenda difusa, ou a concentração apenas na temática do transporte, ajuda ou atrapalha o movimento?
Bertolli - A agenda é difusa. Mas é natural que a adesão espontânea nas ruas formasse volume a partir de várias insatisfações e críticas. De qualquer forma, o movimento ganhou corpo e isso cumpriu o objetivo inicial de sensibilizar, assustar até, os políticos para mudanças no País. O chamamento foi para comprometer os políticos com a resolução de problemas e isso assustou a classe política. O movimento mostra que a sociedade chama, na origem, os políticos a abandonarem uma retórica tradicional, vazia, descompromissada com a realidade. E os políticos se assustaram e se esconderam. Quem se expôs até agora foi só a presidenta Dilma e com um discurso que não convenceu ninguém. Porque ela está usando a retórica e as estratégias tradicionais. Ela falou como se o movimento não tivesse acontecido. Parecia até uma estratégia recente usada pelo governo de que ela não sabia, que não tinha percebido uma série de reclamações da sociedade brasileira.
JC - O poder público cometeu o erro de, na origem, reagir com desfaçatez com o movimento?
Bertolli - Num primeiro momento a esfera política se assustou. Ela estava acostumada ao tradicionalismo, onde todas as reclamações populares chegavam via sindicatos, partidos políticos, representações de classe e, em alguns momentos, via igreja. E também pegou de surpresa esses canais tradicionais terem sido colocados sob suspeita pela população nas ruas. Daí a despartidarização do movimento. O comodismo político também se confrontou com a multiplicidade de reivindicações, a agenda difusa. A sociedade não conseguiu até agora apontar uma pauta com prioridades claras, são varias prioridades. E isso também gerou susto na classe política que não soube o que responder e por onde. E os políticos pagam a culpa por terem achado por tanto tempo que vão controlar pra sempre a pauta do País. A falta de ética se impregnou nos partidos de uma forma tal que eles foram rechaçados.
JC - As ruas ratificam a crise de representação política...
Bertolli - Exatamente e os partidos e seus políticos vão ter de rever isso. Eles se deslocaram da sociedade e a população não quer nenhum no regime atual. É necessário portanto a reforma ética dos políticos de todos os partidos. Não adianta criar novos partidos, formar grupos ou mudar nome das siglas. Não adianta mudar o cachorro se a coleira continua a mesma, me disse uma pessoa simples outro dia. É uma frase mais dura, mas é isso mesmo no conteúdo.
JC - Como evitar que essa movimentação de massa na rua não caia no efeito “bolha de sabão”?
Bertolli - Essa capacidade de organização em larga escala, nacional, difícil em um movimento desse gênero, tende a diluir a ação. O cidadão também se cansa e costuma não ir além nesse ciclo de se manifestar. E a esfera política tem a estratégia de diluir o movimento também. Monta uma pauta genérica, ou ampla por demais, aposta no cansaço, na diluição, no deixar baixar a poeira. Mas, ao mesmo tempo, isso também é um meio de afirmação do movimento, porque ele se dá sem líderes, sem partidos políticos, sem líderes sindicais. É a experiência do povo que se rebela e onde o poder público vai ficar sempre com medo de a revolta voltar. Mas fica que o povo é consciente, ainda que não plenamente, mas de que a qualquer momento pode se rebelar. Há material político de comoção social nisso tudo e fica aquela pulga atrás do orelha nos políticos de que algo pode acontecer de novo. Do ponto de vista de transformação não, não acredito. As grandes mudanças se fizeram através da violência na história.
JC - E qual seu sentimento em relação a esta etapa da mobilização?
Bertolli - Como cidadão me sinto parcialmente frustrado, porque com tal adesão popular a agenda já poderia ter redundado em ações muito além do que já aconteceu. Os movimentos começaram, ganharam ápice, e agora já entram em decadência. A situação tende a levar ao esvaziamento e a não solução dos problemas por falta dessa pauta. Mas a ação nas ruas assustou os políticos.
JC - A rede social é a ferramenta de articulação, mas a rua continua sendo a arena da história antiga que dá efeito de massa?
Bertolli - Sim e a rua continua sendo a arena que dá amplitude nisso tudo, embora fique evidente, é claro, que as mídias sociais potencializaram isso tudo. O movimento percebeu que o governo recuou, e se recuou é porque é possível fazer eles se mexerem. A administração pública passou a ter de dar resposta e não continuar dizendo o que vinha repetindo, que a reivindicação é impossível. A verdade é que o movimento de rua causou surpresa, e a própria população está surpresa com sua capacidade de reclamar. E esse é o principal recado positivo do movimento, mesmo com o erro da parcela menor que vai à rua só pra depredar. A imensa maioria foi para reclamar. E agora o poder público está com a pulga atrás da orelha, porque terão de dar respostas. E nem a classe política sabe como.
Nas ruas, disputa para efetivar direitos sociais
“Deslocar o campo da luta por direitos sociais para o campo da corrupção é uma ação de manipulação ideológica que novamente acontece neste movimento social”. A avaliação é do professor doutor Jair Pinheiro, docente da disciplina Ciência Política do Curso de Ciências Sociais da Unesp de Marília. Ele proferiu palestra na última sexta-feira, na sede do Comando da Polícia Militar de Bauru (CPI-4). O acadêmico enfatizou, de início, a iniciativa de discutir na sede da instituição erros do aparelho do Estado, como o start de reação de descontentamento que ganhou as ruas, entre outras razões, pelo fato da PM, na Capital paulista, ter agido com violência na origem da mobilização.
Jair Pinheiro não acredita na manutenção da mobilização. Não por vontade pessoal, enfatiza, mas como analista do processo. “Os movimentos sociais têm ciclos e estamos no começo da curva descendente. Não há mobilização permanente em questões como essa, isso é histórico”, opina.
De outra sorte, o palestrante aponta o conflito de agenda entre a luta por direitos sociais e a pauta da ação anticorrupção. “A mobilização unificou como temática consensual a luta contra a corrupção, mas as ruas estão com várias disputas por efetivação de direitos sociais em curso. Evidente que eu também apoio o combate à corrupção, mas esse combate não vai acontecer. Arquivar a PEC 37 não significa nada para uma cultura de corrupção que não é o desvio, mas é regra no País”, aborda.
Para Pinheiro, a institucionalização da corrupção não será atacada em sal raiz. “O que aconteceu é que se deslocou o campo da luta por direitos sociais para o campo da corrupção e isso se dá com manipulação ideológica não só desse mas dos movimentos. O ideário imaginário popular contra a corrupção sensibiliza no movimento, mas não atinge o objetivo de mudar a regra do jogo institucional. Isso funciona só na hora e funcionou para levar o povo às ruas”, reforça.
De outro lado, Pinheiro ressalta que esse “controle ideológico” não atinge a mobilização que já existia a partir da periferia. “A periferia continua tendo sua força com ações pela redistribuição social, mas o movimento com participação da classe média se dilui. Na periferia a situação não muda. Controlar conflitos sociais é como segurar uma bola embaixo d´água. Ela emerge em outro lugar daqui a pouco. Isso permanece”, opina.
Para Jair Pinheiro, a Polícia Militar errou, sobretudo na reação inicial ao movimento a partir de São Paulo, na origem. “A força do Estado reagiu na origem considerando o movimento como inimigo do Estado. Isso amplificou a revolta que já estava acumulada nos cidadãos e impulsionou o movimento. Parte da mídia, sobretudo na televisão, também errou ao classificar a mobilização inicial de vandalismo. A mídia mudou o foco quando viu que o movimento ganhou força de mobilização”, pontua.
Identificado a olho nu durante os atos, os depredadores e infiltrados, pontua Pinheiro, tinham desde cedo de ser separados, pela polícia, do restante da população que se mobilizou ordeiramente nas ruas. “Cada Estado tem um comando próprio da polícia, o que gera vários comportamentos. Mas depois do impacto negativo inicial, o que se percebe é que a polícia viu a necessidade de separar baderneiros do restante.”
Agenda difusa
O professor considera que a longevidade do movimento dependeria da capacidade de unificar pautas comuns entre a luta por direitos sociais na periferia com o sentimento de revolta que atinge a todos em relação a problemas de natureza institucional, como a corrupção, e mudanças na agenda política do País.
“As agendas podem até se unificar, porque a luta por direitos sociais não se opõe à da bandeira contra a corrupção. Mas o que dificulta na verdade são as forças sociais das áreas que estão carregando a bandeira anticorrupção. Essas forças não estão interessadas na luta por direitos sociais. Os ciclos de movimentos têm duração. E neste momento na maior parte do País a ação nas ruas já entrou na rota de descendência.”
Em rede
Para o especialista em agentes digitais, Paulo Milreu, as redes sociais deram o impulso na nacionalização do movimento nas ruas.
“O papel das mídias sociais, sobretudo o facebook, foi o de potencializar a comunicação. E isso ajuda muito a trazer para o centro da discussão aqueles grupos que não estavam participando da discussão. Isso nasceu em São Paulo, com o R$ 0,20 do passe. Mas isso chegou ao Brasil através das mídias sociais. Até porque no primeiro ato, os veículos tradicionais receberam o movimento com vandalismo. As mídias sociais é que trouxeram a necessidade de protestar e cobrar mudanças.”
Milreu acha que a ação não nasceu nas mídias sociais, mas elas fizeram o papel de impulso, assim como também podem ser o centro da dispersão. “As mídias sociais impulsionaram a insatisfação. De outro lado, a presença da mídia social também pode funcionar para dispersar do foco inicial. Porque as discussões se alastram nas redes de tal forma que muitas vertentes temáticas surgem e isso dilui, ao invés de unificar uma ação desse gênero. E a multiplicação de temáticas não é sustentada com redes sociais.”