Regional

Música caipira de raiz exibe sua riqueza na região

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 10 min

Malavolta Jr.

Nelson Oliveira no palco da rádio F8 de Botucatu, que recebeu os principais expoentes da música raiz, como a dupla Tonico e Tinoco

O interior do Estado de São Paulo é um dos principais focos da história da música caipira de raiz, como diz o matuto. E, ao nosso redor, a região de Botucatu é berço. Não obstante, a figura do Jeca Tatu protagonizada por Amâncio Mazzaropi na sétima arte, está muito longe de representar a figura do personagem indolente e preguiçoso contado por Monteiro Lobato.

A partir da catequese dos jesuítas veio a utilização da voz aguda, que “imitava” a mulher, proibida de cantar naquele tempo... Da adaptação surgiram, sem empirismo, os primeiros duetos, o que, no tempo, o caipira batizou de “primeira e segunda” vozes. A viola portuguesa sofreu a transformação no campo e de suas 10 cordas afinadas “rio abaixo” vieram as cantorias.

Não reconhecido, o boiadeiro, nosso menestrel da tropa, tratou de romper o isolamento, conforme o jornalista, escritor e pesquisador Romildo Sant’Anna. Os versos simples, métricos, alcançaram então vilarejos e, mais tarde, povoados.

A música raiz guardou o “caldo homogêneo” da cultura caipira e o circo, as festas religiosas e, depois, o rádio, ecoaram por vilas. O êxodo rural e o rádio no papel de “correio por ondas sonoras” eliminaram as últimas barreiras e o caipira, então, apesar da caricatura do Jeca Tatu demarcada no cinema, abriu as porteiras do interior.

Assim se fez também a geleia geral no campo, da mistura de elementos colonizadores com o universo do matuto, portanto, nem do branco, nem só do índio e nem somente do negro, mas da mistura.

 

Representação

Entre os expoentes da música raiz, o pesquisador Romildo Sant’Anna cita “por mérito” Lourival dos Santos. “Ele compôs mais de 1.500 músicas, um analfabeto que fazia música de cabeça. A mulher dele colocava o que ele falava no papel. E dessa ligação é que saiu a célebre “Rio de Piracicaba”.

A mulher conta que Lourival ficou a noite toda sem dormir, com medo de esquecer a música. Ele tem uma obra gigantesca e na Europa seria patrimônio nacional”, lamenta.

A pesquisa transformada em livro também identifica Teddy Vieira, “que era poeta oral, popular e do campo, desde menino, e virou soldado em São Paulo e tem mais de 1.000 músicas gravadas. João Pacífico é maravilhoso e também com obra extensa, Tião Carreiro como instrumentista e singular na composição de viola de ponteio e rasqueado morreu com citação em uma nota de rodapé na grande imprensa, entre outros nesse universo raiz de criadores”, enumera.

 

Boiadeiros romperam o isolamento

 

As ondas do rádio de válvula deram dimensão e popularizaram a música caipira pelo interior do País, mas foi o boiadeiro o responsável pelo elo entre o isolamento das cantorias no campo e os primeiros patrimônios, mais tarde cidades na história da música raiz brasileira. A avaliação é do escritor, pesquisador e jornalista Romildo Sant’Anna, de São José do Rio Preto (SP).

“Nós temos mais latente em nossa memória os grandes autores como símbolos da moda de raiz no universo genuinamente caipira. Mas o elo do isolamento entre os primeiros violeiros e a ponte com a cultura dos antigos patrimônios foi realizado pelos boiadeiros. Eles fizeram o repasse da cultura originariamente do campo. Depois o rádio e o circo deram dimensão a isso e o cinema, através de Mazaroppi, massificou o caipira e sua música”, aborda.

O escritor considera o boiadeiro como o responsável pelo rompimento do isolamento. “Essa música de viola e da formação das cantorias a partir de duas vozes, ensinada pelos jesuítas, estava confinada no campo. O Brasil experimentou o êxodo muito tempo depois. E o boiadeiro é figura fundamental nesse processo. Como referência, o que mais se repete são o cinema e as duplas que começaram depois a aparecer no rádio. A figura do Jeca Tatu do Mazaroppi, musicada na clássica “Tristeza do Jeca” de Angelino de Oliveira é referência. Mas o boiadeiro é a figura primeira nesse processo”, reforça. Angelino  Oliveira nasceu em Itaporanga, no sudeste do Estado de São Paulo, divisa com o Paraná, mas viveu desde a infância em Botucatu (SP), onde foi diretor da rádio Difusora (leia mais abaixo).

Sobre a geografia originária da música de raiz, Sant’Anna aponta o eixo do Interior de São Paulo, onde Botucatu é destaque, o norte do Paraná, Mato Grosso e o interior de Minas Gerais e do Rio. “Sim, o interiorano carioca também contribuiu muito para essa manifestação. A partir desses eixos, a moda caipira e as duplas “arraizaram” essa cultura. Com o rádio e a televisão, os artistas sedimentaram a nossa cultura caipira. Mas essa cultura não é a figura do Jeca como personagem preguiçoso, malcriado, indolente, mas o cantador que alimenta a produção cultural de raiz do País”, opina.  

 

Jornalista do sertão

Para dimensionar a importância dos boiadeiros para a transferência da cultura verbal cantada do campo para as comunidades brasileiras, Romildo Sant’Anna classifica que não é exagero posicionar os “viajantes” como “os primeiros jornalistas do sertão e do interior do País”.

Não por acaso, a música caipira mais lembrada no inconsciente cultural das gerações é “O menino da porteira”. “É uma espécie de reconhecimento do boiadeiro através do menino que, na porteira, pelas estradas de Ouro Fino, conta a notícia das outras paradas por onde passou. O boiadeiro levava a tropa, o entretenimento e a canção. O boiadeiro representa a antiga figura medieval dos menestréis e representam a notícia levada de boca a boca.

O isolamento das primeiras vilas e caipiras era real. Ninguém transpunha mais do que 30 quilômetros ao redor de onde morava. Assim acontece essa transferência cultural”, conta o pesquisador.

Depois desse paralelo, do boiadeiro para as ondas do rádio, a fonografia, o circo e as quermesses fizeram difusão ainda no Brasil rural. “Como exemplo, a partir deste período, os discos das duplas e os causos de importantes personagens dessa cultura caipira, como Cornélio Pires, se fortaleceram com o êxodo. O rádio era o correio por ondas sonoras rompendo barreiras”, pontua.

 

Origem das duas vozes

 

Para o jornalista Romildo Sant’Anna a formação das duplas na música caipira, a tradição das duas vozes – culturalmente apelidadas de primeira e segunda voz – tem explicação na relação entre a catequização dos índios pelos jesuítas, o impedimento da mulher cantar, no passado, e a utilização de vozes masculinas de timbre mais fino ao longo da origem do processo histórico de formação de vilarejos e patrimônios.

“A formação dos patrimônios e vilas veio por necessidade de quebrar esse isolamento. Os jesuítas se valeram da música para catequizar a partir do índio. E perceberam que era possível ensinar muitos a cantar. Com o mestiço aconteceu o mesmo. E como a mulher não podia cantar e nem participar do poder, da sociedade, a voz mais fina, aguda, foi a saída encontrada para a evangelização com o uso da música. Daí apareceu a oportunidade de dois homens, um de voz mais grave e outra mais fina, cantarem”, menciona.

No tempo, vieram as igrejas, os empórios, e os vilarejos como necessidade de procriação das primeiras comunidades, até para fugir da consanguinidade. “Então, os boiadeiros e suas tropas vieram com as músicas, o que se junta às festas folclóricas em vilas, às praças e cantorias em igrejas. Há certa homogeneidade na cultura caipira através da canção, que é muito sedutora e conta histórias em versos”, acrescenta.

O pesquisador concorda com o poeta modernista Mário de Andrade: “Para conhecer a cultura de um povo, estude sua música”.

Na forma, as canções com aliteração vieram com os versos em métrica com oratória tipicamente popular, do universo romanceiro misturado ao papel de catequização implementado pelos jesuítas. “O canto da música em dupla veio da música religiosa, onde um dos cantadores solta sua voz como se imitasse o timbre de mulher, porque essa não podia cantar”, menciona.

Mais do que cléricos, personagens da nossa história de colonização como José de Anchieta e Antonio Vieira, eram artistas e ensinaram, conforme o pesquisador, o curumim a cantar. “Essa geleia geral dita pelo Gilberto Gil em relação ao tropicalismo também acontece na música caipira, o universo da mistura da catequização com o caipira, a mistura e o sincretismo”, finaliza. 

 

Botucatu é berço da tradição

O microfone americano RCA 1930 ainda está intacto no auditório Angelino de Oliveira, autor de “Tristeza do Jeca” e diretor da rádio F8, no Centro de Botucatu (SP). O lugar, antiga casa de “lazer fácil e carteado”, atualmente ainda abriga as instalações da emissora AM e rico acervo da história da música caipira nacional.

O palco onde duplas “cantavam no gogó” no salão, em programas ao vivo na rádio F8, já recebeu Roberto Carlos, Nélson Gonçalves e, claro, Tonico e Tinoco, Raul Torres e seu sobrinho Serrinha, Tião Carreiro e Pardinho e todos os expoentes do dueto de canções rimadas. Hoje, o espaço simboliza o “berço da história da música caipira raiz do Brasil”, enfatiza tio Nerso, o aposentado Nelson Aparecido Lopes de Oliveira.

“Nós temos aqui discos em cera de todos os grandes expoentes da música raiz e documentos de autores como o Angelino de Oliveira, que foi diretor artístico da rádio entre 1939 e 1943. Temos aqui em um pequeno museu, ainda em formação, o primeiro transmissor importado, a viola do Tinoco e o violão Gianini de 1920 que foi usado pelo Tonico. Com esse pinho, ele ganhou, já na dupla, o festival da Rádio Difusora de São Paulo”, mostra tio Nerso.

Contador de causos caipiras, paixão que herdou da convivência com o pai atrás do balcão de um comércio em Botucatu e vestindo indumentária própria, ele lamenta a falta de memória e preservação. “As pessoas não usam nem mais chapéu, quem dirá guardar disco ‘véio’ de cera e letra escrita à mão. Felizmente guardamos muita coisa, como a carta datilografa em que o diretor da rádio em 15 de agosto de 1939 contrata o Angelino de Oliveira para ser diretor artístico da emissora”, aponta. 

“Aqui era ponto passagem de tropeiros vindos do sul do País. Junto aos moares e mulas vieram as violas e os cantadores. Botucatu, o ponto de descanso da viagem até a Capital, virou o berço da música raiz. Angelino veio pra cá ainda menino, Tonico e Tinoco são aqui do lado, quando a fazenda onde moravam nem pertencia ainda a Pratânia, o Raul Torres é daqui e fez dupla e sucesso na rádio com o sobrinho Serrinha, o Belmonte é de Barra Bonita, o Zé da Estrada da dupla com o Pedro Bento é daqui”, fala com orgulho. 

 

Bauru e seus caipiras de raiz

Tião Camargo não é somente um apreciador da música originariamente caipira, com moda de viola. Ele é um pesquisador e agente cultural pela manutenção dessa tradição. Quem costuma participar de eventos comunitários em entidades sociais e diferentes clubes de lazer e de serviços na cidade conhece as cantorias de Tião.

Com o entusiasmo de sempre pelas modas caipiras, Tião Camargo não hesitou em elencar que a Cidade Sem Limites, a despeito de ser “centro regional urbano”, tem mais caipirice musical e personagens do meio do que se possa imaginar. “Bauru tem muita relação com a música caipira, de raiz. As irmãs Castro nasceram aqui e cantaram muito, no começo, na Rádio Clube, em 1938. Elas fizeram a primeira gravação de ‘Chalana’ em 1950 e também fizeram sucesso com ‘Beijinho Doce’”, conta.

Mas tem mais. “A Mariazinha, que era sogra do Chororó e hoje mora em Campinas, das Irmãs Vieira e da dupla Zé do Rancho e Mariazinha, também é daqui. As irmãs Falsetti moram em Bauru e fizeram sucesso em 1959. O Zé Goiano também é desse tempo e gravou minha música, “Meu pequeno território”. O Mathias, da famosa dupla que vendeu muito disco com o Mato Grosso, é bauruense e meu amigo, e também tem o Mariano da dupla com o João Mineiro”, elenca Tião Camargo, com orgulho.

A lista de bauruenses da música caipira ainda tem João Mendes e Patriarca e João Mulato. “Eu lamento que em todas as áreas da cultura o poder público não preserva essa história rica. Na guarda de documentação fica muito a desejar. Como esses caipiras gravavam muita coisa de memória, muita coisa se perdeu. O que tem de fonograma não é fácil encontrar, e quem tem alguma coisa dificulta o acesso. Eu tenho muita coisa. O que eu pude já digitalizei, e já sofri até ameaça de ser processado por disponibilizar isso”, protesta Camargo.

 

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