A aprovação da presidente Dilma despencou de 57% para 37% em três semanas, segundo a manchete. O PT paga um preço alto pelo abismo aberto nas relações entre estado e sociedade, depois de ter conseguido reduzir a pobreza no país, nestes dez anos no poder. A gramática das ruas nos permite entender que o pragmatismo político tem seus limites. Abraçar Maluf porque os fins sempre justificariam os meios foi um erro pequeno no gesto, mas grande o suficiente para começar a abalar a credibilidade do instituto da representação. Todos os partidos se utilizam da mesma lógica eleitoral perversa que no momento leva o povo às ruas para pedir a reinvenção da representação política. Aí é que mora o perigo. O de cair no vazio que o filósofo político espanhol Ortega y Gasset (1883-1955) chamou de "hiperdemocracia", em "A Rebelião das Massas". As massas atuam diretamente, sem a intermediação dos poderes públicos. Já aconteceu antes e ocorre agora no Brasil e no Oriente. As massas passam a intervir em razão das suas convicções, interesses e expectativas - que já não estão em linha com os interesses dos políticos que elegeram para representá-las. Daí esse vácuo oceânico aberto entre eleitos e eleitores, governantes e governados. Os homens especiais mencionados por Aristóteles (A República), que deveriam ser os escolhidos para governar em prol do bem comum; por entenderem mais e melhor de gestão da coisa pública, estes fracassaram ao colocar seus interesses e vaidades em primeiro lugar. Os resultados desastrosos foram gerados pela corrupção e a desqualificação. O mal a ser evitado, agora, é o da "tirania da maioria", observada também por Tocqueville. A massa resolve fazer justiça sem o reconhecimento de leis que garantam a paz. Quem não for como todo mundo correrá o risco de ser eliminado. A minoria é ignorada, quando não esmagada.
O Movimento pelo Passe Livre declarou à nação que o rei está nu, proclamou em praça pública que a representação parlamentar ruiu. A política partidária foi capturada pelo mercado de votos, resignou-se a reproduzir mandatos em série, com obscena mediocridade, sem qualquer compromisso com o interesse coletivo. Exibe desprezo pela opinião pública. O colapso da representação vem ocorrendo sem que as lideranças deem mostras de compreender a magnitude do abismo que se abriu - e aprofunda-se, celeremente - entre a institucionalidade política e o sentimento da maioria. As denúncias de corrupção se sucedem, endossando a visão negativa que, injustamente, mas compreensivelmente, generaliza-se.
Chegará o momento - e que seja logo - de juntar os cacos. Esse movimento "omnibus" (para todos) tem diante de si os mais variados cenários, e outros a inventar. Em primeiro lugar vamos precisar de uma rebelião individual. O homem dentro da massa, mas consciente da sua singularidade, preocupado com a política, com o humanismo e a cultura; que sabe o que é bom para si e a sua comunidade; que saiba associar o eu individual com o eu comunitário. O homem-massa é aquele que pensa e constrói e sabe que é a partir do seu voto que as coisas podem melhorar. O destino deste homem dependerá de sua capacidade de diferenciar a crítica política da crítica à política, e de não confundir a rejeição do atual sistema político-eleitoral, e partidário, com uma recusa da própria democracia, em qualquer formato. Não se pode permitir que a indignação encontre traduções autoritárias e ultraconservadoras. Ortega y Gasset tinha razão ao pretender estabelecer as bases de uma "pedagogia política". Essa pedagogia seria o modo para regular os conflitos de interesse e os valores. É uma questão mais de ordem moral. O instrumento que conta cada homem para se orientar em sua vida não é outro que a razão. A vida é maior que a razão, mas só se fortalece na razão.
Para ser mais direto: pedir a renúncia de Renan Calheiros é uma coisa; outra, muito diferente seria questionar a própria existência do Congresso. Manter a mobilização popular é importante, mas nenhuma pessoa sensata deseja transtorno, vandalismo e hostilidade contra as instituições. A melhor maneira de conciliar esses objetivos é o exercício da responsabilidade no nível das ideias, para promover uma agenda de respeito à democracia. O bom senso é a chave que estimulará a manutenção desse exercício saudável de cidadania.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC