Malavolta Jr. |
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"Temos desafios que continuam, como a melhoria da rede pública de saúde" - afirma Agostinho
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O prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB) chega aos seis meses de seu segundo mandato. Em tese, o segundo é sempre mais difícil, porque o nível de cobranças e expectativas aumenta muito. Mas ele não esconde que respira - aliviado - após duas semanas em que sua administração foi colocada à prova. A greve do transporte coletivo acabou, os manifestantes da cidade conversaram com ele, o PAC do asfalto foi aprovado e a tensão junto à sua base de governo no Poder Legislativo parece ter sido amenizada.
Dá até para dizer que este foi o final de semana mais tranquilo para ele dos últimos seis meses. Mas por ora, porque problemas não faltam. O prefeito conversou com o JC na última sexta-feira. Estava agitado em razão da agenda cheia e da assembleia que aconteceria horas depois, diante de uma juventude ávida por mudanças.
“Não sei quantas pessoas vêm. Já até carreguei a bateria do meu megafone, que não usava há um bom tempo. Está todo amarelado”, brinca, antes de relembrar os tempos quando era ele quem ocupava as ruas.
Agostinho tem a impressão de que tudo o que poderia acontecer, efetivamente, aconteceu em Bauru nos últimos dias, mas pondera que enfrentar tantas discussões faz parte do cargo e do encargo de ser prefeito. Ele ainda garante: “Eu lido bem com pressão”.
Jornal da Cidade - A greve do transporte coletivo foi o que mais tirou seu sono?
Rodrigo Agostinho - As pessoas não entendem e não têm obrigação de entender o que aconteceu. Elas precisam do ônibus e ponto. Não sabem que a prefeitura não é dona. Olham escrito ‘Emdurb’ na porta do ônibus e confundem as coisas. A questão é que o transporte precisa estar nas ruas, independente da disputa sindical no âmbito das empresas e dos benefícios que elas oferecem aos seus funcionários. É só isso que a população espera.
JC - Apesar deste argumento, o poder público é responsável pela concessão e precisa zelar pelo serviço prestado. A Câmara, inclusive, criticou eventual inércia...
Rodrigo - Às vezes, eu me coloco como interlocutor. Nem sempre isso é bem visto. Se durasse mais uma semana, a prefeitura faria intervenção nas empresas. Aplicamos multas desde o primeiro dia de greve, o que gera um custo altíssimo. Até porque a cidade tem um prejuízo grande, de forma geral. Em alguns momentos, acho até que fomos até duros demais. O presidente da Emdurb teve que ficar de fora das negociações porque bateu de frente com as lideranças do movimento grevista. Mas foi decisivo o envolvimento de todo mundo: da prefeitura, da Câmara e a participação do sindicato na reunião de quinta-feira.
JC - O que será possível mudar diante de tudo o que aconteceu?
Rodrigo - Todas as informações do sistema de transporte são públicas, mesmo assim, pensam que as coisas são feitas às escondidas. E não são. Para evitar que continuem falando, todos os documentos estarão na internet a partir de segunda-feira. Planilhas, contratos, aditivos... A Câmara sempre pede tudo isso, independente de comissão ou não. Ministério Público também solicita. O Tribunal de Contas recebe obrigatoriamente. Mas vamos ampliar o acesso, mesmo sendo difícil de entender todos aqueles números. Acredito que isso vai dar uma despressurizada e garantir mais transparência.
JC - Acredita que este é o momento ideal para discutir a qualidade do serviço?
Rodrigo - Queremos rediscutir em nível nacional. Via de regra, o transporte é problema das prefeituras. Em algumas capitais, temos alguns serviços fornecidos pelo Estado, como o metrô e os trens metropolitanos. Mas, de modo geral, está ficando muito caro para as cidades, que estão sofrendo queda de arrecadação. O número de passageiros caiu muito, o que implicou no aumento das tarifas acima da inflação no País inteiro. O diesel também subiu muito. Não dá para aceitar que o combustível que movimenta o transporte público tenha tanto imposto. É preciso haver desonerações.
JC - Mas há muitas reclamações sobre a qualidade do serviço local.
Rodrigo - Especificamente em Bauru, estamos fazendo o plano de mobilidade, que vai ficar pronto esse ano, além da remodelação do sistema para que a gente licite dois grandes trechos de linhas. A Câmara também pode ajudar com a comissão que foi montada. Também vamos mandar para os vereadores projetos criando o Fundo Municipal de Mobilidade Urbana e o Conselho Municipal de Mobilidade.
JC - O que também deixou os políticos em geral com os cabelos em pé foram os protestos na cidade e no País. Depois de duas semanas, qual a avaliação que você faz?
Rodrigo - É positiva. A juventude ir às ruas é bom, apesar de alguns abusos. Aspecto ruim é a busca pelo anonimato. No Brasil, existe liberdade de manifestação. Isso foi difícil de conquistar. E as pessoas têm que ir de cara aberta, sem aquelas máscaras. É uma juventude também que não tem muita clareza sobre o que reivindica. Muita gente estava contra a PEC 37, mas não sabe nem o que significa PEC.
JC - E o lado positivo?
Rodrigo - O engajamento político é bom. A gente não via há muito tempo. Eu mesmo organizei muitos protestos com duas ou três pessoas. Achavam que a gente era louco. Então foi um recado importante para a classe política. Os movimentos de rua acontecem no mundo inteiro. Em Bauru e no Brasil, até demorou. Por enquanto, é um movimento que ainda não tem pauta clara. Não tem lideranças, mas vai ajudar na formação de muitos jovens. Acredito que muitos vão entrar para a política e se tornar vereadores, prefeitos e deputados.
JC - Na quinta-feira, você foi poupado, mais uma vez, pelos manifestantes, que preferiram ocupar a rodovia Marechal Rondon.
Rodrigo - Achei que foi um exagero, um risco desnecessário. Poderia ter ocorrido grande acidente. Eu preferia que tivessem vindo para a prefeitura do que colocassem as vidas em riscos. O ponto escolhido foi terrível, em uma descida.
JC - O governo também gastou muita energia para aprovar o PAC Pavimentação. Por que acha que houve tanta resistência?
Rodrigo - O debate é natural do processo político. A Câmara o Executivo são pressionados todos os dias para asfaltar a cidade inteira. Não tem dinheiro para fazer tudo e o governo federal ofereceu o PAC. Eu falei, na campanha, do compromisso de asfaltar as quadras da cidade. Foi legal para abrir as planilhas e mostrar que os preços da tabela do governo federal vão permitir que a gente inclua outras. Foi processo de aprendizado. Muitos bairros que não foram contemplados pressionaram os vereadores e o Legislativo deu a resposta.
JC - E existem recursos para você cumprir a promessa de zerar as ruas de terra?
Rodrigo - Vai ter dinheiro. Temos vários caminhos: os recursos próprios; execução de obras com a estrutura municipal, pois tempos usina de asfalto; o plano de asfalto comunitário; conseguir mais emendas parlamentares; além das sobras dos R$ 43 milhões do PAC. Será um conjunto de ações para viabilizar esse compromisso.
JC - Também está sendo discutido na Câmara o PAC da Mobilidade. O governo vai concentrar esforços para aprovar esse empréstimo de R$ 12 milhões?
Rodrigo - Vamos sim. A população está reivindicando melhorias no transporte. O projeto prevê a construção de três terminais urbanos e faixas exclusivas para os ônibus. Eles não vão mais competir com os carros nos trechos da Pedro de Toledo, Rodrigues Alves e Nações Unidas. Também serão construídas ciclovias. A mobilidade é uma prioridade. São 250 mil carros que circulam em Bauru e precisamos de ações com urgência. Não vamos fazer pressão, mas vamos nos esforçar para que o projeto passe.
JC - A atual composição da Câmara está te dando mais trabalho?
Rodrigo - É uma Câmara que está aí para trabalhar. Eles cobram muito, até pelo número grande de vereadores novos. É difícil para a gente correr atrás de tudo ao mesmo tempo, mas eu faço avaliação positiva. Eles fazem com que a gente não fique parado. Não ligo de receber críticas. Às vezes a imprensa não consegue interpretar isso de forma positiva, mas é com elas que a gente consegue avançar e crescer. É saudável.
JC - O líder do governo no Legislativo, Renato Purini (PMDB), ameaçou deixar o posto na semana passada. É um sinal de que a estratégia da relação precisa ser repensada?
Rodrigo - Acho que foi desnecessário. É claro que a Câmara também estava sendo pressionada, mas não precisava ter acontecido dessa forma. Em todo caso, foi um recado que eu soube ouvir. Fiz questão de estar na sessão legislativa da última segunda-feira e tranquilizar todos os vereadores. Isso foi decisivo também para a aprovação do PAC.
JC - Qual é a marca dos seus seis primeiros meses no segundo governo?
Rodrigo - Marca é algo que a gente só vai ver no final. Alguns desafios são antigos, como a solução da Cohab, o problema do tratamento de esgoto. Temos desafios que continuam, como a melhoria da rede pública de saúde. É um ano em que grandes obras vão ser concluídas: primeira barragem de combate a enchentes da cidade, primeira alça do viaduto. Vamos também inaugurar mais uma UPA.
JC - O período que terminou parece ter sido o mais complicado pelo qual passou nos últimos anos...
Rodrigo - Essa semana foi muito difícil, acompanhando se os ônibus iriam sair ou não em todas as madrugadas. Uma grande dificuldade de interlocução e, ao mesmo tempo, um projeto importante na pauta da Câmara. Ontem (quinta), depois da reunião no Ministério Público do Trabalho, fiquei muito aliviado
