Ciências

Hipertecnológicos e subéticos?!

Alberto Consolaro
| Tempo de leitura: 3 min

As moradias ficam menores e cada vez menos tempo permanecemos em casa para se consumir mais com lazer, alimentação, cultura e trabalho. Quanto menor a moradia, menor a vontade de ficar nela, e assim se reduz cozinhas, banheiros, quartos, salas e varandas. Entre os cubículos e os espaços de um centro de compras: vamos ao shopping!

A internet amplia virtualmente os espaços, aumenta a capacidade de comunicação e nos dá a falsa sensação de amplitude. Esta comunicação e reflexões sobre os movimentos sociais com a internet foram tema da conferência do professor e escritor espanhol Manuel Castells no ciclo “Fronteiras do Pensamento”, em São Paulo, em junho. Ele é autor de livros como “A era da informação” e “A galáxia da Internet”.

Os movimentos atuais, segundo Castells, são fundamentalmente emocionais e as palavras mais comuns são justiça e dignidade, sem uma reivindicação concreta. As pessoas parecem que querem ser reconhecidas, como pessoas e cidadãos. Poucos conseguem os seus 15 minutos de celebridade que querem a todo custo, e não se acham representadas pelos partidos, instituições, organizações e outras formas. Se revoltam!

Na internet se estabelecem redes de indignação e esperança. Quando nas ruas, significa que as pessoas deixaram o ciberespaço e foram para o espaço urbano real. Sem lideranças, não sabem pedir, dialogar, negociar e controlar no tempo o efeito real de seus movimentos. Assim, arrasaram países inteiros na primavera árabe e, agora, quem quer ajudar não tem com quem dialogar! São países arrasados sem qualquer perspectiva, vivem anarquicamente em condições subumanas de vida, quase tribal.

Para Castells, há uma capacidade de organização espontânea destes movimentos e até gritam que o povo unido não precisa de partidos. Para ele, esta auto-comunicação de massa representa um forma de contra-poder, pois não há uma oposição efetiva e legalista, especialmente no Brasil. A corrupção existe menos por conta das pessoas e mais para financiar a política. Daí existe a prática da política do escândalo, que gera o efeito da desconfiança generalizada, deixando a impressão de que todos são corruptos e que é preciso escolher o menos corrupto.

 

Coerência

Na reflexão de Castells, a comunicação é tudo: comunico, logo existo! Ele acredita que esta forma de auto-comunicação de massa pela internet não garante o uso da liberdade, pois “somos anjos e demônios, todos nós”. Regina Casé repetiria que somos isto tudo, junto e misturado. No espelho podemos ter sobressaltos pela contradição entre o super desenvolvimento tecnológico e o subdesenvolvimento ético. Nas ruas, alguns sobressaltos seriam:

Os que pedem ética nas ruas roubam a propriedade intelectual de músicos e atores pirateando ou baixando arquivos ilegalmente na internet?

Quantos manifestantes fizeram traição, maledicência ou fofoca e prejudicaram moral ou economicamente alguém?

As pessoas usam programas de computador enganando os seus proprietários, deixando de remunerá-los conforme dita a lei.

Muitos jogam papel na rua ou lixo pela janela do carro!

Cartaz de honestidade e anticorrupção na mão não condiz com ligação telefônica, de TV a cabo e internet clandestinas.

Estariam nas ruas os que copiam literalmente parágrafos ou páginas inteiras para montar trabalhos escolares, dissertações e teses como se fossem os autores do texto: isto é plágio e desonesto!

Quantos já usaram atestados médicos falsos na escola e trabalho?

E aqueles que estacionam veículos nas vagas de idosos e deficientes, sem sê-los.

Há os que dirigem depois de tomar bebidas alcoólicas, assumindo risco de matar!

Quantos usam drogas ilegais?

Sem falar dos que usam marcas falsas de celulares, camisas, tênis e bolsas.

E os que colam nas provas ou falsificam notas fiscais?

Ao comprar produtos em sites e lojas, perguntam a real procedência para verificar se não são roubados ou contrabandeados para financiar o crime organizado?

Quem se lembra em quem votou na última eleição?

Seriam estes manifestantes considerados justos em suas relações sociais e econômicas?

Os que pedem paz, são serenos em suas vidas?

Os princípios são para todos e nas coisas mais simples do cotidiano. Julgar e exigir é muito fácil, ser coerente é difícil, quase impossível. Seríamos hipertecnológicos, mas subdesenvolvidos eticamente?

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