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O Brasil não é meu partido

Fernando Strongren
| Tempo de leitura: 3 min

As manifestações que estão tomando conta das ruas das mais diversas cidades do Brasil são um prato cheio para quem gosta de refletir, interpretar e debater. Tirando a pressa de alguns em querer entender e explicar logo o que está acontecendo, é possível se falar de tudo. Eu mesmo tenho passado as duas últimas semanas pensando em qual tema abordar: a violência policial, a importância das redes sociais na mobilização popular, a mudança de postura dos veículos de comunicação, a pluralidade de pautas e a legitimidade do vandalismo durante as manifestações. Nos últimos dias estava decidido a escrever sobre esse último item, até preparei a estrutura, reuni exemplos e ideias, mas o assombro com a mudança de rumo que a mobilização teve na última quinta-feira me fez mudar de ideia.

O hino e a bandeira nacional já estavam presentes desde a passeata do dia 17 ? momento que considero de ruptura entre os atos do MPL e as passeatas que mobilizaram o Brasil ?, mas foi sob o grito de "sem partido" que ecoava forte três dias depois que ficou mais claro a curva à direita que um movimento popular tomava. Erroneamente, vi essa segunda onda um ideário fascista tomando as ruas e desviando o caminhar de um movimento social. Com pautas vazias e sem sentido, como fim da corrupção e o impeachment da presidente Dilma Rousseff, parte dos manifestantes demostravam um clamor exagerado pelos símbolos nacionais (hino e bandeira) que aliado ao repúdio por partidos políticos, sobretudo os de esquerda, são os componentes básicos de um movimento protofascista.

Os partidos, antes de entidades que buscam assumir o poder político, são representantes de determinada ideologia, um modo de ver e pensar o mundo, a sociedade e o homem. Seja com o cristianismo do PSC, com o comunismo do PSTU ou o liberalismo do PSDB e DEM, a pluralidade ideológica é fundamental para o pleno exercício da democracia representativa. A limitação ou extinção do exercício partidário e de organização, uma vez que a democracia também passa por outros grupos, como a associações que lutam pelo direito da mulher, dos homossexuais, dos idosos, de bairros, militares e anarquistas, é um desejo que remete à ditaduras em qualquer lugar do planeta.

Evocar os símbolos nacionais pedindo mudanças não representa o "em progresso" que temos visto em montagens nas redes sociais. Esses símbolos são estandartes sustentados por quem quer retornar ou manter firme um status quo perdido ou idealizado. Quem levanta a bandeira do Brasil e canta o hino ? na avenida Paulista, na Rodrigues Alves ou no Planalto ? não defende uma causa, mas abre caminho para os donos do poder político mediarem sozinhos as decisões de estado.

Cegos pelo verde e amarelo da bandeira brasileira, parte dos manifestantes leva as passeatas para um novo e perigoso rumo expresso em lemas como "O Brasil é meu partido" (variante do "Meu partido é o Brasil", proclamado pelos integralistas de Plínio Salgado) e "O gigante acordou" (que me espantou ao encontrá-lo em uma foto de um livro sobre a Marcha da família com Deus pela liberdade, que culminou com o golpe militar de 1964).

Depois de "vir para a rua", nos encontramos no momento de deixá-las para ocuparmos parques e praças, onde o verde e amarelo da natureza nos encanta e as vozes não mais gritam em uníssono, mas debatem ideias e propostas para uma sociedade melhor, mais justa e igualitária.

*O título deste artigo foi tirado de algum dos ótimos textos sobre política que ganharam ainda mais espaço na minha timeline do Facebook. Se essas passeatas já resultaram em algo foi o fim da ideia de que política não se discute. Os brasileiros agradecem.

O autor, Fernando Strongren, é filósofo e jornalista

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