Ele tem uma história que muitos considerariam obstáculo para seguir em frente. Mas não ele. Celso Simone soube aproveitar as oportunidades que teve com as mãos estendidas de “seo” Sebastião Paiva, na Casa da Criança, onde viveu dos 7 aos 16 anos com as irmãs depois que o pai ficou doente (a mãe faleceu quando ele tinha 4 anos de idade).
“Ele nos orientou, deu motivação... Olhou para a gente e a vida seguiu o seu fluxo. Eu sou técnico contábil, e graças a Deus alcancei meus objetivos”.
Celso tem seu escritório e a residência no Santa Edwirges, perto de onde moram suas irmãs, a seis quadras do Jaraguá. Ele nunca quis sair da região e analisa que o que falta no bairro é o olhar do poder público para tirar as crianças da rua.
“Isso não significa apenas dar lazer, é claro que isso é importante, mas também é preciso educar e ensinar de forma diferenciada, como há alguns exemplos. Precisamos de ações que gerem renda, desenvolvimento econômico”.
O morador afirma que nunca perdeu a esperança, mas aprender datilografia foi algo que trouxe dificuldade por causa de uma deficiência física, a falta de dedos em uma das mãos. “Eu ganhei uma bolsa, mas não queria fazer. “Seo” Paiva disse que era para eu ir e eu fui. Tive um professor exigente, e isso me ajudou a prosperar. As crianças precisam desse estímulo”, acredita.
‘Podemos ver os frutos da nossa união’
Presidente da Associação de Moradores do Parque Jaraguá há três anos, o serralheiro e soldador Valdomiro Neres Fonseca vive no bairro há18 anos e dedica muitos deles ao trabalho em prol das necessidades da comunidade que o acolheu.
“Percebemos que se nos juntássemos em uma associação, teríamos mais voz junto ao poder público. E foi o que aconteceu. Embora ainda haja muito a fazer, já podemos ver os frutos da nossa união. Cobramos e conseguimos melhorar a pavimentação, a saúde com o programa Saúde da Família... Entre a nossa luta atual estão as alternativas de lazer para os moradores”, defende.
Para Valdomiro, o retorno desse trabalho voluntário está na satisfação de fazer algo por quem não tem forças para lutar por suas necessidades e direitos: “É o que me faz feliz”.
Oficinas pedagógicas, aulas de capoeira, dança, artesanato, violão, flauta, canto coral, treinos de atletismo para a participação em competições municipais e regionais, oficinas de digitação e informática e passeios de socialização são apenas alguns dos serviços oferecidos às crianças e adolescentes que participam do projeto Beta Parque Jaraguá, da Associação Comunidade em Ação Êxodo-Acaê.
Rosimeire Cristina da Silva, 12 anos, e Cauã Henrique Barbosa da Silva, 9 anos, há alguns anos participam das atividades propostas pelo projeto. “Eu aprendi sobre informática, artesanato, capoeira... E o que mais gosto é mesmo do artesanato, porque agora sei fazer cachecol. Também aprendi bastante sobre informática”, diz Rosimeire.
Já Cauã gosta mesmo é das aulas de capoeira do professor Willian Guilherme Canola e de apresentar o que aprende nas cidades da região, como Jaú, onde alguns alunos estarão no próximo dia 20 de julho. “A gente aprende muita coisa boa e não fica na rua”.
Para adultos
O projeto Acaê também aposta na preparação para o trabalho e renda do público a partir de 16 anos. Aulas práticas de informática, manicure e aulas teóricas nas áreas de psicologia e assistência social fazem parte da proposta.
Há seis meses, quem aproveita a chance de aprender a lidar com o computador e a internet é o casal José Joaquim da Silva, 64 anos, e Ivete Capaudi da Silva, 63 anos.
“Os netos já sabem mexer com tudo isso e a gente gosta de aprender coisas novas, então aproveitamos a oportunidade”, conta Ivete. José aproveita o tempo que sobra com a aposentadoria para se atualizar. “A gente não pode ficar para trás e as aulas são perto de casa. Estamos gostando muito. Um motiva o outro”.