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Saúde urológica é negligenciada

Aguinaldo Nardi
| Tempo de leitura: 3 min

A saúde do homem há muito tempo é negligenciada no Brasil, tanto pelos próprios homens - por questões culturais - quanto por décadas de falta de programas públicos efetivos para as doenças masculinas. No momento em que o mundo se solidariza com as manifestações nas ruas de diversas cidades brasileiras pedindo mais investimentos em saúde, educação, transportes, entre outros, é preciso refletir e entender de fato como está a situação da saúde brasileira. A cada três pessoas que morrem no Brasil, duas são homens - que vivem, em média, 7,6 anos menos que as mulheres no País. As doenças urológicas são as mais negligenciadas. Recente estudo feito pela Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) mostra que apenas 34% dos homens que possuem plano de saúde vão regularmente ao urologista. Segundo o Datasus, em 2007, 16 milhões de mulheres foram ao ginecologista, enquanto que apenas 2 milhões de homens foram ao urologista. Entre as doenças que acometem os homens, muitas podem ser curadas e tratadas, entre eles o câncer de próstata, segundo tipo de neoplasia que mais mata homens no Brasil. Estima-se que um em cada seis homens vão apresentar câncer de próstata ao longo da vida e um em cada 36 vai morrer pela doença. Outros problemas acometem os homens, como câncer de pênis, declínio do hormônio masculino, hiperplasia da próstata, que é a condição mais comum, atingindo cerca de 70% da população acima de 50 anos. A incontinência urinária, muito comum em homens que realizaram tratamento cirúrgico para câncer de próstata, afasta o indivíduo do convívio social, diminuindo sua qualidade de vida.

Até o dia 6 de agosto, vivemos um momento muito importante na sociedade, em que somos chamados a opinar sobre os procedimentos que devem ser incluídos no rol da Agência Nacional de Saúde (ANS), aumentando o espectro de cobertura dos planos de saúde. Dos 24 procedimentos solicitados pela Sociedade Brasileira de Urologia, apenas seis estão sob consulta e deverão ser incluídos. Outros procedimentos para a saúde do homem correm o risco de ficar de fora. Homens vão ser privados, por exemplo, do seu direito a ter um esfíncter artificial, que é o tratamento mais eficaz para tratar a perda urinária, que pode acontecer após tratamento do câncer de próstata. Também podemos ficar sem as modernas técnicas de tratamento para a hiperplasia benigna da próstata, como o laser. Estamos trabalhando em conjunto com a Sociedade Brasileira de Vídeo Cirurgia (Sobracil) para inclusão de procedimentos laparascópicos que ficaram fora da consulta pública. Participar da Consulta Pública da ANS e exigir novos tratamentos nos planos de saúde é um dever do cidadão. É papel da classe médica se mobilizar e opinar sobre os tratamentos que fazem a diferença na vida de seus pacientes. Acessando até 6 de agosto o site da ANS (www.ans.gov.br) e clicar em Consulta Pública - os brasileiros podem contribuir para que uma parte do sistema de saúde se aprimore.

A SBU há seis anos participa de uma série de reuniões com o Ministério da Saúde, com o intuito de planejar a remodelação do rol de procedimento, que está defasado em 20 anos, sem sucesso. Muitos dos procedimentos existentes na lista atual não fazem mais parte da medicina contemporânea. Faltam procedimentos modernos e de terapia minimamente invasiva que proporcionariam menos trauma ao paciente urológico. Nem isso sensibiliza o Ministério da Saúde. Desde a criação da Coordenação da Saúde do Homem no Ministério da Saúde, em 2006, e o lançamento esperançoso da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem, em agosto de 2009, pelo então ministro da Saúde José Gomes Temporão, pouco evoluímos. A política da saúde do homem apresenta graves lacunas e intenções vazias pendentes de solução. Precisamos aproveitar essa oportunidade criada e abrir os olhos para a situação alarmante que se encontra a saúde do homem, seja no SUS ou nos planos de saúde. É preciso que o Ministério e a ANS tomem uma atitude ou a sociedade a tomará!

O autor, Aguinaldo Nardi, é urologista de Bauru e presidente da Sociedade Brasileira de Urologia

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