Nos primeiros 20 anos do século passado, o jornalista que escrevia sob o pseudônimo de João do Rio introduziu o gênero crônica na imprensa brasileira. Ninguém melhor do que ele, em estilo rápido, elegante e ao mesmo tempo contundente, descreveu a modernidade que, enfim, chegava à Capital da República. O governo do Rio derrubava casebres e abria avenidas para dar passagens aos automóveis "que ritmizam a vida vertiginosa e também os nossos sentimentos de moral, de estética, de prazer e de amor". O automóvel passou a ser o objeto de desejo de todos, um fetiche para os políticos e instrumento de demonstração de poder para os parentes, amigos e amantes. Também naquela época, deputados e senadores, governadores e ministros se julgavam no direito de utilizar-se do público em benefício do privado. Automóveis com chauffeur - "a nova profissão que veio para ficar" - de farda com botões dourados e quepe. Tudo por conta do Estado, pois, afinal poder é poder. Em 1926, outro jornalista, o Barão de Itararé, dizia que "têm políticos cuja vida pública é continuação da privada". Nos dias de hoje, o fetiche dos políticos com algum poder momentâneo dado pelo cargo são os jatinhos da FAB. Os coitados dos oficiais aviadores, ex-pilotos de caça, ganham muito menos que os chauffeurs dos automóveis oficiais à disposição dos congressistas. A utilização da coisa pública, no Brasil, vem desde as capitanias hereditárias distribuídas pelo rei de Portugal Dom João III, em 1534. Na França, depois da queda de Napoleão, os políticos que haviam fugido da revolta do povo voltaram com a mesma sede de antes. Tayllerand disse uma frase que ficou famosa: "Eles não aprenderam nada, nem esqueceram nada". Os nobres não se deram conta de que o povo derrubou Luiz XVI para mudar o país.
Coisa semelhante aconteceu nas últimas semanas. A população, de Norte a Sul do Brasil, saiu às ruas num esforço patriótico para baixar tarifas de transporte e restaurar a moralidade. E, alguns políticos incapazes de ouvir a voz rouca das ruas, se divertem em voos da alegria, como se fosse uma coisa absolutamente normal. O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), usou um jato da FAB para ir de Maceió a Trancoso, na Bahia, onde era convidado de um casamento. O presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), utilizou a mesma forma de locomoção para levar a noiva, parentes dela, enteados e outros acompanhantes à final da Copa das Confederações, no Maracanã.
O primo de Henrique, Garibaldi Alves (a família manda na capitania do Rio Grande do Norte há meio século), ministro da Previdência, também resolveu torcer pela Seleção utilizando-se de um avião oficial para chegar ao Rio. O primo Henrique foi sabido, propôs-se logo a pagar R$ 9.700,00 correspondentes às tarifas dos aviões comerciais, já que a imprensa estava regulando a mixaria. Só que o voo empreendido, em jatinho fretado, não sai por menos de R$ 158 mil. Renan disse que não ia pagar nada porque tem direito à essa Bolsa FAB, que lhe é dada pela dignidade do cargo que ocupa. Recuou. Prometeu pagar, assim como o ministro Garibaldi, que, mais modesto, disse ter "agido de boa-fé".
Esses e outros absurdos, cometidos em meio à verdadeira revolta popular que o País vive, mostram políticos distanciados da sociedade e de seus anseios. João do Rio e o Barão de Itararé tentaram combater essas gastanças num País eternamente em crise. Vidas profissionais dedicadas a talentosas observações e a um humor corrosivo. João do Rio, que nunca teve automóvel, morreu de enfarte dento de um táxi, aos 40 anos de idade, depois da última surra. O Barão, cansado de apanhar, mandou colocar uma placa na porta da sua sala na redação: "Por favor, entre sem bater".
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC