Talvez um em cada cem brasileiros saiba, de fato, o que é beisebol. Estatística auditada? Não. Mas pode fazer o teste.
Grande parte não deve ter mínima noção do que significam termos como catcher, slugger ou empire (veja no quadro abaixo), típicos desse esporte que, aqui, virou “coisa de japonês”. Muito menos conhecer Yan Gomes, o primeiro jogador do País a atuar na Major League Baseball (MLB), a liga profissional dos Estados Unidos, país onde nasceu a modalidade – não, o beisebol não é japonês (leia abaixo). Afinal, como chamar a atenção do público para ver o estranho esporte em que um sujeito de capacete dá uma tacada em uma bola arremessada por outro, de boné?
Enésima prioridade do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) e do Ministério do Esporte de um país que teme cumprir campanha pífia nas Olimpíadas que sediará, em 2016, o beisebol que nunca teve muita tradição no Brasil, tem regras desconhecidas da maioria das pessoas e ainda busca o seu espaço dentro do “País do futebol”, tem no interior paulista a chance de renascer.
A MLB já trabalha efetivamente em quatro cidades paulistas. Há um mês, professores de educação física da rede municipal de Araçatuba, Avanhandava e Penápolis, foram diplomados pela Little League (em inglês, pequena liga ou liga menor), considerado o maior e mais respeitado programa de esportes para jovens no mundo, presente em 102 países e com 2,3 milhões de inscritos. Agora, a ideia é formar times para início de uma liga estudantil nos municípios.
Neste evento esteve presente o vice-cônsul dos Estados Unidos, Aysa Miller, numa clara demonstração de apoio norte-americano ao projeto de expansão do esporte mais antigo e tradicional da terra do “Tio Sam”.
‘Strike out’ de Marília
Paralelo ao projeto da Little League está Marília. A cidade a cem quilômetros de Bauru foi a base principal da chegada da MLB no País.
A história começou a mudar em 2009, quando o mundo recebeu o anúncio de que o Brasil receberia as instalações da primeira equipe profissional da Major League. A franquia em questão era o então campeão da liga americana e finalista da World Series, o Tampa Bay Rays, da Flórida.
Responsável por revelar algumas das maiores estrelas do beisebol (como Richard Hidalgo, Bob Abreu, Johan Santana, Melvim Moura, Carlos Guillen e Fredy Garcia), Andrés Reiner, que trabalha como assistente especial para desenvolvimento dos Rays, se uniu aos irmãos Adriano e Edno de Souza, nascidos e criados em Marília. O primeiro foi jogador profissional com atuação em Cuba, República Dominicana, Venezuela, Holanda, Espanha, Estados Unidos e México, e só deixou o beisebol quando se tornou Diretor de Operações no Brasil dos Rays. Já Edno, o irmão mais velho, foi jogador de basquete na juventude, se especializou em marketing e planejamento estratégico e é o diretor de operações internacionais da AES Sports Agency (www.aessportsagency.com). Dentre os trabalhos da AES destaca-se a coordenação da preparação física de Leandrinho Barbosa, ex-Bauru Basquete e que, em 2009, três meses e meio antes de voltar para a temporada da NBA, apresentou o melhor condicionamento do Phoenix Suns de todos os tempos.
Com academias na República Dominicana e na Venezuela - como parte das franquias da MLB -, os Rays vislumbraram a construção de um complexo brasileiro para iniciar um projeto em conjunto com as escolas municipais para a prática do esporte. “Para muitos, isso parecia impossível. Alguns riam, diziam que éramos loucos. Mas quando Charles Miller trouxe o futebol, ninguém sabia jogar e foi preciso ensinar o Brasil a ser o que é hoje no futebol”, justifica Adriano.
As tratativas para viabilizar o trabalho em Marília tiveram início no final do primeiro mandato do ex-prefeito Mário Bulgareli. Antes de pedir renúncia do cargo, em março de 2012 (foi aberta investigação de sua participação no esquema de mensalão encabeçado pelo ex-chefe de gabinete e ex-secretário da Fazenda, Nelson Grancieri), Bulgareli chegou a viajar, junto com sua esposa, para os Estados Unidos, onde apresentou a planta do CT à imprensa local e até assinou contrato de intenção com o Tampa Bay Rays. Mas o projeto acabou levando “strike out” da Câmara de Marília que, por unanimidade, vetou a construção do complexo que tinha planta aprovada e terreno inutilizado pelo governo cedido.
“Foram liberados R$ 500 mil do Ministério dos Esportes e mais R$ 1 milhão em emenda do então deputado federal Sergio Nechar para Marília dar início ao projeto, mas o dinheiro não foi aplicado e sequer deram satisfação sobre esse recurso”, revela Edno de Souza. Segundo ele, há risco de ação judiciária contra a prefeitura de Marília pelo não cumprimento do convênio assinado pelo prefeito em 2009. “Essa ação pode ser muito mais onerosa que o valor a ser investido”.
O valor orçado para construção do complexo de beisebol, que contaria com campo e vestiários, inicialmente é menor, por exemplo, do que os R$ 4,5 milhões gastos por Bauru na pouco utilizada pista de atletismo do Milagrão.
Vice-cônsul engajado
Aysa Miller é um diplomata bem graduado. Nascido na cidade de Seattle, estado de Washington, é fluente no idioma português, árabe e espanhol, já residiu no Chile, Egito e Índia, e desde 2011 é vice-cônsul da maior potência econômica do mundo, os Estados Unidos, na cidade de São Paulo.
Em apoio ao melhor relacionamento cultural, econômico, esportivo entre as duas nações, Miller não mediu esforços para dar ênfase ao projeto de expansão do esporte mais antigo dos EUA. “Sua atuação tem sido imprescindível para o avanço de algo inédito no Brasil”, relata Edno de Souza.
Presente na diplomação dos professores de Araçatuba, Avanhandava e Penápolis, Miller disse estar orgulhoso em representar seu país em um ato que simbolizava mais um passo do projeto de introdução do beisebol norte-americano no Brasil. “Estamos presenciando um momento onde os dois países estão se aproximando. Como me disse Obama (Barack, presidente dos EUA), o Brasil é um país que mostra como um clamor por mudança que começa nas ruas pode transformar uma cidade, transformar um país, transformar o mundo”.
Bauru aparece na mira
Se o governo de Marília não deu continuidade ao projeto, o Tampa Bay Rays passou a ser assediado por outras cidades paulistas, como Lins, Garça, Araçatuba, Penápolis e Avanhandava. Nestas três últimas, a MLB e o Tampa desenvolveram a Little League.
“Ações já estão sendo tomadas para que Araçatuba tenha seus campos de beisebol nas escolas que contemplam o programa ‘Mais Educação’ que visa o período integral de ensino, e que serão palcos das partidas da liga municipal de beisebol além de torneios e campeonatos escolares da região”, comenta Edno de Souza revelando que outras cidades como Birigui e Guararapes devem ser os próximos destinos da Little League brasileira.
Mesmo com a negativa mariliense em relação ao projeto da construção do inédito complexo de beisebol, Adriano de Souza desenvolve trabalho com 22 crianças da cidade junto com mais dois professores colombianos, custeados pelos Rays. As aulas são ministradas no Nikkey Clube, que recebe pelo aluguel do campo. “Nosso contrato termina agora em julho, e eles não vão querer renovar”, lembra Adriano. “Infelizmente, no Brasil, o que se conhece do beisebol é o que a colônia nipo-brasileira apresenta. Queremos mudar esse rótulo e dar oportunidade das crianças terem acesso a esse esporte. Mesmo que não se tornarem atletas profissionais, que estas crianças sejam melhores cidadãos”, cita.
O projeto esquecido por Marília não foi deixado de lado pelos irmãos Adriano e Edno de Souza. “Sofremos um pouco, pois, tanto o Tampa quanto a MLB, ficaram decepcionados como tudo transcorreu. Mas iniciamos o projeto da Little League em outras cidades e agora estamos analisando situações para dar continuidade ao projeto de construção da academia de beisebol no Brasil”, garante Edno confirmando que Bauru é uma das cidades na mira das franquias da MLB.
“A cidade de Bauru, como também a região de Bauru, fazem parte do projeto de atração de novas organizações como o Tampa Bay Rays. Mas neste momento estamos concluindo a etapa inicial que, devido aos atrasos em virtude da inabilidade política, não nos permite expandir de maneira estruturada. Para se chegar em Bauru precisamos concluir esta etapa que denominamos piloto e, aí sim, expandiremos. Para muitos era uma utopia, um sonho de dois irmãos carecas e loucos. Acho que mostramos que não”.
Não é ‘coisa de japonês’
Apesar de rotulado como sendo criação dos japoneses, o beisebol foi criado nos Estados Unidos em 1839. Faz de parte do quarteto de esportes mais praticados pelos norte-americanos junto com o basquete, o futebol americano e o hóquei no gelo.
No Japão, pós-segunda guerra mundial, o beisebol encontrou realmente sua segunda casa. Tanto que foram os imigrantes japoneses do século 20 que trouxeram o beisebol para as terras brasileiras.