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Governo tenta engabelar o povo

Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 3 min

Se o governo adotasse um procedimento lógico, agindo com racionalidade, certamente deixaria de continuar tomando decisões fracassadas logo no nascedouro. Uma atrás de outra as decisões vêm provocando mais reações desfavoráveis que as que já estão em vigor e que são as causas do descontentamento da população. As manifestações populares resultaram do amadurecimento da insatisfação com as más condições de vida da maior parcela da população. E não é somente com os problemas que enfrenta que o provo está insatisfeito, mais que isso, é que se sente roubado pelo desperdício do dinheiro que lhe é tirado compulsoriamente, pelos tributos exagerados, e pela corrupção desenfreada. A situação é séria demais para ser resolvida com medidas intempestivas, nascidas de reuniões inadequadas para tratar de assuntos dessa natureza, como a que a presidente Dilma fez com Lula e João Santana, seu marqueteiro, para estudar uma estratégia publicitária para gerenciar a crise, ou com assessores e ministros perplexos como ela. Por que ela não convocou o Conselho da República, previsto na Constituição, para "as questões relevantes para a estabilidade das instituições democráticas?" Se foi por achar que o povo é pacífico e as instituições não estão ameaçadas, engana-se, porque a ameaça maior ao País não vem do povo, mas exatamente daquilo que o povo condena e que precisa ter um basta.

Em comentário anterior dissemos que era necessário conhecer melhor os sentimentos que vêm inspirando as manifestações populares. A propósito, a IBM lançou um projeto chamado "Ei!"- Big Data e Analytics, uma tecnologia para análise de sentimentos, em português, que processa automaticamente um grande volume de dados gerados no Twitter sobre determinados assuntos. Estatísticas e gráficos refletindo os comentários são gerados imediatamente por essa ferramenta. Foi usado na Copa das Confederações para ?ouvir a vós de treinador que existe em cada torcedor?. Não poderia ser usado para saber o que o povo sente quando o governo oferece importar médicos e aumentar dois anos na formação dos futuros médicos, em confronto com a situação real dos hospitais caindo aos pedaços? A falta de leitos, de uma estrutura decente mínima e de remédios, seria atendida pela proposta? Não seria útil, também, para colher o sentimento sobre o trem bala, em confronto com a insuficiência e precariedade do transporte urbano? O povo está querendo viajar de São Paulo ao Rio em trem moderno, de alta velocidade, ou quer conforto e segurança para ir ao trabalho? Imagine o que revelaria o sentimento sobre a oferta apressada de uma reforma política, mudando as regras da eleição, em confronto com o apoderamento da máquina estatal pelos políticos, em benefício próprio. O povo está insatisfeito com a maneira de votar ou com os políticos?

O governo não ouve quem deveria ouvir. No caso dos médicos, os Conselhos de Medicina e as universidades não foram ouvidos. Em entrevista na Globo News, o doutor Jatene disse que faz parte de uma comissão que assessora a SESU para reformulação do currículo de Medicina. A ideia da passagem do aluno pelo SUS é sua, como um pré-requisito para a residência médica. A sua ideia foi apropriada sem consultá-lo e de forma incorreta. Ele alega que os alunos vêm sendo formados por especialistas e a passagem pelo SUS daria ensejo de contato do estudante com o mínimo de medicina de cada especialidade que o médico deve possuir. A proposta do governo está servindo mais para confundir que para ajudar. Talvez seja o que escreveu Rubens Ricupero, na Folha do dia 8: "Confundem com o desejo de atender à população o que pode não passar de maneira diferente de dizer não. Afinal, adiar as soluções práticas equivale à negação."

O autor, Pedro Grava Zanotelli, é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru e membro da ABLetras

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