São duas horas da madrugada e a nossa presidente acorda com dor súbita, de forte intensidade, na região lombar que se irradia para o abdômen e se acompanha de náuseas e vômitos. Imediatamente, a sua enfermeira presume se tratar de cólica renal e tenta, em vão, medicá-la com buscopan em gotas. Ao mesmo tempo aciona o Samu e é avisada que deverá chegar o socorro em mais ou menos uma hora.
A chegada do Samu é um alívio, porém a presidente, que continua com fortes dores, é avisada que deverá ir até algum serviço público e não privado.
Serão longos minutos até chegar ao Pronto Socorro do Hospital de Base de Brasília. Infelizmente, ela deverá aguardar na fila e um enfermeiro consegue uma maca, para que nossa querida presidente seja medicada por um médico que está atarefado com outros 5 pacientes que apresentam outras doenças mais graves. Felizmente, ela é medicada e a dor é suavizada. Os vômitos cessam e a Presidente passa a raciocinar. Seu maior desejo, neste momento, é chegar até o Hospital Sírio Libanês, porem está muito longe, a urgência de seu quadro clínico não permite. Por sorte, consegue uma vaga no Hospital de Base, já que se fosse esperar pela consulta com urologista no ambulatório de especialidades demoraria 6 meses.
Internada, foi atendida pelo urologista que diagnosticou um cálculo de 1 cm no ureter médio da Presidente. O tratamento de escolha seria ureterolitotripsia transureteroscópica por ondas de choque (fragmentação do cálculo através da introdução de aparelho pelo ureter). Infelizmente, o Hospital não dispõe desse recurso para os pacientes do SUS. Aliás, este procedimento não consta da tabela de procedimentos do SUS, pois o Ministério da Saúde nega-se a atualizar a tabela da Urologia, que tem 20 anos (pasmem, 20 anos). Lamentavelmente, a Presidente deverá ser tratada como todos os pobres mortais que dependem deste sistema, através de cirurgia aberta, e deverá ficar pelo menos 15 dias afastada de seu querido poder.
Mas, para perplexidade de todos eis que surge uma nova oportunidade: são 35.000 novos médicos no Sistema, oriundos de todas as partes do mundo e do universo, entre eles, um em especial, que vem do planeta Krypton: É o SuperDoctor, que resolverá, como num passe de mágica e vôos rasantes por todo o território nacional, as agruras do sistema público de saúde. Vem com uma bolsa de valores que inclui 10% de todo o orçamento da união no sistema financeiro da saúde. Traz também vários equipamentos que permitirão o tratamento não somente da Presidente , mas de todos os brasileiros, com as maiores inovações da Medicina.
De repente, acordo... e decido: vou me embora para Passárgada...
O autor, Aguinaldo Nardi, é presidente da Sociedade Brasileira de Urologia