Articulistas

Sinal amarelo: a desaceleração econômica

Reinaldo Cafeo
| Tempo de leitura: 3 min

O sucesso ou insucesso de um negócio tem inúmeras variáveis a serem analisadas, mas é imprescindível a qualquer empreendedor, seja ele empresário ou profissional que presta serviços a organizações, saber fazer a leitura do ambiente econômico e, com esta leitura, desenvolver a capacidade de traçar cenários, contribuindo, quando necessário, para mudança para melhor no planejamento das organizações.

No final do ano passado a previsão era que a economia brasileira cresceria neste ano algo próximo a 4%. Esta previsão foi alicerçada no fato de 2012 ter patinado, apresentando baixo crescimento, portanto, uma base precária, e ainda na recuperação econômica dos países que estavam atolados em crises, sem contar ainda com importantes eventos tais como a copa das federações, a própria copa do mundo e olimpíadas, e ainda com o robusto mercado doméstico. O que mudou? No contexto macroeconômico quatro grandes metas não podem se perder. É preciso criar condições para que a economia cresça, que haja geração de emprego, que a renda seja distribuída de maneira justa e que os preços sejam controlados, ou seja, que a inflação fique comportada. Se analisarmos friamente o ambiente econômico o que deteriorou neste ano foi o controle inflacionário. O mercado brasileiro, sem um choque de oferta de produtos para sustentar o crescimento econômico, conviveu com desequilíbrios importantes. O setor de alimentos observou e ainda observa inflação de dois dígitos, atingindo em 12 meses mais do que 14%. Isso diante de uma inflação oficial na ordem de 6,5% ao ano.

A inflação desgarrando colocou em dúvida o modelo econômico adotado pelo atual governo. Incapaz de segurar seus gastos, tendo que apostar na desoneração tributária para garantir o nível de emprego conquistado, gerou um buraco em suas contas que levou a desconfiança do mercado. Isso é observado no nervosismo do mercado, na queda da bolsa, dólar pressionado, juros futuros em alta, entre outros sinais importantes. Não restou outro caminho senão voltar a monitorar os preços via política monetária. Das quatro grandes metas, controlar a inflação passou a ser prioridade, e como o cobertor é curto, o crescimento econômico foi colocado de lado, e com isso, o mercado como um todo terá que arcar com as consequências.

A produção industrial está em queda. Produção de automóveis é um exemplo. As vendas no comércio caíram de uma maneira geral. Em lojas de departamento esta queda atingiu até 8% nos primeiros quatro meses deste ano. O crédito está mais caro e os bancos mais seletivos na concessão de empréstimos aos seus clientes. As famílias se deram conta que não podem se endividar além do suportável e estão mais prudentes quando realizam suas compras. O resumo é que o mercado está instaurando um ciclo vicioso perversor à economia: baixo consumo, queda nas vendas, menor margem de lucro, menos apetite em investir, menos movimentação da economia, menor crescimento econômico.

De um lado a inflação estará nos níveis desejados, por outro lado o preço a ser pago será amargo: produto interno bruto crescendo na sofrível marca de 2% a 2,2% este ano. Muito aquém de nossas reais necessidades, e isso ainda comparado com uma base ruim que foi o ano de 2012. Isso poderá se agravar quando o baixo desempenho econômico vier carregado com aumento no desemprego.

Voltando à leitura do ambiente econômico e à capacidade de mudar os cenários nas empresas: sem pessimismo, mas com os pés no chão, passou da hora de rever o orçamento para este ano. É o momento de ter clareza na previsão de vendas até o final do ano. Com este patamar de vendas, rever o custo de mão-de-obra, e dos custos e despesas operacionais, incluindo na análise os projetos de investimentos que estão em maturação.

Quem for capaz de mudar os rumos da coisa garantirá menor custo para contornar os momentos mais agudos que podem vir pela frente. Insisto: sem pessimismo, mas com estratégia para que os sinais do mercado sejam transformados em ações dentro das empresas.

O autor, Reinaldo Cafeo, é economista, diretor regional do Corecon e articulista do JC

Comentários

Comentários