Bairros

Há livros, mas onde estão os leitores?

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 7 min

Sempre que pode, a artista plástica Regina Romano vai até a Biblioteca Ramal do Jardim Progresso e leva para casa exemplares que encantam, atiçam a imaginação e estimulam o gosto pela leitura dos sobrinhos, além de alimentar as suas próprias necessidades. “Quanto mais se lê, mais se aprende”, acredita.

Entretanto, o hábito de Regina é cada vez mais raro entre a população. Ao menos foi o que constatou a equipe do JC nos Bairros junto às seis bibliotecas ramais visitadas na última semana. Abertas ao público no recesso escolar, elas são boas opções de lazer, entretanto, durante a reportagem estavam praticamente vazias.

Além de artista plástica, Regina trabalhou 25 anos em bibliotecas públicas. Ela lembra que a procura pela leitura caiu drasticamente nos últimos anos, mesmo com os esforços: “Temos as ramais nos bairros e isso facilita muito. As pessoas não precisam pegar ônibus para ir até a central. Economizam tempo e dinheiro, mas mesmo assim é difícil ver o interesse”, lamenta.


Concorrência tecnológica

O professor de literatura e língua portuguesa Naul Antônio Buchignani Filho observa diariamente a falta de interesse pela leitura, principalmente dos jovens. Para ele, a triste e preocupante realidade ganhou força a partir do momento em que os livros passaram a dividir a atenção das crianças com a tecnologia.

“É uma competição muito grande. As crianças e os adolescentes, especialmente, ficam o tempo todo com os celulares nas mãos, o que é preocupante porque eles ainda não têm opinião formada sobre a importância da leitura e não preenchem o seu tempo também com esse hábito”.

Ainda de acordo com o professor, o estímulo acontece nas escolas, entretanto, é muito voltado para as obras exploradas por vestibulares e pelo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), o que representa uma pequena parcela do que deveria ser feito.

Naul ainda aponta que outras instituições e órgãos, como a própria família, igreja, imprensa e até psicólogos e psiquiatras têm papel importante na valorização da leitura. “Os livros não devem ser mencionados apenas com aquela velha ideia de que são capazes de fazer viajar. Eles ajudam a desenvolver a mente, o raciocínio, o poder de concentração e até a disciplina. E ninguém mais fala sobre isso”, ressalta.


Ramais: faltam cursos e projetos para atrair leitores

Os espaços são bons e tranquilos para os estudos ou leitura, os acervos são variados, há informação diária por meio de jornais... Mas elas normalmente ficam vazias. Infelizmente, este é retrato das bibliotecas ramais espalhadas pelos bairros de Bauru. Preocupados com a distância dos leitores, principalmente das crianças, os profissionais desses espaços apontam a necessidade de se criar mecanismos para atrair o público.

Segundo o auxiliar de biblioteca Ednaldo Felício, que atualmente trabalha na ramal do Mary Dota, nas férias escolares normalmente há redução na procura por livros. “Para trazer os jovens e as crianças precisaríamos ter outros atrativos, como computadores disponíveis com internet, por exemplo. Parece que até o final do ano isso será possível, ao menos há a expectativa. Hoje, a impressão que temos é que somente os livros não são suficientes para as bibliotecas”, pontua.

Já Ivone Guimaro Lino, da ramal do Jardim Progresso, acredita que cursos de artesanato, como crochê e pintura, além de aulas de violão e canto são outras boas opções para chamar novos leitores. “Aqui, a gente aposta em desenhos coloridos, cartazes e até chamamos as crianças do bairro. Computadores, já temos. Mas não temos permissão para ligá-los”, aponta.

Para a auxiliar de biblioteca Nilza Maria de Oliveira Castro, do  Núcleo Habitacional Presidente Geisel, é evidente que falta interesse da população em relação aos livros, principalmente dos mais jovens. Segundo ela, os adultos são os que mais procuram o acervo para a leitura, e os romances são os livros mais emprestados.


Sem monitoria e atividades extras

Ao contrário do que ocorre com a Biblioteca Central, as ramais não estão contando com oficinas e atividades extras nas férias de julho. Segundo a bibliotecária responsável, Maria Luiza Zanzarine Araújo, faltam funcionários para as ações extras.

“No momento há apenas uma funcionária responsável pelas oficinas de férias, então decidimos centralizá-las na Biblioteca Central para depois levá-las para as ramais. Por outro lado, há a expectativa de contratação de estagiários para ajudar nesse trabalho”, afirma.

De acordo com Araújo, oficinas e cursos são importantes para levar os leitores para as bibliotecas ramais. Ela acredita que, com tais programações, as pessoas movimentam as bibliotecas e acabam tendo mais contato com os livros, o que pode despertar a curiosidade e o prazer pela leitura.

Quanto à questão dos computadores, uma necessidade sentida principalmente nas ramais, Araújo esclarece que há máquinas para todas elas, mas faltam monitores.

“Dependemos de uma posição do Ministério da Cultura. O trabalho de telecentro é deles. Foram eles que colocaram os computadores nas bibliotecas.  Temos máquinas ainda encaixotadas porque falta a contratação de monitoria”, explica. 


Números das bibliotecas municipais

- Em Bauru, a Divisão de Bibliotecas é integrada pela Biblioteca Municipal Rodrigues de Abreu, seis bibliotecas ramais e o “bibliônibus”, que atende eventos e escolas por agendamento.

- A Biblioteca Central é informatizada desde 31 de agosto de 2002 e conta com um acervo de mais de 44 mil obras disponíveis, além de periódicos, vídeos e uma hemeroteca.

- A Biblioteca Infantil “Ivan Engler de Almeida”, a Gibiteca Municipal “Aucione Torres Agostinho”, a Biblioteca Verde e a Sala de Acessibilidade estão localizadas dentro da Biblioteca Central.

- As bibliotecas ramais possuem um acervo de 16 mil exemplares e atendem a periferia da cidade com livros renovados e um banco de dados que permite o empréstimo entre bibliotecas.

- O número de usuários cadastrados nas bibliotecas ramais é de cerca de 15 mil.


Fonte: www.bauru.sp.gov.br

Biblioteca Central foge à regra

Ao contrário do que acontece nas bibliotecas ramais espalhadas pelos bairros, na Biblioteca Central Rodrigues de Abreu não faltam leitores, sejam adultos ou mirins. Além de centralizar uma gama maior de obras literárias, o local ainda abriga outras atrações que chamam a atenção do público.

Uma delas é a programação de férias que, desta vez, conta com a presença de personagens das obras de Monteiro Lobato, como o Sítio do Pica Pau Amarelo, por exemplo.

Para tanto, durante todo o mês de julho, a Biblioteca Infantil Ivan Engler de Almeida segue com nome novo: Biblioteca “Visconde de Sabugosa”. A programação está repleta de informação e magia, como conta a coordenadora das oficinas de férias da Biblioteca Infantil, Rosângela Maria Barrenha.

“Rodas de conversas, oficinas de brinquedos, jogos, artesanato, além é claro de muita informação e diversão ao lado dos pais ou acompanhantes e dos personagens do Sítio fazem parte das atrações”.

Segundo a coordenadora, o objetivo é despertar as crianças para a literatura nacional, o respeito e os cuidados com os livros, além de estimular o desenvolvimento e ensinar sobre a sustentabilidade com a confecção de brinquedos feitos com material reciclável.

“Eu, por exemplo, trouxe os meus netos Ryan e Igor por acreditar na diversão e importância da leitura e das artes no desenvolvimento infantil”, diz a aposentada Isabel Moreno Peres.


Serviço:

Informações e agendamentos para as oficinas pelo telefone (14) 3235-1312.


Figurinha carimbada

A estudante de letras Caroline Lima já é figurinha conhecida na Biblioteca Municipal Rodrigues de Abreu. Isso porque ela não abre mão de um bom livro, principalmente para pesquisa. “Eu confesso que a primeira ferramenta a que recorro para estudar é a internet, mas em muitos casos os bons e velhos livros são as melhores companhias”, diz.

E como ler também é lazer, a estudante opta por obras de cronistas nas horas vagas. E quando não é possível comprar o livro desejado, nada melhor do que emprestá-lo do acervo municipal. “Aqui, a oferta de títulos é grande, mas infelizmente eu não conheço muita gente que tenha o hábito de frequentar bibliotecas”, lamenta.


Informação em cada canto

Quem também é frequentadora assídua da Biblioteca Central é a estudante Juliana Machado. Em preparação constante para o vestibular, ela admite que prefere as mesas da biblioteca porque em casa se distrai facilmente.

“Eu também tenho a impressão de que aprendo mais aqui, acho que é porque o conhecimento e a informação estão por todos os lados. Nas férias eu venho todos os dias e fico três horas, em média”, finaliza.

 

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