Éder Azevedo |
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Com o aprimoramento dos trabalhos, professor da Unesp pretende estender o projeto para a fabricação de mobiliário |
Um projeto de extensão encabeçado pelo Departamento de Engenharia Mecânica da Unesp, campus de Bauru, está mudando a vida dos assentados do Horto de Aymorés, no município de Pederneiras. Usando bambus, os assentados estão fabricando uma série de materiais, especialmente aqueles usados na culinária. Recentemente, o Projeto Cara do Brasil, do Grupo Pão de Açúcar, fechou um contrato e vai distribuir em suas lojas 600 colheres e 600 espátulas com a ‘grife’ da nossa região.
A compra totalizou 1.200 peças e o dinheiro a ser recebido, segundo o presidente da Associação Agroecológica Viverde, José Maria Rodrigues, será usado para a manutenção do projeto. “Essa venda motivou os assentados porque é sinônimo de mais uma opção de subsistência no campo. O artesanato permite ganhos mesmo quando somos atingidos pelas intempéries. É uma implementação de renda. Vamos fazer uma distribuição de renda mais justa.”
Ele explica que os assentados desenvolvem suas atividades com hortifrúti, gado e outras plantações. “O assentado dedica uma hora do dia para trabalhar com o artesanato e continua cumprindo suas obrigações na terra. Ele confecciona cinco ou seis colheres e marca em um caderno. Na venda, distribuímos a renda.”
Para concretizar a venda à rede supermercadista, a associação teve que contar com a ajuda dos estudantes. “Tivemos que fazer um histórico do produto, código de barra do Viverde, como utilizar os produtos, além de um novo catálogo. Eles trataram as fotos.”
De acordo com Rodrigues, o novo catálogo deve atrair novos clientes. “O Projeto Taquara, formado por um grupo de alunos da Unesp/Bauru, coordenado pelo professor doutor Marco Antônio dos Reis Pereira, tem como uma das missões nos ajudar na conquista de novos compradores. Eles recebem bolsas para desenvolver trabalhos científicos nessa área. E vão desenvolver novos produtos também. Atualmente estamos negociando com a Agrosolo de Bauru.”
Para mostrar o que fazem na área de artesanato no assentamento, o Projeto Viverde montou um salão com os produtos mais procurados. “Temos o Espaço Bambu, localizado próximo ao Bauru Shopping. Construímos dois quiosques dentro do Colégio Técnico Industrial Isaac Portal Roldan, na Unesp/Bauru. Eles são sextavados. Fomos contratados pela universidade. Temos outro no pesqueiro Angatu, de Piratininga. Desenvolvemos alguns trabalhos ‘ditados’ por arquitetos da cidade, cita Rodrigues.
Ainda no setor de divulgação e venda de produtos, o Projeto Viverde participa de feiras locais e regionais.
“Recentemente participamos da Festieco/Bauru e vamos participar da Agrifam, em Lençóis Paulista, em agosto próximo. No ano passado estivemos presentes na Feira das Nações de Pederneiras, este ano não comparecemos porque a data coincidiu com a Festieco. Nesses eventos fazemos contatos com pretensos clientes e vendemos muita bijuteria, luminárias, colheres, chaveiros, entre outros produtos”, comemora.
Utilização do bambu foi ‘surpresa’
Considerado o ‘amigo da natureza’ na área ambiental, o bambu é um grande protetor do solo graças ao seu vigoroso sistema radicular, além de ser um “sequestrador” de gás carbônico. Para os orientais, o bambu é uma divindade e por isso, ele é reverenciado.
A relação do bambu com os assentados do Horto de Aymorés começou em 1997, quando as 200 famílias ainda estavam acampadas, comenta o presidente da Associação Agroecológica Viverde, José Maria Rodrigues.
“Ainda não tínhamos sido assentados quando os alunos da incubadora da Unesp iniciaram estudos para o trabalho da infraestrutura de um assentamento. Eram cerca de 22 alunos. Eles escolheram algumas áreas em que poderíamos trabalhar. Na época tinha um barracão antigo onde a gente desenvolvia um trabalho com algumas famílias. Uma das propostas era trabalhar com cestas de hortifrúti orgânico. Para entregar as verduras, usamos caixinhas de pinus. Na busca por um produto mais natural, nos deparamos com o bambu.”
Ele lembra que no assentamento há famílias que trabalham com estufas de verduras, pimentões, tomate, dentre outras hortaliças. Tem algumas que trabalham com gado e ainda, outras que trabalham na cidade. “Hoje no Horto de Aymorés tem aproximadamente 450 famílias, nas glebas I e II.”
A ideia ganhou peso com a ajuda do professor doutor Marco Antonio dos Reis Pereira. “Ele já desenvolvia um trabalho na Unesp há quase 20 anos. O doutorado dele foi sobre irrigação com bambu. Ele tem livro publicado junto com um professor de Campinas. Foi ele que nos incentivou e nos orientou. Fomos conhecer o bambu. Com um grupo de famílias começamos a aprender o manejo, cultivo, como tirar muda, ficamos uns seis meses no campo desenvolvendo trabalhos dentro da área agrícola da Unesp”, lembra Rodrigues.
Oficina
Após esse período, os assentados foram para a oficina. “Nossa ideia era construir uma cesta de bambu ou uma caixinha. Tornar o produto mais corretamente ecológico, com um produto renovável que é o bambu. Quando chegamos à oficina, a gente se depara com alguns trabalhos de conclusão de curso de alunos. Ficamos admirados com tudo, e começamos a fazer os artesanatos dentro da universidade.”
Uma área comunitária do assentamento foi destinada ao plantio das moitas de bambu, explica Rodrigues. “Hoje temos 120 moitas plantadas. Elas estão com três anos. Daqui a alguns anos começaremos a manejar essas moitas. A partir do manejo, vou tirar em torno 10 bambus ao ano em cada moita.”
No assentamento o plantio está no quarto ano. “Em dois ou três anos começaremos a usar dele. O Vicente Coimbra, assentado que é o vice-presidente da associação, participou das primeiras oficinas e o bambuzal dele vai começar a ser utilizado. Esta semana eu trouxe quatro mudas, vou passando para as pessoas que se interessarem pelo assunto.”
Bananeira
O bambu é da família da bananeira e o trabalho tem que ser feito com o “filho, mãe e avó” da muda plantada. “A tataravó é retirada. É sequencial, então, se o ano que vem vou tirar a tataravó, a avó vai ficar para o próximo ano e depois vou poder tirar e vem outro filho. Todo ano nasce um filho novo. Na grossura que ele sair, vai levantar. Usamos bambu gigante. Em três ou quatro meses ele já está na altura.”
Rodrigues explica que os orientais enfatizam o lado natural do bambu. “Eles dizem que a energia de um produto natural é muito diferente daquele que é fabricado. Um pé de eucalipto vai fornecer uma vara para fazer o papel e celulose com oito anos. Numa moita de bambu, em oito anos eu colho 10 bambus por ano. Eu posso utilizar o bambu no sítio. Com ele posso fazer a minha cerca, curral, minha casa. Pode usar como cano e no sistema de tratamento de esgoto”, atesta Rodrigues.
Galpão acolhe oficina de trabalho no Horto de Aymorés
O galpão usado para o trabalho dos assentados com o bambu é fruto de dois projetos com patrocínio, comenta o presidente da associação, José Maria Rodrigues. “Um foi o projeto da Ruth Cardoso, que é o Universidade Solidária. Entrou verba de R$ 40 mil, daí compramos maquinário para funcionar a nossa oficina, porque não tínhamos nada. Trabalhávamos com uma lixadeira dentro da universidade. Compramos mais quatro lixadeiras, mais equipamentos e isso ficou dentro da universidade por dois anos.”
Rodrigues enfatiza que, para o futuro, pretende construir um viveiro de bambu e um quiosque natural com 200 metros quadrados. “Vamos instalar um Telecentro. Pretendemos fazer no assentamento um ponto turístico. Estamos fazendo um curso de turismo no Senar (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural). Já fizemos uma bancada de bambu na área de um assentado. A ideia é vender mudas de bambu para os agricultores do assentamento. Quem plantar 10 mudas, daqui a cinco anos vai ter bambu para vender para o próprio Viverde.”
O bambu pode gerar renda para todos os integrantes da família dos assentados. “As famílias têm vários integrantes e nem todos querem trabalhar no sítio. O pai pode plantar bambu, a mãe pode fazer o broto de bambu para vender e o filho pode trabalhar no artesanato. É uma alternativa. Fazemos até mobiliário”, destaca Rodrigues.
Segundo ele, cada produto feito pelos assentados tem um público específico. “Nas feiras vendemos muito mini chaveiros, colher, espátula, vasinhos, decoração, luminárias. Os arquitetos pedem peças que eles mesmos desenvolvem. Nosso carro-chefe são as colheres.”
Para a confecção de uma colher de bambu há um longo caminho a ser percorrido. “Primeiro colhemos o bambu, que vem para a oficina. Tratamos o bambu com óleo vegetal para evitar a visita da broca.”
Usar uma colher de bambu para mexer alimentos tem inúmeras vantagens para uma vida mais saudável, segundo o presidente da associação. “Ela resiste a temperaturas altas. Se for usada numa panela de alumínio ou de aço, não capta esse material para o alimento porque não raspa. O alimento não fica contaminado com alumínio, e isso é qualidade de vida”, exemplifica.
Broca é inimiga do bambu
A broca é o inimigo número um do bambu, segundo o presidente da Associação Agroecológica Viverde, José Maria Rodrigues. Para evitar a desagradável visita dela nas plantações, alguns cuidados devem ser tomados.
“Após a colheita, o bambu passa pelo sistema de tratamento, que é a substituição de seiva. Extraímos o amido do bambu e acrescentamos o octoborato, que é um fertilizante utilizado na agricultura. Não é cancerígeno, não prejudica a saúde das pessoas. Esse sistema é adotado no bambu para o artesanato. Não é usado para as peças que vão ser usadas na culinária.”
Junto com um aluno da Unesp, os assentados estão desenvolvendo um outro sistema. “É com vapor. Esse sistema é mais eficaz porque o bambu recebe o vapor da água a 170 graus. O vapor vai entrar nele e cozinhar o amido dentro dele. Isso evita a visita da broca.”
Qualquer lugar que tenha bambu, o cheiro do bambu, a broca está por perto, comenta o presidente da associação.
“Elas descem e começam a comer. Quando a gente faz a substituição da seiva, ela vai tentar entrar no bambu e morre na porta. A broca não pode ingerir sal, o contrário dos humanos diabéticos. Na culinária, o sistema de vapor vai dar mais segurança de não perder o produto para a broca.”
O bambu depois de tratado adquire resistência. Para conservá-lo, é preciso evitar a umidade ou o calor demasiado. “Tem que ter um espaço coberto para acolhê-lo. Há uma tendência de usá-lo na construção. Essa ideia vem ganhando espaço no Brasil. A universidade comprou umas máquinas que vão permitir a fabricação de placas de laminado de 1 metro e 1,20m, com a qual poderão ser confeccionadas portas de bambus. Ele é leve e resistente. Tem fibra bem duradoura.”
Ele explica que o bambu tratado, protegido de umidade ou de muita caloria dura até 30 anos.
“O que encarece o bambu é a mão de obra. Uma madeira de eucalipto você descasca e está pronta. O bambu tem que lixar cuidar, proteger, e tudo isso tem custo”, explica Rodrigues.
Purificador de ar
O carvão do bambu é um sequestrador de gás carbônico, e no futuro poderá ser comercializado em pequenos pedaços para purificar o ar. “O projeto de um aluno é fazer carvão de bambu. No Japão eles usam um pedaço desse tipo de bambu até em escritórios para sequestrar o gás carbônico da atmosfera e tornar o ar mais puro”, observa José Maria Rodrigues.
“Quando a gente entra na oficina, a gente está vivendo um momento de terapia... Tem as crianças, um deles fez cata-vento, algumas coisas eles criam. A ideia é de que os projetos venham deles (assentados do Horto de Aymorés). Eles criaram o catálogo, trataram as fotos. O primeiro catálogo nosso saiu em 2010, e agora estamos renovando.”
Assentamento fará produtos laminados
O assentamento rural do Horto de Aymorés vai entrar em uma fase mais profissional no futuro. Essa é a previsão do professor doutor Marco Antonio dos Reis Pereira, da Unesp de Bauru. Segundo ele, o foco é fazer com que o projeto de extensão gere uma renda maior. Eles pretendem fabricar produtos com laminados colados, que são mais valiosos.
“Ao invés de vender uma colherinha que vale R$ 10,00, eles vão vender uma cadeira que vale R$ 300,00. A ideia é melhorar a produção, e esse é o próximo passo nosso. Para isso precisa de projeto, dinheiro, máquinas.”
De acordo com Pereira, com os laminados colados é possível fazer muitas peças de mobiliário. “Passamos o bambu para o formato de lâmina, dá para fazer porta, cadeira, mesas etc. Além de serem mais valiosos, eles têm um design mais avantajado.”
Ele frisa que por enquanto os assentados possuem renda apenas para sobreviver. “O projeto está no começo. A tendência é ir colocando mais técnica lá dentro, um designer mais bonito para conseguir um mercado melhor. Para conseguir vender mais e fazer com que as famílias se fixem no campo. Nossa meta é chegar a 30 famílias vivendo da produção de peças com bambu, estamos trabalhando para isso.”
O professor ressalta que o pessoal está capacitado, mas ainda falta verba para concretizar alguns itens. “Temos uma série de problemas no assentamento. Estamos tentando saná-los. Falta verba. Não existe financiamento para um tipo de projeto. Eles estão capacitados. Se alguém quiser um quiosque em casa, por exemplo, é só fazer o contato que eles vão e montam. O projeto de extensão ainda é pequeno, não conseguimos gerar renda de um milhão/ano.”
Os assentados não possuem uma equipe de comercialização dos produtos, explica Pereira. “(O pessoal do) projeto de extensão vai tentando fazer contatos. Atualmente estamos tentando comercializar com o grupo Walmart e Tok Stok.”
O projeto bambu na Unesp/Bauru começou em 1970 pelas mãos do professor Pereira, que fez seu mestrado e doutorado na área.
“Fui buscar as espécies e plantei no campo, aqui mesmo. Começamos as pesquisas com espécies prioritárias, aquelas de interesse econômico, comercial e tecnológico. Isso vem sendo desenvolvido até hoje, a parte de manejo, campo de produção, colheita, como fazer a muda, o trato. A gente faz tudo aqui dentro. Primeiro fiz a minha pesquisa. Depois coloquei os alunos com um projeto de extensão chamado Taquara. São alunos da Faculdade de Arquitetura Artes e Comunicação (FAAC) do curso de design, arquitetura e da engenharia.”
O projeto Taquara tem várias finalidades: pesquisar, preparar trabalhos para os congressos, desenvolver produtos.
“Na faculdade há vários produtos montados pelos alunos. No assentamento eles desenvolvem mais artesanato, aqui podemos ter mais qualidade. Os estudantes fazem a parte social, divulgam o projeto com escolas, fazem palestra, levam produtos, fazem pirâmide de ginástica, eles estão levando as informações para fora da Unesp através do projeto Taquara. Eles se formam sabendo sobre o bambu e, quem sabe, irão usar na vida profissional. Temos atividades na pós na área de cultura também”, destaca o professor Marco Antonio dos Reis Pereira.
