Um dos mais respeitados jornalistas esportivos do País, Chiquinho Leite Moreira, grande especialista em coberturas do mundo do tênis, se prepara para uma importante marca. Não se trata de mais um título de campeões das quadras como Roger Federer, Rafael Nadal, Novac Djokovic ou nosso Gustavo Kuerten. O feito, agora, é pessoal.
Moreira, que tem residência fixa em Bauru, se prepara para cobertura de número 70 dos torneios Grand Slam, os principais campeonatos que integram o circuito mundial da Associação dos Tenistas Profissionais (ATP). A marca será alcançada durante os trabalhos do U.S. Open, o Aberto dos Estados Unidos, entre o final de agosto e o início de setembro.
Apesar da vasta experiência no mundo do tênis profissional, por meio de trabalhos em importantes veículos de mídia como o jornal “O Estado de S.Paulo” e atualmente o canal “Bandsports”, onde apresenta o programa “Ace Bandsports”, Chiquinho demonstra uma simplicidade que, segundo ele, é vista, por incrível que pareça, também no circuito mundial.
Residências compartilhadas que se tornam verdadeiras “repúblicas” entre treinadores, atletas e jornalistas, palcos de importantes competições que, na verdade, estão longe de grandes centros e outros que, surpreendentemente, estão em bairros nem tão glamourosos quanto se imagina, comida ruim cozinhada por pai de figurão do esporte. História não falta.
Testemunha das primeiras raquetadas de Gustavo Kuerten nos grandes torneios mundiais, antes de Guga sonhar que seria tricampeão de Roland Garros, Chiquinho afirma que o “Manezinho” da Ilha tinha tudo para ir longe, diferentemente do que faz a maioria dos tenistas brasileiros hoje em dia.
Para o especialista, Guga não perdia tempo, nem dinheiro. Encarava, sem cerimônia, qualquer parada para jogar torneios na Europa, principalmente. “Hoje, muitos optam pela universidade nos Estados Unidos. É uma forma de ter uma opção caso não dê certo a carreira de tenista profissional”, compreende.
Segundo Chiquinho, mesmo após a consagração, Kuerten não sacou da humildade, até mesmo “exagerada”, como nas ocasiões em que o já tricampeão do torneio de Paris viajava de segunda classe ou permanecia em hotéis baratos e carregava as malas para companheiros de viagens, desde o treinador Larry Passos até para jornalistas que o acompanhavam.
‘Nova ordem’ do tênis
Para o jornalista, o tênis passa para um período de maior evidência quanto à mudança no estilo de jogo. Ao contrário de outras épocas, o estilo está mais agressivo fisicamente. “Hoje é 70% pernas”, observa, com maior volúpia e, consequentemente, menor “vida útil” para a carreira do atleta. “O Guga quando começou era evidente que não teria ‘vida longa’”, cita.
Esta “nova ordem” do tênis mundial, observa Chiquinho, tornou-se mais evidente na última edição do torneio de Wimbledon, mês passado. O tradicional torneio, vencido pelo escocês Andy Murray, para Moreira, evidenciou mudanças no esporte que, cada vez mais, se afasta da grama.
Longe da heresia em se retirar o gramado de Wimbledon, esclarece. Contudo, a quantidade de zebras na última edição é uma prova de que esse tipo de piso, apesar do charme, não acompanha mais o atual ritmo da modalidade. “A final salvou a pátria. Mas foi uma das piores edições. Não apenas pelas zebras, mas pela forma como ocorreram os jogos”, reprova.
“Seria impossível pensar em algo como tirar a grama de Wimbledon. Mas a grama é de uma época em que o saque era para começar o jogo. Hoje o tênis está 70% nas pernas. O aspecto físico cresceu muito. Ninguém mais fica em pé na grama”, considera. “Temos quatro Grand Slams. Nos primórdios, três eram jogados na grama. Hoje, apenas um”, argumenta.
Roland Garros, o predileto
O jornalista chega à importante marca profissional em meio a um torneio que promete premiação recorde aos seus vencedores, com a distribuição anunciada de US$ 36 milhões (US$ 12 milhões a mais do que no ano passado).
Mas não é só de cifras que vive um Grand Slam. Para Chiquinho, Roland Garros, com 27 coberturas, é o número um. “Roland Garros tem algo que nenhum outro torneio tem, Paris como sede”, sintetiza.
Enquanto que Wimbledon é tradição e Austrália, tranquilidade, o torneio dos Estados Unidos se diferencia pelo aspecto popular.
Disputado fora da ilha de Manhattan, o campeonato tem como sede o bairro do Queens. “Será o grande torneio, além de ser a ‘Disneylândia do Tênis’. Acontece num parque público, é um torneio popular, diferente do ar aristocrático de Wimbledon”, diferencia.
Tecnicamente, o jornalista acredita que o Aberto dos Estados Unidos também será um divisor de águas. No gramado de Wimbledon, grandes medalhões foram eliminados de forma surpreendentemente precoce. Nos Estados Unidos, em piso de concreto, ou os grandes se redimem, ou uma nova geração dá as caras, acredita.
“O Nadal vai jogar em piso que exige do joelho. Já o Federer vai para um piso em que teoricamente se dá bem. O Djockovic e o Murray estão em plena forma”, analisa. “Aí perceberemos se surge ou não uma nova geração, com o Grigor Dimitrov ou o Iarnovic. Wimbledon não deu a definição, mas há a ideia de que algo está mudando”, acredita.