O papa Francisco desembarca amanhã no Rio e quer que o seu primeiro contato se dê com o povo, antes das autoridades. Vai desfilar em carro aberto seguindo um roteiro que passa por ruas que foram palco de atos de protestos e quebra-quebra. Francisco acredita que as manifestações populares se enquadram no evangelho porque ninguém deve aceitar a indiferença, embora tenhamos que ser realistas a ponto de não esperar varinhas mágicas e soluções ótimas para todos, na velocidade da luz.
Nada faz supor que Francisco seja tratado com desrespeito no Brasil. No Leblon, o artista de praia Ubiratan dos Santos, que há vinte anos esculpe na areia mulheres de "corpo ideal" decidiu destruir seis figuras semi-nuas e deixou somente duas, providencialmente cobertas com saiotes para disfarçar o grande fetiche carioca: a bunda feminina. Por outro lado, a Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos prepara um inusitado protesto pelos gastos do encontro do Sumo Pontífice com dois milhões de pessoas. Também anuncia promover o "desbatismo". Os manifestantes vão empunhar secadores de cabelos para "evaporar as águas do batismo com os ventos do secularismo". O bom da democracia é que ela tolera a diversificação e é ruidosa a ponto de acordar o Sr. Ridículo, aquele personagem pirandeliano que, de vez em quando desperta para aprontar o grotesco. Segundo o Censo há no Brasil 615 mil ateus e 124 mil agnósticos, aqueles que acham que tudo o que ultrapassa o método empírico de comprovação não pode ser aceito ? a existência de Deus, o sentido da vida, do universo...
Para os dogmáticos incautos e ateus furiosos recomendaria o livro "Entre o céu e a terra" (Mondadori, 2010), resumo do diálogo entre o então arcebispo de Buenos Aires Jorge Maria Bergoglio e seu compatriota Abraham Skorda ? rabino argentino de tendência contemporânea. Talvez possa interessar mais a agnósticos que a religiosos. O arcebispo Bergoglio já revela muita cultura. Sua escolha a papa nada tem aleatória. Demonstra interesse pela literatura hispânica profana, cita Borges, quadrinhos e tem obsessão pela antropologia. Do outro lado, o rabino que acha que não só a Torá explica o mundo: Freud tem algo a explicar também. No capítulo ciência versus religião Bergoglio utiliza-se de Frankenstein para chegar a conceitos sobre a coisificação do humano. Condena o "liberalismo selvagem" e o "império do dinheiro". O homem contemporâneo é um ser por demais apegado ao aqui e agora que não alimenta o futuro e, por fim, não evolui em ética e valores. Uma vez papa mandou retirar da Catedral Metropolitana de Buenos Aires a estátua esculpida em sua homenagem. Trocou os sapatos vermelhos da grife Prada pelo calçado rústico de jesuíta. Abdicou da coroa do Bispo de Roma. A saída, segundo o então futuro papa estaria num salto nas relações socioeconômicas. ? "A verdadeira globalização é como a figura de um poliedro; as faces se integram, mas individualmente mantém sua peculiaridade. A globalização que uniformiza é uma maneira de escravizar os povos".
Bergoglio surfa com eloquência nos temas mais espinhosos e mostra surpreendente empatia pelo ateu, cuja honestidade ele não se vê em posição de julgar. "Caso esse ateu tenha baixezas, como eu também as tenho, podemos compartilhá-las para podermos juntos, superá-las. O rabino aquiesce, e tempera a franqueza com o mesmo desprendimento: - "Dizer que Deus existe como se fosse uma certeza seria uma arrogância". Bergoglio crê no demônio, e vê em sua capacidade de fazer-nos acreditar na sua existência, o seu plano mais genial. Porém, uma coisa é o demônio. A outra é "demonizar as pessoas". Pontua que a religião tem o direito de opinar sobre questões como a homoafetividade, o papel da mulher, o concubinato. A igreja está a serviço das pessoas, mas não tem o direito de forçar nada na vida privada de alguém. - "Se Deus na criação correu o risco de nos fazer livres, quem sou eu para me meter."
Francisco pode não ser "o cara", para muita gente, mas merece ser ouvido. Sua presença e ensinamentos servirão para unir as pessoas e melhorar o padrão ético das representações institucionais. Neste momento elas passam por situação delicada diante dos representados impacientes.
O autor, Zarcillo Babosa, é jornalista e articulista do JC