Em um português com leve sotaque e estilo coloquial, o papa Francisco se sucedeu à presidente Dilma no Palácio Guanabara para exaltar, em discurso, a importância dos jovens, a quem chamou de “menina dos olhos”.
Roberto Stuckert Filho/PR |
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O pontífice foi recebido no Palácio Guanabara, no Rio, pela presidente Dilma, onde falou por menos de 15 minutos |
O pontífice afirmou que veio ao Brasil para se juntar a jovens de todo o mundo, que foram atraídos ao País pelo braços do Cristo Redentor. “Cristo abre espaço para eles porque sabe que a energia pode ser maior do que o coração”, afirmou em discurso.
“Cristo bota fé nos jovens e confia-lhes o futuro e sua própria casa. E também os jovens botam fé em Cristo”, complementou o pontífice. No discurso, o papa Francisco reforçou o estilo de recusa a ostentações ao dizer que não trazia ouro, nem prata, mas apenas Jesus Cristo.
O pontífice falou por menos de 15 minutos a autoridades e jornalistas na sede do governo do Rio de Janeiro. Foi o seu primeiro discurso no Brasil, onde desembarcou ontem e ficará até o final da semana.
Em seu chegada à cidade, na tarde de ontem, o pontífice causou preocupação e exigiu um esforço da equipe de segurança pela proximidade com que os peregrinos conseguiram chegar do carro do papa (leia mais na página 18).
Antes de entrar no papamóvel, o papa percorreu vias da cidade em um veículo comum, com a janela aberta, e chegou a ficar preso em meio a um corredor de ônibus. No percurso, ele cumprimentou fiéis e beijou ao menos três crianças.
O papa Francisco encerrou o discurso da tarde de ontem com uma bênção à sociedade brasileira.
“Desde a Amazônia até os pampas, dos sertões até o Pantanal... Ninguém se sente excluído do afeto do papa. Depois de amanhã, se Deus quiser, temos que recordar Nossa Senhora Aparecida. Desde já a todos eu abençoo. Obrigado pelo acolhimento”, finalizou o papa Francisco.
Chegada
O papa chegou ao Brasil às 15h43, na base aérea do aeroporto internacional do Galeão, no Rio. Foi colocado um tapete vermelho para o sumo pontífice passar.
Às 16h01, ele desceu as escadas com um sorriso no rosto e foi saudado pela presidente Dilma Rousseff. O papa recebeu flores de duas crianças e deu um beijo no rosto delas.
Ele foi recepcionado pelo toque de corneta e duas filas de militares - tratamento dispensado aos chefes de Estado que visitam o país.
Além disso, a banda da base aérea e um coral formado por 120 jovens interpretaram o tema da Jornada Mundial da Juventude, encontro internacional de católicos que ocorre de hoje até domingo.
Autoridades foram ao local para receber o sumo pontífice. O papa as cumprimentou com aperto de mãos e abraçou o arcebispo do Rio, Dom Orani Tempesta.
A comitiva de políticos incluiu o vice-presidente Michel Temer e mais oito autoridades, como o governador do Rio, Sergio Cabral e o prefeito do Rio, Eduardo Paes.
Também estavam no avião jornalistas, que acompanharão o papa durante a Jornada Mundial da Juventude.
No centro da cidade, a multidão gritava: “ou, ou, ou, o papa já chegou”. Os sinos da Catedral Metropolitana, no Rio, tocaram no momento da chegada do papa.
Ana Carolina Fernandes |
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Menina de 1 ano e 8 meses foi beijada pelo papa Francisco ao passar com papamóvel |
Dilma afirma que ‘ainda há muito a ser feito’
A presidente Dilma Rousseff deu as boas vindas ao papa Francisco durante a cerimônia de recepção ao sumo pontífice no Palácio Guanabara, no Rio. No discurso, falou sobre as manifestações que ocorreram no País e afirmou saber que ainda há muito a ser feito.
“Democracia gera desejo de mais democracia. E inclusão social provoca cobrança de mais inclusão social. Qualidade de vida, desperta anseios por mais qualidade de vida. Para nós todos os avanços que conquistamos são só um começo”, disse.
Ela afirmou que a juventude brasileira clama por mais direitos sociais. “Mais educação, melhor saúde, mobilidade urbana, segurança, qualidade de vida na cidade e no campo.”
A presidente pediu o apoio do papa para ajudar a disseminar as iniciativas contra a pobreza. “Acreditamos que o apoio da igreja pode transformar isso em iniciativa global (sobre programas de combate a miséria)”.
Manifestantes entram em confronto com a polícia
Um grupo que se concentra próximo ao Palácio Guanabara entrou em confronto com a polícia, que lançou bombas de efeito moral nos manifestantes.
A confusão teria começado após o grupo lançar latinhas nos policiais. Eles reagiram com as bombas e coquetéis molotov.
Mais cedo, houve uma recepção no local para o papa Francisco, que desembarcou no Rio, na tarde de ontem.
Foi formado um cordão de isolamento da polícia e o Brucutu, caminhão que lança jatos de água para dispersar a multidão, se posicionou no local. O sumo pontífice não passou pelo lugar onde os manifestantes se concentraram.
Mais cedo, o grupo se concentrou no Largo do Machado (zona sul).
Em um dos momentos de tensão, os policiais do cordão de isolamento levantaram escudos. Os manifestantes pediam para eles baixarem os equipamentos após isso ocorrer foram aplaudidos.
Os manifestantes gritavam palavras de ordem, como “Fora (Sérgio) Cabral (governador do Rio)”.
Carro do papa é cercado por multidão
Veículo que levava pontífice foi rodeado pelos fiéis; no meio da confusão, Francisco, apesar do risco, manteve serenidade
O papa Francisco foi recebido ontem por uma multidão nas ruas do Rio de Janeiro, que cercou diversas vezes o carro que o levava do aeroporto ao centro da cidade para cumprimentá-lo e vê-lo de perto, deixando o pontífice exposto e os seguranças em desespero.
Em determinado momento, na avenida Presidente Vargas (centro), a comitiva do papa ficou presa entre diversos ônibus que estavam parados na via e uma multidão que se aglomerou para ver o papa. Sem cordão de isolamento durante o trajeto, as pessoas invadiram algumas das ruas por onde o papa passou.
De acordo com a Prefeitura do Rio, o percurso da Base Aérea do Galeão até o centro estava sob a responsabilidade da Polícia Federal e não era conhecido por questões de segurança. “O esquema de segurança estava restrito à comitiva do papa, foi mantido em sigilo, e nós não tínhamos essa informação (sobre os esquema)”, disse a jornalistas o secretário municipal de Transportes, Carlos Roberto Osório.
Em meio ao tumulto, um bebê foi levado até o papa, que o abençoou pela janela do carro que permaneceu aberta durante todo o percurso, apesar da proximidade com a multidão.
O prefeito do Rio, Eduardo Paes, já havia alertado ontem que a organização da Jornada Mundial da Juventude seria mais complexa do que a realização da Copa do Mundo e da Olimpíada na cidade, principalmente devido à presença do papa. “Do ponto de vista de logística, é o (evento) mais complexo da cidade. Teremos um líder espiritual, o papa Francisco quebra regras. Aqui ele terá total liberdade do mundo para circular e dialogar”, disse o prefeito a jornalistas. “Ele está livre para fazer o que quiser, e está totalmente seguro no Rio de Janeiro”, acrescentou.
Francisco desembarcou na Base Aérea do Galeão pouco antes das 16h e, depois de ser recebido pela presidente Dilma Rousseff e outras autoridades políticas e religiosas, seguiu em comitiva para a Catedral Metropolitana do Rio.
O papa embarcou no papamóvel na área lateral da Catedral, onde centenas de pessoas o aguardavam. No local, os fiéis puderam ter proximidade do pontífice. Muitos se emocionaram e começaram a chorar. “Ele olhou dentro dos meus olhos e eu senti um aperto no coração, uma coisa inexplicável”, disse Janilza Maria dos Santos, com os olhos marejados, dona de casa de 68 anos que veio de Seropédica, Região Metropolitana do Rio, somente para ver o papa.
Muitos fiéis permaneceram na catedral orando e cantando em clima de comunhão e milhares continuaram a festa pelas ruas do centro. Um grupo de mais de 30 pessoas com bandeiras do Congo abraçava e tirava fotos de agentes da Força Nacional, que se mantinham sem reação. O pontífice vai presidir no Rio as celebrações da Jornada Mundial da Juventude até domingo.
Ueslei Marcelino/Reuters |
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Carismático, o papa Francisco acenou alegremente para a multidão que cercava o papamóvel pelas ruas do Rio |
‘Vocês já têm um Deus brasileiro’, brinca papa argentino na chegada
“Vocês não se conformam com nada”. Foi assim que o papa Francisco respondeu quando questionado por brasileiros, durante o voo entre Roma e o Rio, sobre o fato de alguns “lamentarem” a nacionalidade argentina do pontífice. “Vocês querem tudo”, brincou o papa. “Vocês já têm um Deus brasileiro, queriam um papa brasileiro também?”. Menos de duas horas depois de decolar de Roma, sobrevoando o deserto do Saara, o papa falou com a imprensa. De forma paciente, conversou com cada um, em uma das alas do avião.
Mas foi com os brasileiros que ele não perdeu o humor, chegando a levantar uma bandeira do Brasil dada a ele por um dos repórteres. A outro jornalista, ele ainda brincou. “Os argentinos dizem que eu sou argentino. E vocês, o que é que têm?”. Antes que uma resposta fosse dada, ele emendou: “vocês tem a mim, também”.
Sorridente e chegando a gargalhar com as piadas, o papa pediu desculpas por não dar entrevistas. “Eu não sei fazer isso”, justificou. Mas fez questão de receber cada um dos jornalistas no voo da Alitalia. Uma repórter do México lembrou que ele havia deixado o conforto da primeira classe para se reunir com “os leões”, em referência aos jornalistas. O papa assumiu a brincadeira. “Mas esses leões não são tão ferozes”, disse o argentino.
Questionado sobre quem ganharia a Copa do Mundo de 2014, apenas olhou para o céu com o ar de suspense e deixando o resultado “nas mãos de Deus”.
‘Estou tremendo até agora’, diz mãe de criança beijada por Francisco
O papa Francisco parou por alguns instantes o papamóvel na esquina das ruas Araújo Porto Alegre com México, no Rio de Janeiro, no final da tarde de ontem, para beijar e abraçar uma menina de 1 ano e 8 meses.
Seguranças ajudaram a levar a criança até o pontífice. “Fiquei muito emocionada. A gente está tremendo até agora”, disse chorando a mãe da menina Izadora, Thaís Ramos, 26 anos.
Peregrinos que acompanhavam a passagem do papa, quiseram tocar e fotografar a criança para guardar de recordação. “Esse gesto dele simboliza a renovação da igreja. Valeu muito a pena esperar para ver essa cena linda”, afirmou Maria Ilza Guedes, 46 anos, previdenciária.
Bomba caseira em Aparecida
Uma pequena bomba caseira foi encontrada no banheiro de um estacionamento no Santuário Nacional de Aparecida, no Interior de São Paulo, onde o papa Francisco irá celebrar uma missa amanhã, afirmou à reportagem a Polícia Militar.
O explosivo, feito com um cano aparentemente de plástico e envolto em fita adesiva, foi detonado pelo esquadrão antibombas do Grupo de Ações Táticas Especiais da Polícia Militar.
“Foi um artefato caseiro de baixo potencial lesivo encontrado pelas forças de segurança no local, que não apresenta perigo para os fiéis nem será objeto de percurso do papa”, afirmou uma fonte da PM que não quis se identificar.


