Bem que ele tentava disfarçar o choro. Em vão: as lágrimas o denunciavam. Era um choro contido, mas profundo, daqueles que vêm lá do fundo da alma. Mas ele não estava sozinho: havia centenas de pessoas chorando também. Tanto quanto ou até mais do que ele. Eram os espanhóis, inconformados com o que acabara de acontecer. Para estes, ocorrera uma verdadeira catástrofe, uma coisa ultrajante. Entretanto se havia pessoas chorando, também havia gente cantando. Muita gente, uma verdadeira multidão. Era um contraste gritante: alegria e cantoria de um lado, lágrimas e tristeza do outro, tudo ao mesmo tempo. Enfim, a situação justificava, com sobras, a frase daquele filósofo de botequim: "Este mundo é uma feira de contrastes!" Motivo de tanta alegria e de tamanha tristeza: a Seleção Brasileira acabara de derrotar a seleção espanhola pelo placar de 6 a 1!
Um brasileiro, ainda moço, vendo as lágrimas daquele senhor, tentou consolá-lo: "Isso é coisa que acontece no esporte. Todo mundo que compete corre o risco de perder. A Espanha não jogou mal. O Brasil é que teve muita sorte. Como espanhol, o senhor..." Nesse momento, foi bruscamente interrompido pelo "espanhol", que não era espanhol, que lhe explicou os motivos das suas lágrimas. Que eram lágrimas de alegria, por causa da brilhante história do Brasil, e lágrimas de emoção, por ouvir 200 mil pessoas (o maior coral do mundo!) cantarem, em uníssono, "Touradas em Madri".
Sim, ele era o Braguinha, autor da referida marcha. Homem de muitos nomes, Carlos Alberto Ferreira Braga para a vida civil, Carlinhos para os familiares e Braguinha ou João de Barro (pseudônimo que usou durante muito tempo para a família não descobrir que ele era compositor) para o mundo artístico, e de muitas músicas, Touradas em Madri, Carinhoso (com Pixinguinha), Chiquita Bacana, As Pastorinhas, Balancê, Pirulito, etc, etc.
Tudo isso aconteceu no Maracanã, no dia 13 de julho de 1950, durante a Copa do Mundo. Sessenta e três anos depois, exatamente no dia 30 de julho de 2013, no mesmo local, a história se repetiu quase integralmente: Brasil e Espanha novamente se enfrentaram. Entretanto, desta vez o Braguinha não estava presente, ele faleceu em dezembro de 2006, aos 99 anos. Mas, se estivesse, teria chorado mais uma vez, ao ver o Brasil aplicar uma sonora goleada de 3 a 0 na Espanha, na partida final da Copa das Confederações. E ao ouvir o Maracanã em pé, 74 mil vozes, o segundo maior coral do mundo, cantando: "Eu fui às Touradas em Madri, pa-ra-tim-bum, bum-bum. E quase não volto mais aqui!" No entanto, se nesse dia ele não derramou lágrimas aqui na Terra, sem sombra de dúvidas abriu o maior dos sorrisos lá no céu!
O autor, Ismar Pereira, é advogado aposentado e colaborador de "Opinião"!