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Pobre moça bonita!

Joaquim Eliseo Mendes
| Tempo de leitura: 3 min

O bom observador, sem precisar ser filósofo, constata a grosso modo que a vida humana apresenta muitas incoerências que, a meu ver, devem ser entendidas, consideradas e, principalmente, respeitadas. Pois. Uns querem e outros rejeitam. Uns têm muito para dar e nada dão. Outros precisam de muito e nada conseguem. Uns consideram que a vida humana é um verdadeiro tesouro que deve ser preservado à base de uma saudável alimentação, remédios, caminhadas e academias tendo em vista viver mais anos, enquanto que outros entendem que ela é descartável, substituível e de que como o seu inquestionável e legítimo dono tem o direito de fazer dela o que quiser, o que melhor lhe aprouver. Enfim, de que a vida humana não é muito importante podendo, ser jogada pela janela afora como uma pizza, pois no momento em que quiser conseguirá outra de acordo com seu interesse e "zerada" como um carro novo. Fato que me levou a estas conjecturas foi o publicado em manchete pela Folha de São Paulo em uma edição dominical recente que trouxe a foto de uma moça muito bonita que, como candidata em concurso de tatuagens, fez uma tatuagem em seus lindos olhos, tornando-os coloridos, com realce na cor vermelha.

Não procurei saber se venceu e se tornou a rainha desse concurso, mas lamentei o que poderá acontecer-lhe no futuro, quando a fugaz beleza que possui se esvair e tornar-se lembrança do seu passado como só acontece na vida humana. Veio-me ainda à mente o drama vivido presentemente por um grande e querido amigo meu e sua família, um homem ícone de Bauru, da região, do Brasil e de países vizinhos, cujos pacientes aqui aportam para correções de anomalias faciais e palatais. Homem consolidador de uma instituição de saúde pública que se tornou referência mundial. Homem que muito fez e que poderia ainda estar fazendo e que agora, por ironia da vida, ou por desígnios de Deus, mas que devemos respeitar e lamentar, vem perdendo a visão. A mesma visão, tesouro, dádiva, cujos órgãos foram tatuados pela moça bonita! Mas como nada é impossível, é vontade de todos os amigos e milhares de pacientes de que, dentro da procura científica que vem sendo feita, aconteça uma regressão da deficiência visual.

E o mesmo fato trouxe-me à mente o mal do século, a droga, a "lepra" dos tempos modernos dos nossos jovens como foi definida pelo papa Francisco na JMJ, que ocorre no Rio de Janeiro, ao inaugurar ala do Hospital São Francisco para recuperação de dependentes químicos. Entendo ser muito eficiente a atuação policial no combate às drogas, pois toneladas são apreendidas e destruídas, não, porém, eficaz, pois sua erradicação, a recuperação do vício, além dos recursos médicos-científicos disponíveis, dependerá única e exclusivamente da vontade da pessoa, vontade de se recuperar e vontade de nunca experimentar e usar.

E essa vontade do querer ou não querer depende unicamente da educação. Educação que conscientize da transmutação do prazer e do sonho ao inferno, de onde dificilmente retornará. Educação que deverá ser elaborada pela família, escola, mídia e rede social. Uma educação que leve a criança e o jovem de hoje a valorizar a vida humana, ressaltando-se de que não há fases, idades, séries ou momentos para se educar, pois educar-se deve ocorre durante toda a vida do homem. E lembremos de que somente a educação, processo que ocorre de dentro para fora e não de fora para dentro, desperta, abre e descortina o amor à vida. Não existe outro meio ou caminho. À esta vida, que é muito, muito importante, e que deve ser realmente vivida em toda a sua plenitude.

O autor, professor Joaquim Eliseo Mendes, é membro efetivo da ABLetras

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