Colocar a mão na graxa e conviver todos os dias em um ambiente completamente masculino não soou como desafio para Sandra Alves Sungaila, 39 anos. Apaixonada pelo trabalho, a mecânica do helicóptero Águia da Base de Radiopatrulha Aérea da Polícia Militar (PM) de Bauru diz que se sente em casa.
Éder Azevedo |
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A mecânica Sandra Sungaila: “Meu sonho era ser o que sou hoje e não poderia estar mais feliz” |
De todas as bases de radiopatrulha aérea da PM no Interior do Estado, a soldado é a única mecânica em atividade. Além dela, há outra na cidade de São Paulo. Em outras funções, a presença feminina também é escassa: na Capital, há somente uma pilota e uma tripulante operacional, esta última função também desempenhada por outra policial em São José do Rio Preto.
Ao mesmo tempo em que comprovou sua eficiência e enfrentou certa resistência por parte dos colegas, Sungaila não abriu mão da vaidade. Embora o uniforme diário seja um macacão folgado, um par de botinas e uma caixa de ferramentas nas mãos, ela sempre esteve segura de que não precisaria se masculinizar para desempenhar seu trabalho.
“Mesmo mexendo na graxa, sempre faço as unhas, passo rímel e sombra nos olhos. Gosto de me cuidar”, comenta ela, que é mãe de três filhas e, há um mês, também avó de uma menina. Os olhos da soldado marejam ao falar de suas crias, em mais uma demonstração própria da sensibilidade feminina. “Só não posso borrar a maquiagem”, brinca.
O apego à família, aliás, foi o que trouxe a mecânica para Bauru. Nascida em São Paulo, ela mudou-se para a cidade há dois anos, após a vinda dos pais, que, aposentados, queriam uma vida mais tranquila. “No começo, foi difícil acostumar até mesmo com o ritmo de trabalho, menos intenso. Mas, hoje, não quero mais ir embora”, garante.
Aqui, ela mora com as filhas Maria Fernanda, 10 anos, e Tayná, 17 anos, mãe de Manuella, de um mês. A primogênita Gabriella, 18 anos, ficou na companhia do pai, na Capital. A vida pessoal, garante Sungaila, é bem administrada junto ao trabalho.
Sonho
Na Base de Radiopatrulha Aérea de Bauru, ela reveza os turnos dentro de uma equipe com cinco mecânicos. Ao todo, a unidade é composta por um efetivo de 21 PMs, sendo a soldado a única mulher.
Antes de vir para Bauru, Sungaila trabalhou por oito meses como mecânica do Águia em São Paulo. Para habilitar-se para esta função, prestou concurso em 2010 para cursar a Escola de Especialistas da Aeronáutica, em Guaratinguetá.
Formou-se depois de ter aulas de habilitação em célula, aviônico e eletrônica durante seis meses, em tempo integral. Prestes a completar três anos de experiência na área, deve trabalhar como auxiliar de mecânica por mais um ano para concluir a formação plena, quando poderá obter registro do Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura (Crea) do Estado de São Paulo e da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).
Sungaila é policial militar desde 1996. Antes disso, no entanto, já trabalhava na PM, como civil, em funções administrativas. De acordo com ela, a motivação para se tornar mecânica veio do pai, um tesoureiro que sempre soube consertar o próprio carro. “Eu o via mexendo com aquilo e gostava. Além disso, meu cunhado é mecânico da aviação civil. Meu sonho era ser o que sou hoje e não poderia estar mais feliz”, declara.
Resistência
A soldado Sandra Alves Sungaila começou a trabalhar em funções administrativas do Grupamento Aéreo de São Paulo em 2008. Quando decidiu, em 2010, fazer o curso de mecânica na Escola de Especialistas da Aeronáutica, conta que amigos e colegas de trabalho ofereceram resistência.
“Havia um convênio das Forças Armadas com a PM que oferecia algumas vagas gratuitas para fazer o curso. Meu chefe na época foi contra. As pessoas diziam que eu não ia aguentar o dia a dia de trabalho, mas tinha certeza de que iria conseguir”, relembra.
Hoje, junto com outros quatro mecânicos da base de Bauru, ela é responsável por realizar inspeções diárias, semanais, mensais e por horas de voo do helicóptero Águia. A soldado também responde pelo controle técnico da aeronave. “É ela quem precisa saber e informar quando uma peça precisa ser trocada, por exemplo”, explica o comandante da Base de Radiopatrulha Aérea de Bauru, capitão Hilário de Oliveira Leão.
Em todo o Estado, a Radiopatrulha Aérea da PM conta com 11 bases. A de Bauru é a única unidade de manutenção do Interior, que recebe aeronaves de Presidente Prudente, Araçatuba, São José do Rio Preto e Piracicaba para inspeções mais detalhadas.
Desta forma, todas elas acabam passando pelas mãos de Sungaila. “É muito gratificante trabalhar com o que se gosta. E meu plano é fazer novos cursos para me especializar cada vez mais”, adianta.
Em boas mãos
Passada a resistência inicial, a equipe da Base de Radiopatrulha Aérea de Bauru aprendeu a confiar no trabalho da soldado Sandra Alves Sungaila. De acordo com o comandante, capitão Hilário de Oliveira Leão, seu efetivo não poderia voar mais seguro com o helicóptero Águia aos cuidados da única mecânica do Interior do Estado.
“As mulheres são mais zelosas, mais detalhistas. Fazem cada inspeção criteriosamente. Sinto-me muito mais seguro tendo uma mulher para fazer a manutenção da nossa aeronave”, elogia.
De acordo com ele, a presença ainda tímida de mulheres nas bases de radiopatrulha aérea da PM não se deve à falta de talento, mas, principalmente, pela exigência de condicionamento físico e quase nenhum medo. “O concurso é rígido, a concorrência é grande e nem todo mundo se encaixa no perfil. Além de preparo físico, a exigência de habilidade técnica é maior do que em outras áreas da PM. E, é claro, a pessoa não pode ter medo de altura”, brinca.
