Jornada Mundial da Juventude

Peregrinos percorrem 9,5 km em caminhada


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Milhares de peregrinos enfrentaram, ontem de manhã, chuva, frio e depois sol e novamente chuva nos 9,5 quilômetros de caminhada entre a Central do Brasil, no Centro, e a Praia de Copacabana, na zona sul. Faltaram banheiros químicos e, em alguns pontos, ônibus, caminhões e carros dividiram o percurso com os fiéis, uma vez que a prefeitura não cumpriu a promessa de interditar o trajeto.


A marcha, porém, teve como marca a alegria. A peregrinação é uma das formas tradicionais de manifestação dos católicos.


A enfermeira Elisângela Czekalski, de 27 anos, é cadeirante, veio do Recife para a Jornada Mundial da Juventude (JMJ) e fez a peregrinação com a irmã e amigos. Era ela, sozinha, quem empurrava sua cadeira. “Tenho de fazer algumas paradas porque doem o ombro, os braços e as mãos, mas vou até o fim”, disse. “Estou amando! Vivenciando cada momento!”


Um animado grupo de duas equatorianas, três bolivianas (todas freiras, de hábito) e duas peruanas também seguia firme. “Queremos ver o papa, escutar sua palavra. A peregrinação faz parte”, disse uma das equatorianas, a professora Irene Uchoa, de 48 anos, que ensina crianças em Quito. “Vamos passar a noite na vigília”, garantiu, mostrando um saco de dormir.


Nem todos seguiram até o fim. A aposentada Marileia Rukuiza, de 63 anos, deixou o percurso no meio, na Glória, zona sul. “Não consigo, mas acho que já fiz a minha parte. Mais tarde, vou para Copacabana ver o papa de perto”, disse ela, que é do Rio e voluntária da Jornada.


Durante o trajeto, a aglomeração maior de peregrinos em filas foi na frente do Museu de Arte Moderna (MAM), no Aterro do Flamengo, onde eram entregues os chamados kits vigília, que têm de salada a chocolate, como opções de lanche.

 

Bênção

Nem a tolerância ensinada nas igrejas católicas foi suficiente para afastar dos peregrinos pensamentos negativos em relação aos problemas de infraestrutura do Rio durante a Jornada Mundial da Juventude (JMJ). Filas no transporte público, estações de metrô lotadas, banheiros sujos e preços altos foram os maiores percalços.


Nem tudo, porém, são dores. A oportunidade de viajar para um país novo, ser abençoado pelo papa e tomar banho de mar transformou a Jornada nos melhores dias da vida de muitos fiéis. Não que eles deixassem de reclamar, mas os estrangeiros que vieram ao Rio pela primeira vez eram mais pacientes com os problemas do que os brasileiros de outras cidades.


Muitos já arrumaram disposição desde a viagem, como o estudante chileno José Berrio, de 22 anos. Ele viajou cinco dias de ônibus de Rancagua, a 80 km de Santiago, até Parada de Lucas, no extremo norte carioca, onde está hospedado. Diariamente, viaja mais de 30 km até a zona sul para ir aos eventos. “É uma viagem maravilhosa, que não teria dinheiro para fazer de outra forma. Então, aguento os sacrifícios”, diz.


Menos animado, o padre sul-africano Maximilian Kallal Jacobs, de 49 anos, sofreu toda vez que teve de sair da Ilha do Governador, a 25 km do Centro do Rio, para ver o papa. “O Rio é maravilhoso, lindo, mas a estrutura é terrível. Às vezes, pegava dois, três ônibus para chegar a algum lugar, Não consegui andar de metrô. Cheguei a ficar uma hora na fila, desisti”, conta o morador da Cidade do Cabo.


As peregrinas Maria da Conceição Farias Silva e Lucinéia Alves de Souza, de Manaus, acharam o sistema de alojamento desorganizado. “Viemos em um grupo de 30 pessoas da paróquia para ficar no mesmo alojamento, mas, quando chegamos aqui, colocaram a gente em escolas separadas. Um menino do grupo ficou sozinho”, conta Lucinéia, que está hospedada em Bangu, na zona norte.

 

Pontífice rompe ‘carreirismo’

A escassez de padres no Brasil revela um “carreirismo” na Igreja que deve ser combatido logo no início da formação dos sacerdotes. É o que dizem clérigos especialistas na evangelização de jovens. Para eles, a simplicidade e a vocação missionária do papa Francisco precisam ser reforçados dentro dos seminários como exemplos a nortearem suas vidas.


Números da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) ilustram um abismo no número de sacerdotes entre as regiões ricas e pobres do País, como mostrou o jornal O Estado de S Paulo na semana passada.


Enquanto no Paraná há um padre responsável por 5,9 mil habitantes, essa média chega a ser mais de duas vezes maior no Maranhão, onde há 13,7 mil pessoas por sacerdote. O Estado nordestino tem proporção de católicos bem acima da média nacional, de 74% ante 64%.


“É muito triste ver hoje sacerdotes em início de carreira já querendo crescer, assumir grandes paróquias, como se a Igreja fosse uma carreira. A mensagem bem enfática do papa veio para mudar o referencial dos clérigos em formação. As igrejas pequenas e de áreas pobres precisam de padres missionários como é Francisco”, diz o padre José Arnaldo Juliano, capelão do Mosteiro da Luz.


Para o sacerdote, o foco são as comunidades ricas. “As paróquias grandes são as mais disputadas, isso se tornou um empecilho ao trabalho de evangelização nas áreas mais afastadas”, afirma.

 

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