O papa Francisco apelou a bispos, sacerdotes e religiosos para que deixem suas paróquias e ganhem as periferias para pregar e levar a mensagem da Igreja. O pontífice rezou na manhã de ontem uma missa na Catedral Metropolitana e falou em mudança de atitude. “Não podemos ficar fechados na paróquia, nas nossas comunidades, enquanto há tanta gente esperando o Evangelho”, disse. “Não se trata simplesmente de abrir a porta para acolher. Mas de sair pela porta, procurar e encontrar”, alertou o pontífice.
Como já vem indicando em praticamente todos os seus discursos, o papa voltou a insistir na importância de a Igreja atuar entre os mais pobres, de chegar às periferias. “Decididamente, pensemos a pastoral com base na periferia, naqueles que estão mais afastados, naqueles que habitualmente não frequentam a paróquia”, declarou. “É nas favelas, nas villas miserias (equivalente às favelas na Argentina), que nós devemos procurar e servir a Cristo”, disse o pontífice, em referência à madre Teresa de Calcutá. “Precisamos ser andarilhos da fé, como fez Jesus”, disse.
Evangelização
O papa também voltou a pedir para que os sacerdotes não se esqueçam de que têm a missão de evangelizar. “É nosso compromisso ajudar a fazer arder o desejo de serem discípulos missionários de Jesus”, afirmou.
Para ele, não é necessário que as pessoas saiam de seus países para cumprir a missão. “O primeiro lugar onde devemos evangelizar é a própria casa”, disse, em relação ao batizado. “Trabalho, amigos e família.”
Juventude
Outro foco, declarou Francisco, é a atenção aos jovens. “A juventude precisa ser escutada, seus sucessos e seus problemas. Vamos ouvi-los”, apelou o papa aos religiosos. “Precisamos ter a paciência de escutar, saibamos perder o tempo com eles. Claro que eles vão errar. Mas os apóstolos já fizeram isso antes que nós. Vamos buscá-los”, disse. Educar para essa missão, segundo ele, é fundamental. “Eduquemos o jovem para a missão, para sair”, insistiu.
Em uma catedral lotada, o pontífice também reafirmou que a Igreja não pode repetir a cultura do “descartável” na sociedade, excluindo jovens e idosos. De acordo com Francisco, sacerdotes também precisam ir contra a corrente que prega eficiência e pragmatismo. “Tenham a coragem de ir contra essa cultura”, afirmou, apelando para que os religiosos sejam servidores da cultura do encontro.
Reabilitação
O papa Francisco pede a “reabilitação” da política, a defesa da ética e apela para que dirigentes e manifestantes “dialoguem de forma construtiva” para erguer uma sociedade mais justa. O pontífice falou a políticos e empresários, ontem, no Theatro Municipal do Rio, e alertou: não há como pensar uma nação democrática sem a contribuição das “energias morais” - uma referência direta à pressão das ruas.
“Temos de reabilitar a política, que é uma das formas mais altas da caridade. O futuro exige de nós uma visão mais humanista da economia e uma política que realize cada vez mais e melhor a participação das pessoas, evitando elitismos e erradicando a pobreza”, afirmou Francisco.
No local estavam o secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, o ministro da Secretaria de Aviação Civil, Moreira Franco, políticos e empresários. Mas nem o prefeito do Rio, Eduardo Paes, nem o governador Sérgio Cabral foram ao encontro.
O evento havia sido originalmente planejado como uma oportunidade para que políticos se encontrassem com o papa, quando a viagem ainda estava sendo organizada no pontificado de Bento XVI.
Mas Francisco, ao assumir o Vaticano, optou por abri-lo a todos os dirigentes da sociedade. Em seu discurso, ele evitou endossar as políticas de combate à pobreza do governo, como Brasília esperava.