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O risco de Francisco

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

"Para quem entende, um risco é Zé-Francisco" ? diziam os antigos. O papa Francisco, mais que um risco em folha mandou seu recado de viva-voz. Pausada, mas firme. Deu razão àqueles que "deixaram de ter confiança nas instituições políticas" corrompidas e àqueles que "perderam a fé" ao verem os erros dos padres e dos crentes que não seguem o Evangelho. Este papa pode ser acusado de "midiático", por aproximar-se do povo sem obedecer às normas de segurança. Tudo colabora para a dessacralização de um Sumo Pontífice que abdicou da estola purpúrea e a coroa. E daí? Pior seria chamá-lo de "papa conservador". Francisco cria um lado político, indissociável do religioso. Deixa claro que a meta do seu pontificado é aliar-se a todos os que, em qualquer parte do mundo, estão descontentes com sua classe política e com suas falsas promessas. O papa Francisco também se declara solidário com "aqueles que perderam a fé na Igreja e, mesmo em Deus, devido a incoerência dos cristãos e dos ministros do Evangelho". O que a vida quer da gente é "coragem" - parece repetir Riobaldo, jagunço-filósofo de Guimarães Rosa. A mesma coragem que levou Cristo a carregar a cruz para redimir os homens. Esta parece ser a missão transformadora dos jovens.

Definitivamente, Jorge Mário Bergoglio não é um pontífice usual. Quando ainda era arcebispo de Buenos Aires, em um encontro em Aparecida liderou a redação de um documento onde se dizia: "A Igreja deve se liberar de todas as estruturas caducas que não favorecem a transmissão da fé". Ele estimulava os bispos a serem servidores do povo, e não o contrário. Num momento do encontro com cinco mil jovens argentinos, na Catedral Metropolitana do Rio de Janeiro, armou mais uma. Pediu aos jovens: "Quero que saiam às ruas para fazer confusão, quero confusão nas dioceses, quero que saiam, quero que a Igreja saia às ruas, que a Igreja abandone a mundanidade, a comodidade e o clericalismo, que deixemos de estar fechados em nós mesmos". Depois se voltou para os prelados que o acompanhavam e, disse-lhes: "Que me perdoem os bispos e os curas se os jovens fizerem confusão, mas esse é o meu conselho".

Padres e bispos vão ter de se explicar, daqui para frente, quando se depararem com manifestantes na porta da igreja, portando faixas exigindo atitudes mais positivas e corajosas. O papa observa que a Igreja não pode ter aspecto de quem está de luto perpétuo. A própria informalidade jovial do pontífice é exemplo de mudança. Despiu-se dos ouros e da pompa. Falou de improviso ? coisa rara para quem chegou ao trono do Vaticano -, como se o coração ditasse as suas palavras. Não se esqueceu dos velhos, submetidos no mundo atual a uma espécie de "eutanásia oculta, uma eutanásia cultural" porque não têm permissão para falar e agir. A Jornada Mundial da Juventude valeu muito. Para os católicos, para os religiosos de um modo geral e para o aperfeiçoamento das relações povo-Estado e interpessoais. O papa Francisco deixa a marca da temática da trajetória do seu pontificado.

E que o mundo desculpe as nossas falhas. Nada têm de santas. O erro no trajeto da comitiva após a chegada de Francisco. O apagão no metrô do Rio, com milhares de fiéis sem poder chegar à missa de abertura da JMJ, em Copacabana. A falta de transporte para voltar para casa, de quem foi assistir a Via Sacra e encontrou o seu Calvário. Toda a lama no Campus Fidei, de Guaratiba, a obrigar a transferência do local da vigília e encerramento para a praia. Dois milhões de fiéis prejudicados, por falha de planejamento. As manifestações contrárias e, às vezes, nada pacíficas também repercutiram.

Começamos a pagar o preço. O jornal Chicago Sun-Times não se conteve: "Perdemos para isso?" ? pergunta em manchete. Chicago, com seu extenso parque beirando o lago Michigan, seus edifícios projetados pelos maiores arquitetos do mundo e primorosa infraestrutura, foi a cidade adversária do Rio para sediar as Olimpíadas em 2016. Perdeu para um representante dos emergentes que ainda precisa lutar muito para se livrar das próprias mazelas.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC

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