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Carandiru: julgado por massacre, oficial obtém "ficha limpa" da PM

Folhapress
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Às vésperas de se aposentar, o tenente-coronel Salvador Modesto Madia solicitou que fossem excluídas todas as informações de sua ficha de punições que consta de seu prontuário da Polícia Militar.


O pedido foi acatado pela corporação e, agora, depois de receber três punições entre os anos de 1983 e 1995, o policial é considerado ficha limpa. A revelação sobre essa mudança no status do militar foi feita na tarde de hoje durante o julgamento dele no massacre do Carandiru.


Madia e outros 24 policiais que na época eram da Rota (tropa de elite da PM) respondem por 73 das 111 mortes no presídio, em 2 de outubro de 1992.


Durante o interrogatório do PM, o promotor Fernando Pereira Silva questionou por qual razão Madia pediu para limpar seu prontuário negativo. A resposta era porque estava em vias de se aposentar. Na prática, punições podem influenciar na promoção do policial. Quando algum oficial entra para a reserva, ele pode ser promovido para um posto superior e, dessa forma, obter rendimentos maiores. No caso de Madia, ele deve se tornar coronel, a mais alta patente dentro da PM.


Apesar de ter participado do massacre do Carandiru, Madia nunca foi punido internamente por essa razão. Suas três punições se referiam a trotes dados em subalternos (em 1983 e 1988) e ao não cumprimento de um mandado judicial (em 1995).


Ele chegou a ficar até 30 dias detido nos batalhões em que servia. A "limpeza da ficha", segundo o oficial relatou no seu depoimento, pode ser solicitada caso ele fique um período de dez anos sem ser punido.


Em novembro de 2011, Madia assumiu o comando da Rota. Nos cinco primeiros meses que ele esteve a frente do órgão, houve um aumento de 45% na quantidade de mortos em confronto com seus comandados.


Na ocasião, ele disse que não se importava com números, mas com a legalidade das mortes. O policial deixou de comandar a Rota em setembro do ano passado.


A advogada de Madia e dos outros 24 réus, Ieda Ribeiro de Souza, tentou minimizar as punições que ele recebeu durante a carreira. Assim que começou a questionar o réu, disse que as punições são corriqueiras. Citou, por exemplo, que um sapato sujo ou a mudança de visual (como pintura de cabelo, raspagem de um bigode) podem resultar na punição de um militar.


"As pessoas não entende como funciona o regime de um militar", disse a advogada.


O depoimento do oficial continua. Ainda hoje devem ocorrer a leitura de documentos e a apresentação de dois vídeos aos jurados. A previsão é que o julgamento termine neste fim de semana. Essa é a segunda fase do júri do Carandiru. Na primeira, em abril, 23 PMs foram condenados.


Interrogatório


Em seu interrogatório, Madia afirmou que ao entrar no Pavilhão 9, na noite do Massacre do Carandiru, viu combates entre presos e policiais nos corredores e passou por barreiras de corpos.


"Foi a maior adrenalina pela qual passei na vida", afirmou ele ao juiz Rodrigo Tellini de Aguirre Camargo. "O senhor pensa que naquela noite voltei para casa feliz e tomei um copo de sangue [para comemorar]?"


Tenente da Rota (tropa de elite da PM) na época e integrante do grupo que ingressou no segundo andar da Casa de Detenção no dia, ele afirmou que não sabe quem foi responsável pela morte dos 73 presos daquele andar.


"Eu entrei, não nego. Meus homens também. Nós assumimos que atiramos. Mas gostaria que o senhor falasse em quem eu dei um tiro e se essa pessoa morreu".


Assim como outros oficiais que falaram até o momento, Madia disse que a ação durou apenas 15 minutos e que, nesse período não era possível matar 73 pessoas.


Nos questionamentos, os promotores Fernando Pereira da Silva e Eduardo Olavo Canto Neto quiseram mostrar aos jurados que o tenente-coronel já passou por outros episódios de violência na carreira.

 

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