Bairros

Áreas ociosas serão destinadas à agricultura urbana

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 8 min

Estimular a agricultura dentro da cidade e gerar renda. Estes são dois dos principais objetivos da Secretaria Municipal de Agricultura e Abastecimento (Sagra) com a idealização de um projeto de agricultura urbana que se adeque às necessidades e possibilidades dos bairros bauruenses. Ainda em fase de planejamento, o projeto deve ser colocado em prática dentro de 90 dias, segundo projeções do titular da Sagra, Chico Maia.

 

Eder Azevedo

Exemplo de agricultura urbana em Belo Horizonte, Minas Gerais

O propósito, de acordo com Maia, é dar permissão de uso para pessoas físicas ou jurídicas por meio de associações, cooperativas ou microempreendedores individuais que possam se credenciar para receber esses terrenos com o compromisso de produzir, principalmente, verduras e legumes para a venda. A geração de renda é um dos compromissos que os candidatos devem ter.  


“Vários municípios brasileiros já aderiram a programas de agricultura urbana, e o que temos atualmente em Bauru ainda é algo sem critérios definidos. Sendo assim, a nossa intenção é transformar essa ideia em um projeto de lei para que vire política pública e que seja incorporado à dinâmica da cidade”, defende o secretário.



Possíveis terrenos


Para tanto, a pedido da Sagra, um levantamento está sendo feito pela Secretaria Municipal do Planejamento (Seplan) e pela Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma). O trabalho pretende mapear os terrenos públicos ociosos de Bauru e verificar quais são e onde estão os mais adequados à iniciativa.


Mesmo ainda sem o levantamento exato dessas terras, Maia aponta algumas regiões com potencial para o desenvolvimento da agricultura urbana. Há áreas com diversas metragens espalhadas por muitos bairros de Bauru, como Pousada da Esperança, Vila São Paulo, Jardim Ouro Verde, Santa Cândida, Jardim Nicéia, Vila Industrial, Ferradura Mirim, entre muitos outros.


“Com o mapeamento nas mãos, provavelmente até meados de agosto faremos uma chamada pública para que os interessados entreguem a documentação para análise”.



Critérios


Entretanto, os candidatos precisam cumprir alguns critérios exigidos pela Sagra. A experiência será privilegiada na chamada, além do compromisso com a produção voltada para a venda de frutas, verduras e legumes, de modo especial.


“Mas o programa também pode incluir a produção de flores, sementes e até a piscicultura. Nós não temos produtores de flores na cidade. Por que não uma grande estufa de orquídeas para a produção de flores e mudas?”, indica Maia.



Incentivos


O secretário também destaca que, a princípio, a Sagra pode oferecer a assistência técnica de agrônomos e técnicos ou de engenheiros agrícolas para as plantações, além de cursos para os interessados.


“Existe um programa do governo de São Paulo chamado Hortalimento, em que a prefeitura recebe doações de sementes e oferece as mudas para os produtores. Isso poderia ser feito no Centro Rural de Tibiriçá, por exemplo. Tudo isso está sendo encaminhado”, afirma.


Outra estimativa da Sagra é de apresentar o projeto ainda este mês para o Ministério da Agricultura, que tem programas voltados para a agricultura urbana que permitem que o município adquira produtos, insumos, microtratores, etc.


“Onde você planta verduras, aumenta o consumo de água. As tarifas nessas hortas poderiam ser reduzidas, é algo que precisa ser negociado e que já existe em muitos municípios. Também estamos viabilizando um convênio com o Banco do Brasil para que esses pequenos produtores possam ter acesso a créditos. As construtoras estão sendo orientadas a deixarem espaços para hortas em construções do Minha Casa Minha Vida, porque a população carente precisa melhorar a alimentação e a nutrição. Este também é outro objetivo do projeto”, enumera o secretário.   

 

João Rosan

“Se der tudo certo, vou me dedicar integralmente à agricultura urbana”, projeta o técnico em paisagismo Adriano Albino

Projeto gera expectativas e planos

“Estou empolgado com a oportunidade”, diz morador de um dos possíveis bairros beneficiados

 

Apesar de ter nascido e crescido na cidade, o técnico em paisagismo e presidente da ONG Sem Limites, Adriano Albino, é apaixonado pelo cultivo de plantas, tanto que o pequeno quintal de sua casa é preenchido com variedades que vão desde flores a hortaliças e legumes.


“Mas eu não tenho espaço e no Jardim Ouro Verde, onde moro, há muitos terrenos baldios que podem se transformar em produtivas hortas. Estou muito empolgado com a oportunidade de colocar as mãos na terra e produzir, fazer o que eu sempre gostei e, com isso, ter a possibilidade de gerar renda”, enfatiza.


Para Adriano, poder plantar e ainda gerar renda tem o mesmo peso de uma realização profissional. De acordo com ele, quando colocada em prática, tal iniciativa irá ao encontro de alguns problemas da cidade, e a educação ambiental é um deles.


Ele projeta que, além de poder gerar emprego, já que ele contará com o auxílio de amigos, o cultivo de hortas pode amenizar e até conscientizar sobre o hábito de jogar lixo e entulho em áreas sem construções. “Por mais que você converse, as pessoas teimam em jogam lixo nesses espaços. Com hortas por lá, isso tende a diminuir”, acredita.



Parceria


Além de mostrar entusiasmo com a ideia, o possível agricultor urbano já projeta como será o seu trabalho. E para tal, ele contará com a ajuda de amigos experientes no plantio. “Tenho um amigo que está se aposentando e se dispôs a me ajudar nessa jornada. Outro viveu muito tempo em sítios e tem experiência com lavouras de pimentão”, conta.


Caso consiga plantar nos terrenos do bairro, a pretensão de Adriano é se dedicar integralmente à agricultura urbana. E ele não pensa em se dedicar apenas a um produto. “Eu gosto de plantar várias coisas. Olho para as áreas com mato perto da minha casa e já consigo ver como ficarão cultivadas”.  

 

‘Agricultura urbana deve priorizar a comunidade do entorno’

Presente no mundo todo, a agricultura urbana ocupa lugar de destaque em muitos países. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), cerca de 800 milhões de pessoas desenvolvem essa atividade, o que representa ao menos 15% de toda a produção mundial de alimentos.


Entretanto, o coordenador do curso de agronomia da Faculdades Integradas de Bauru (FIB), Diego Cunha Zied, avalia que essa ocupação ainda é pouco explorada e praticada no Brasil, principalmente em cidades do porte de Bauru. “O que se vê são alguns terrenos e pequenas chácaras cultivando hortaliças ao redor da cidade, longe dos grandes bairros”.


Segundo ele, é importante ressaltar que projetos de agricultura urbana objetivam atender pequenas mercearias e a comunidade do entorno. Sendo assim, o contato com o consumidor é muito próximo.


Ainda de acordo com o professor, dedicação e conhecimento do plantio das espécies que serão cultivadas são primordiais para se obter o êxito esperado. “Produtos de qualidade diferenciada, acompanhamento técnico, disponibilidade de mão de obra qualificada e mercado para a comercialização perto da produção, ou até se possível, trazer os clientes para retirar seu produto no local da produção, são elementos que também devem ser considerados”, destaca.

 

‘Sinto-me na roça’

Para aposentado, o cultivo vai além da geração de renda: traz saúde para o corpo e a alma

Entre as fileiras de alface, couve, cebolinha, salsinha, brócolis e outras hortaliças e legumes que cultiva há quase duas décadas, “seo” Mário Passeto se sente um menino. Aos 82 anos de idade, ele dedica suas manhãs e tardes à horta comunitária do Núcleo Habitacional Presidente Geisel, na quadra13 da rua Alziro Zarur. E garante: “Muito além da renda, o trabalho com a terra me proporciona doses generosas de saúde e paz espiritual”.

 

Éder Azevedo

Há quase 20 anos “seo” Mário Passeto, 82 anos, é um dos agricultores da horta comunitária do Geisel

O exercício de regar, preparar e plantar as mudas, tirar o mato da plantação e atender a vizinhança com os produtos fresquinhos para a salada começa cedo, às 6h. E segue até as 11h. Horário sagrado para o almoço e descanso do agricultor.


Descanso que não dura muito, já que por volta da 13h30 ele volta à lida e somente encerra o expediente às 17h, quando então volta para a casa, na Vila Engler. “Antes eu morava aqui, no Geisel, mas me mudei e continuei o trabalho. Meus fregueses são todos daqui”.


“Seo” Mário divide a pequena chácara da prefeitura, onde planta com outras cinco famílias. Segundo ele, tudo começou quando vivia no Geisel e frequentava a horta comunitária para comprar verduras. “Eu vi que estava ficando abandonada e resolvi também cuidar”.



Ofício gratificante


Além de abastecer a casa dos filhos com verduras e legumes frescos, o aposentado garante que o trabalho é a sua fonte de saúde. “Não posso dizer que ganho muito dinheiro com as vendas, mas, na minha idade, não posso ficar parado. Chego em casa diariamente com vontade de almoçar e jantar”, brinca.  


Ele lembra que chegou a se afastar por um período por causa de uma cirurgia e, mais tarde, pelo falecimento de sua esposa. Mas o gosto pela labuta na terra e a necessidade de se distrair falaram mais alto. E é com orgulho que ele mostra os produtos orgânicos que planta e colhe.


“É muito importante que se desenvolvam projetos como este pela cidade, principalmente para os idosos que têm experiência com a lavoura. Desde criança eu lido com a terra”, comenta o agricultor urbano. Urbano, mas nem tanto assim: “Aqui eu me sinto na roça, sabe. Esqueço-me dos barulhos dos carros e do agito da cidade”, diz, com bom humor.

 

Benefícios vão desde a geração de renda à limpeza de terrenos

Quando planejada, a agricultura urbana pode gerar inúmeros benefícios para a cidade e seus moradores. De acordo com o engenheiro agrônomo da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati) Sérgio Mitsuo Ishicava, o primeiro favorecimento notado pelos moradores é a geração de renda e emprego.


“Quando feita em âmbito escolar, a horta tem caráter educacional. Além disso, também leva benefícios sociais para a comunidade quando envolve a dedicação de grupos, como jovens carentes, por exemplo”, acrescenta.


Para o visual da cidade, a agricultura urbana também é positiva. Isso porque ela colabora com a limpeza de terrenos baldios, muitas vezes usados como descarte de entulho pela população.


Entre os benefícios sentidos pelos trabalhadores ainda está a terapia que representa, já que trabalhar com a terra é uma excelente forma de aliviar as tensões da vida urbana. “Isso sem falar que, normalmente, a produção agrícola urbana é feita de maneira orgânica, ou seja, os produtos são mais saudáveis”, comenta.

 

 

 

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