Descobri que eu estava velho há muitos anos, num ônibus circular de minha cidade.
Foi assim: o ônibus estava lotado e não havia assento vago. Não liguei. Considerava-me forte, pernas e braços, e podia, perfeitamente, fazer a viagem de pé, segurando no suporte do ônibus.
De repente meus olhos encontraram uma moça que também olhava para mim com um discreto sorriso nos lábios. Foi um momento de suspensão automática, eu olhando para ela, ela olhando para mim. Aquele poderia ser o início de uma estória de amor por acontecer.
Pensei: muitas estórias de amor se iniciam em ônibus! Mas então, naquele momento romântico, ela fez um gesto delicado e sorrindo levantou-se e me ofereceu o lugar... entendi então o sentido de seu sorriso, e olhando para mim, ela lembrava de seu avô velhinho tão querido...
Compreendi que estava velho. Foi o momento da revelação. Desde então, o meu pensamento volta sempre para a velhice.
Há uma coisa que não se perdoa nos velhos: que eles possam amar com o mesmo amor dos jovens. Aos velhos está reservado outro tipo de amor, amor pelos netos, pois quando o velho ressuscita e no seu corpo surge de novo o amor adormecido, os filhos se horrorizam e dizem, com explicação: ficou caduco.
Amor de mocidade é bonito, mas não é de espantar. Jovens têm mesmo que se apaixonar. Romeu e Julieta são aquilo que todo mundo considera normal. Mas o amor na velhice é um espanto, pois nos revela que o coração não envelhece jamais.
O amor tem este poder mágico de fazer o tempo correr ao contrário. O que, realmente, envelhece não é o tempo. É a rotina, o enfado, a incapacidade de se comover ante o sorriso de uma mulher.
Nessa idade, quando acontece, o idoso não mexe muito com as coisas do sexo. A gente vive de ternura. "O homem só começa a envelhecer quando as lamentações começarem a tomar o lugar dos sonhos."
Azis Neme