Wagner Moura está entusiasmado com seu papel em "Trash", o longa ?brasileiro? de Stephen Daldry, que o diretor de "Billy Elliott" e "O Leitor" começa a filmar no Rio. "Ele é um grande diretor e um grande cara. Um encontro desses ocorre uma vez na vida da gente", diz o eterno Capitão Nascimento na sede carioca da O2 Filmes, onde Daldry conversa com a reportagem.
"Nice to see you", diz o inglês de 52 anos (nasceu em Dorset, em 1961). Aconteceram encontros anteriores no Festival de Berlim, onde Daldry apresentou "As Horas", "O Leitor" e "Tão Longe e Tão Perto".
Ele conta que a ideia de "Trash" nasceu do produtor Kris Thykier, da PeaPie. O próprio Thykier, também presente na sede da O2, conta que o livro em que o filme se baseia, de autoria de Andy Mulligan, virou objeto de uma polêmica editorial antes mesmo de chegar às livrarias. "Tudo no livro chamava a atenção. Eu o li ainda como prova. A história e os personagens me apanharam." E o que ele fez? Contactou Daldry, que deu o seu acordo de imediato.
Desde 2010 eles trabalham no projeto. Uma vez decidido que o filme seria feito no Brasil - o país é imaginário no livro -, com atores brasileiros e diálogos (boa parte deles, senão todos) em português, Daldry e Thykier buscaram uma parceria local. Fernando Meirelles já era uma referência.
"Ele não só é um artista talentoso como também é muito generoso. Está sendo um prazer fazer esse filme com ele." Bel Berlinck é a produtora executiva da O2 no projeto de "Trash". Não é um filme ?grande? - maior do que outros em que a O2 tenha estado envolvida - pelo orçamento, mas poderá vir a ser grande pelo prestígio.
Afinal, tem direção de Daldry, roteiro de Richard Curtis (de "Quatro Casamentos e Um Funeral" e "Um Lugar Chamado Nothing Hill") e no elenco, além de Martin Sheen e Rooney Mara, estão Wagner Moura e Selton Mello.
Wagner já é um nome internacional e, nesta semana, quando Daldry estiver iniciando para valer sua aventura brasileira - serão dez semanas de filmagem, até outubro -, o ator fará uma passagem rápida pelos EUA, para o lançamento de "Elysium", a esperada ficção científica de Neill Blomkamp.
Livro no Brasil
"Trash", que já saiu como livro no Brasil pela Cosac Naify, é um thriller contemporâneo cujos protagonistas são três meninos que vivem num lixão. Uma descoberta inesperada os lança numa aventura em que vão necessitar de todas as suas habilidades para sobreviver ao vilão interpretado por Selton Mello. Wagner é o herói que inspira os garotos.
Ele emagreceu para fazer o papel. Voltou à barriga tanquinho. Como Daldry chegou ao seu elenco brasileiro? "Vi muitos filmes e séries", conta. Adorou "Filhos do Carnaval". Os garotos, escolhidos em testes, serão interpretados por Rickson Tevez, Eduardo Luis e Gabriel Weinstein.
Como será dirigir um elenco que vai falar predominantemente português? Daldry tem um assessor, um coach, bilíngue, mas não está preocupado com isso. "O fato de não dominar a língua não impede a gente de avalizar o trabalho do elenco."
E ele conta que, muitas vezes, durante a montagem de seus filmes, prefere fazer a edição sem som. "Seguir só a imagem é a melhor maneira de se saber se a história é bem contada. Se a gente entende sem som, é porque funciona."
Qual é a rotina de Daldry na pré-produção de "Trash"? "Trabalho da manhã à noite. Estou vivendo em função do filme." Enquanto toma uma cerveja, que ninguém é de ferro, ele conta que tem apreciado a irresistível combinação ?feijoada/caipirinha?. Foi a muitas das manifestações que sacudiram o País. E observa - "Assisti e participei de manifestações populares em vários lugares do mundo. Em nenhum outro senti tanto desejo de mudar, tanta esperança quanto aqui".
O filme trata de pobreza, violência, corrupção. Tudo isso pode ter a cara do Terceiro Mundo, e do Brasil, mas Daldry ressalta. "Há aqui muita alegria e felicidade, muita esperança (ele repete a palavra)." Revela - "Se tivesse de viver como pobre, não escolheria outro lugar. Em nenhum poderia ser mais feliz".
O lixão do filme será cenográfico, mas Daldry e Thykier, que viram capítulos da novela "Avenida Brasil", da Globo, tranquilizam os futuros espectadores de "Trash". "Nosso lixão não será antisséptico. Teremos urubus, em nome da credibilidade." Não é, necessariamente, uma crítica. Ambos gostaram do que viram na novela.
?Billy Elliott fica ainda melhor no teatro?
Stephen Daldry já era um nome consagrado no teatro quando estreou no cinema com "Billy Elliott", em 2000. Admite que sonhava com o cinema e embarcou no projeto do filme, tão logo lhe foi proposto. Mas faz a ressalva. "Embora Billy não fosse uma escolha minha, foi escrito por um grande amigo (Lee Hall). Tive toda liberdade com ele." Daldry sabe que o musical estreia no Brasil na semana que vem. A montagem é de grupo norte-americano que se apresenta em São Paulo por duas semanas. Daldry faz a que não deixa de ser uma confissão surpreendente: "Billy Elliott fica melhor no teatro."
Isso não significa, em absoluto, que Daldry tenha ficado insatisfeito com o próprio filme, ou que gostaria de mudá-lo. A explicação é mais simples - "No cinema, é sempre possível enganar o espectador. O palco é mais verdadeiro, neste sentido. Não há truque. É a história de um garoto que quer ser bailarino. E ele precisa ser bom dançando." Daldry acompanhou todo o processo de passagem de "Billy Elliott" da tela para o palco. "Esse garoto tem anos da minha vida", diz.
O que havia de tão interessante na história, a ponto de ele fazê-la sua? "A relação pai/filho é muito forte. O garoto foge à tradição familiar. Billy dança como eu fui fazer teatro. Essa coisa de querer agradar ao pai, de obter seu reconhecimento no desfecho é uma coisa que me emociona."
Em filmes tão diferentes quanto "As Horas", "O Leitor" ou "Billy Elliott", Daldry tem conseguido imprimir uma marca. Há sempre esse momento para o qual parece convergir toda a arquitetura dramática.
Para o repórter, não existe momento mais belo, no cinema de Daldry, do que o desfecho de "O Leitor", quando Ralph Fiennes leva a Lena Olin o dinheiro que Kate Winslet juntou na prisão. Lena é ríspida. O que ele espera comprar com o dinheiro? Uma reparação para a dor que Kate, por sua ligação com o nazismo, lhe causou?
Ela desdenha o dinheiro, mas ele vem dentro de uma latinha que funciona como uma madeleine para a personagem. A judia rica lembra-se de outra latinha que tinha quando criança. O simples contato com o objeto traz de volta o tempo perdido - e, agora, reencontrado. É um belíssimo momento de cinema. Lena é magnífica "Obrigado" (Daldry agradece em inglês, Thank you). "É sempre bom obter reconhecimento para coisas que a gente faz porque acredita nelas."
Em "Billy Elliott", o filme, há este momento emocionante quando o pai, que furou a greve dos mineiros para levantar o dinheiro de que o filho precisa para ingressar na escola de balé, se despede do menino, no ônibus. Eles só vão se reencontrar no teatro quando Billy, adulto, salta para a arte (e a vida). Aquilo é grande. Daldry agradece, e só espera conseguir colocar essa paixão em sua aventura brasileira, "Trash". (LCM)
Serviço
Billy Elliot, o musical
Credicard Hall (Avenida das Nações Unidas, 17.955, São Paulo). De 2 a 18 de agosto - 3ª a 6ª, 21h; sábados, 16h e 21h; domingos, 15h e 20h. R$ 50,00 a R$ 280,00.