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Mais água no feijão

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

O ambiente é totalmente diferente daquele deixado quando da sua morte, em 1226. A Ordem havia se transformado numa Companhia. A minúscula igreja de Porciúncula onde viveu e morreu a mando de Deus hoje está dentro de uma igreja maior, a de Santa Maria dos Anjos, na Úmbria. Na sala do Conselho viam-se equipamentos estranhos: telefones, computadores, aparelhos de fax manuseados por um quadro de secretárias elegantemente uniformizadas. O ambiente é dominado pelas portas de aço de um cofre-forte. A "Segunda Vida de Francisco de Assis" começa assim. Trata-se de uma peça teatral de Saramago, encenada pela primeira vez em 1987, no qual o santo se surpreende ao voltar à terra e perceber que a Ordem por ele fundada se afastara ? para bem longe ? dos ideais do carisma da fraternidade. Agora, na peça, os franciscanos governam, fabricam, admitem, gerem, contam e pesam de acordo com as leis do mercado. Elias, o prior da Companhia explica que o mundo mudou e é preciso acompanhar os ares da modernidade. Francisco insiste no retorno à pobreza, dentro do conceito evangélico que o fez santo: "Se queres ser perfeito, vai e vende o que tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu".

Por sugestão do leitor Elsio Santiago tento estabelecer um paralelo entre a missão do papa Francisco, também surpreso com o que encontrou no Vaticano, e a decepção de Francisco de Assis ao ver a sua obra desvirtuada, "transformada numa empresa de resultados". Ao contrário da bem gerenciada companhia franciscana de Saramago, o Banco da Santa Sé enfrenta dificuldades com os escândalos financeiros produzidos por monsenhores nada santos. O último fato estrepitoso foi o flagrante do transporte ilegal de 20 milhões de dólares para a Suíça. O novo diretor ali colocado para arrumar a casa, agora é acusado de ter mantido relacionamento homossexual, que a Bíblia, desde o Levítico chama de "abominação": os homens se deitarem com outros homens, como se fossem mulheres. Os cardeais que trabalham na Cúria são santos, segundo o papa Francisco. Com a ressalva de que uns são mais que outros. Sacerdotes de paróquias ricas e dioceses bafejadas pelos dízimos e espórtulas com ágios preferem carros importados. Eles se convenceram de que a pobreza nada tem de santificada. Dura missão dos Franciscos. O de Assis preferia o antigo epíteto de "protetor dos animais e da natureza". Dava menos trabalho e decepções cuidar dos não-humanos. Agora se compreende porque Bento XVI renunciou. Coisa rara entre os detentores de tanto poder. Sua Santidade percebeu que não tinha saúde para dar conta dessa remissão da Igreja. Tal qual no teatro de Saramago, Francisco de Assis acaba destituído pelo Conselho. Procura aliado entre os pobres, com os quais sempre teve identificação. Pedro, o rei dos pobres lhe dá uma resposta arrevesada: "Não somos pobres iguais. Tu tornaste pobre para ganhar o céu e nós pobres fomos e pobres continuaremos a ser, nem a terra conseguimos conquistar". A metáfora de Saramago, comunista sincero, cria um São Francisco que, em sua segunda aparição no mundo decide mobilizar suas energias para lutar contra a pobreza. Na sua autocrítica parece compreender que além da salvação individual, como havia pensado ao decidir-se pela pobreza absoluta, é necessário que todos se voltem para a salvação coletiva já nesta terra, para que através de uma ação política, social e econômica, seja fundado um novo humanismo baseado no respeito ao homem como gente. É provocante o tema proposto pelo leitor, que me honrou com o convite de botar mais água no feijão. O teatro e a literatura podem ser discursos ativos voltados para o realismo social. Baudrilard chamava de "disfunção" achar que tudo pode ser exorcizado numa perspectiva religiosa de salvação.

A Igreja católica, desde a Conferência de Medellin, em 1968, fez eclodir na América Latina a pastoral dos pobres. Ela semeia, desde então, a consciência do engajamento através a postulação da justiça social. O arcebispo Cláudio Hummes, ele mesmo um franciscano, é um dos fundadores dessa ação pastoral, ao lado de Arns e Lorscheider. D. Cláudio é o autor da sugestão dada ao cardeal Bergoglio, logo depois da sua eleição, para que adotasse "Papa Francisco" e assim passar a ser conhecido per omnia saeculo saeculorum, como um guerreiro contra as tentações do dinheiro e da opressão.

Igual ao Francisco de Saramago, a Igreja levou séculos para descobrir que de nada adianta pedir aos pobres o que os pobres não podem fazer: acabar com os ricos.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC

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