Quando vim para Bauru, há sessenta anos, a cidade tinha 50 mil habitantes. No centro existiam apenas cinco edifícios ? Drogasil, Pagani, Sampieri, Terra Branca e Bauru. A av. Rodrigues Alves era arborizada com fícus e com bancos de jardim, no canteiro central. A R. Araujo Leite tinha um canteiro central com os postes de iluminação. O Expresso de Prata cruzava a cidade pelas ruas Batista e Gustavo Maciel, seguindo para Botucatu por estrada de terra. Fui vendo a cidade crescer. Vi o início da catedral com a demolição da igreja do Divino Espírito Santo; vi o primeiro viaduto arrojado, passando por sobre a ferrovia, o JK; vi a construção do Palácio das Cerejeiras e do Transatlântico de Concreto (BTC); vi o início da Av. Nações Unidas sobre o buracão do córrego das Flores, onde está o Teatro Municipal; vi a construção do Estádio Alfredo de Castilho; participei da construção da moderna escola do Senai, da implantação do primeiro distrito industrial e da criação da Fundação Educacional de Bauru, hoje Unesp, e fui vendo a cidade crescer, mas nunca de forma tão acelerada como agora.
Hoje a cidade é quase oito vezes maior, e por tudo isso a edição especial do JC só traz opiniões elogiosas e merecidas. Contudo, das que tomei conhecimento, apenas uma mostrou preocupação com o futuro da cidade, falando sobre a necessidade de planejamento de longo prazo. No geral, os comentários relacionam as potencialidades de Bauru - localização privilegiada, polo econômico, centro educacional etc. e apontam o que precisa ser feito ? melhorar o trânsito, fazer o tratamento do esgoto, novas áreas para indústrias etc., mas o Plano Diretor parece esquecido. Já tivemos um plano diretor feito pelo Jurandyr Bueno Filho, que embora cumprido parcialmente, deixou, entre outros, dois traçados importantíssimos para a cidade: as avenidas Nuno de Assis e Nações Unidas, esta última incluindo a atual Nações Norte, com os trevos de interligação com as rodovias. Talvez poucos saibam que a rodovia Cmte. João Ribeiro de Barros começa em Araraquara, em direção a Panorama, passando por Jaú. Em Bauru ela foi seccionada na altura de Aimorés e continuada do trevo sobre a Marechal. Rondon, ao lado do núcleo Gasparini. É só verificar a marcação dos quilômetros. Esse plano diretor previa o traçado que dava continuidade, evitando a passagem por dentro da cidade. Se fosse seguido e o governo estadual feito as obras, só faltaria a ligação da Bauru/Marília com a Bauru/Ipaussu para termos o anel rodoviário. Hoje, com a urbanização da região do núcleo Mary Dota, essa obra ficou impraticável.
O atual Plano Diretor trouxe avanços, mas está ficando no papel. Projetos interessantes de revitalização do centro, de melhoria das condições viárias da Av. Rodrigues Alves, por exemplo, talvez tenham servido apenas como exercício didático, porque são divulgados pela imprensa e depois ninguém mais fala deles. Bauru não pode desprezar o centro. O Rio Bauru não somente dá o nome à cidade como é a região de onde ela jamais se afastará, por mais que cresça. Visto pelo olho do satélite é o vale para onde tudo converge do quadrilátero formado pela cidade. A mobilidade urbana, para atingir os quatro cantos, em transporte público, tem que passar por ali. A despoluição do rio com seus dez afluentes, em andamento, e a implantação de parques lineares poderão restituir ao centro o brilho de meados do século passado. O que é preciso são os projetos urbanísticos e viários de longo prazo, para vários governos, como foi o da av. Nações Unidas, de Nicolinha a Tuga Angerami, e a Nações Norte com Rodrigo Agostinho. Quem imaginaria o Vitória Régia servindo para a grande festa do Viva Bauru, quando o lixo era jogado no buracão onde hoje está o Teatro Municipal?
Regiões consolidadas das vilas mais próximas do centro estão mudando de paisagem com os condomínios verticais do programa Minha Casa, adensando a população e sobrecarregando a infraestrutura, com os consequentes problemas de suprimento de energia, água, saneamento e de trânsito. Que planejamento está sendo seguido? Quem sabe se a instalação do novo shopping, que deu nova vida à Vila Cardia, servirá de start para acender a luz de uma visão de farol alto, que enxerga os obstáculos ao longe, deixando o farol baixo que só serve para desviar dos buracos.
O autor, Pedro Grava Zanotelli, é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru e membro da ABLetras