Embora o caos exista e muitas vezes apronte, ele não impera. Portanto, pode-se dizer que o futuro sempre encerra múltiplas possibilidades, com limitações, com fronteiras, às vezes, difíceis de demarcar, mas que outras vezes até permitem um redesenho. Como o futuro é o tempo que nos resta: finito e incerto, o importante é encontrarmos nosso talento o mais rápido possível, investir na nossa verdadeira vocação, maximizar os ganhos possíveis no presente e usufruir dos benefícios desse investimento no futuro. A razão para isso é clara: como dinheiro emprestado a juros, o jovem não pode só tomar recursos adiantados do velho, fazer a festa, cantar a vida, lançar todos os fogos e balões a que julga ter direito e empurrar o ônus da dívida para o amanhã... ela ficará cada vez maior e, sem dúvida, será cobrada.
Há que se procurar uma solução de equilíbrio, algo factível e que permita usufruirmos da vida com dignidade. Se meu talento é correr os cem metros rasos, dispender esforços e sacrifícios treinando para uma longa maratona seria um desperdício. É preciso ter sólidos motivos para investir a vida projetando e construindo um foguete interplanetário para servir como meio de transporte se a nossa jornada equivale a uma simples ponte aérea. A finitude biológica é, sem dúvida, um condicionante de primeira ordem e um fator que restringe enormemente o domínio do que é exequível fazer e usufruir.
Houve época em que persegui o sonho de solar um cavaquinho. Se cheguei a fazê-lo foi por pura maestria do professor Paulo Villaça. Até que certo dia, ao ouvi-lo tocar um chorinho, me convenci que, além do ouvido absoluto para apontar meus erros, ele tinha o talento para fazer música e eu... só para ouvi-la. Evidentemente, se fôssemos imortais, projetos de vida e aventuras ousadas poderiam ser perseguidos. Se a vida de monge desapontasse, que tal a de cantor? Se a profissão escolhida perder o charme, que tal a política? Se o gesto impensado de evitar um assalto terminasse mal, seria só acionar um back-up de si mesmo e retomar a vida do ponto em que se desejasse. Como não somos imortais, essa tensão entre presente e futuro ? agora, depois ou nunca ? é uma questão que irá nos permear enquanto estivermos por aqui.
O jovem de hoje precisa entender que o amanhã já não parecerá tão longo, que a contagem regressiva rapidamente se insinuará nos interstícios de sua mente e que a confiança no porvir esmorecerá aos poucos. O jovem de hoje precisa entender que o ideal moderno de vida que busca o poder e o dinheiro a qualquer custo, agride realidades primárias da condição humana e se revela incompatível com a própria longevidade que a modernidade estimulou e tornou viável. O fato simples é que, se o critério de sucesso ou de sentido de nossa existência for definido segundo esse ideal, então a vida humana nunca poderá ser mais do que uma batalha vã, perdida antes mesmo do seu início.
O autor, Paulo Cesar Razuk, é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - câmpus de Bauru