Éder Azevedo |
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Condenado, Marcelo Nagao (à esq.), o Chacal, está preso por outros crimes já Márcio Roberto Silva foi absolvido por falta de provas |
Com a memória fraca, Maria Augusta de Andrade, 57 anos, conta a mesma história várias vezes. A mulher, porém, ainda lembra em detalhes que o filho Elias de Almeida Filho, morto ainda adolescente em 2001, pedia uvas sempre que ela ia ao mercado. “Nunca vou me esquecer dele”.
Só ontem, 12 anos após o assassinato, ela encontrou justiça. Marcelo Nagao, 31, foi condenado a 14 anos pelo crime. O outro réu, Márcio Roberto da Silva, 37, foi absolvido.
O assassinato teve grande repercussão na época. Com 16 anos, Elias, chamado de Tico por familiares e Ozzy pelos amigos, foi morto após briga generalizada em frente ao Teatro Municipal.
Marcelo Nagao, conhecido como Chacal, e Márcio da Silva foram indiciados por homicídio triplamente qualificado. O julgamento, realizado ontem no Fórum de Bauru, durou aproximadamente 10 horas.
Das dez testemunhas (três de acusação e sete de defesa), apenas duas de acusação foram ouvidas. Os dois amigos da vítima reafirmaram as denúncias contra os réus.
Nagao e Márcio respondiam em liberdade pelo assassinato de Elias. Porém, o primeiro está preso por outro homicídio ocorrido em 2002 e tráfico de drogas.
Já Márcio cumpriu sete anos por roubo, furto e apropriação indébita e já está em liberdade. Mesmo sem a obrigatoriedade, ele foi até o Fórum, onde permaneceu até a hora do almoço. Foi embora e não mais voltou.
Na parte acusatória, feita pelo Ministério Público e por um advogado assistente, pedia-se a condenação de ambos os réus. “Não os enxergue como jovens rebeldes, mas sim assassinos”, clamou José Zonta Júnior, assistente de acusação.
Ele chegou a utilizar uma história particular para mostrar a agressividade da dupla. Segundo Zonta, uma semana antes do assassinato de Elias Andrade, o próprio filho do advogado foi agredido pelos réus. “Ele ficou com a boca toda estourada. Isso mostra a índole desses dois”.
Já a defesa, composta por dois defensores públicos, concentrava-se na tese da falta de provas para incriminar os réus. Danilo Rodrigues Camargo, que representava Nagao, pediu que o seu cliente não fosse julgado pelo seu passado. Segundo ele, não havia como alguém ser responsabilizado após uma briga generalizada.
Já Paulo Roberto Ramos, advogado de Márcio da Silva, questionou bastante o depoimento das testemunhas ouvidas. Ele ainda se apoiou nas oitivas para mostrar que não havia qualquer indicação de autoria do seu cliente.
Após as falas dos defensores, a acusação não fez uso da réplica.
Resultado
Por volta das 20h, o júri decidiu por quatro votos (como é a maioria que conta, não é divulgada a totalidade dos outros votos dos jurados) inocentar Márcio Roberto da Silva por falta de provas. Já Marcelo Nagao, o Chacal, não teve o mesmo destino e foi condenado.
Após duas qualificadoras (meio cruel e método que dificultou a defesa da vítima) e uma atenuante, a pena total atribuída pelo juiz Benedito Antônio Okuno foi de 14 anos de prisão. Nagao não quis estar presente para ouvir a sentença. “Já o comuniquei e, provavelmente, iremos recorrer da decisão”, disse o advogado de defesa do condenado.
Já a acusação se mostrou satisfeita com a decisão do júri. “A defesa do Márcio mostrou que não havia provas para condená-lo. Porém, o Nagao merecia a condenação e ela veio”, destacou José Zonta Júnior, complementando que ainda estuda pedir indenização contra o município pela falta de segurança no evento que culminou na tragédia.
Ao final do julgamento, o olhar da mãe de Elias era praticamente o mesmo da chegada. Mesmo com a condenação de um dos réus, ela lamentou a falta do filho. “Nada disso vai trazer ele de volta, né?”, questionou Maria Augusta, emocionada.
Relembre o caso
A briga que terminou em tragédia ocorreu na noite de 18 de outubro de 2001. Em companhia de amigos, Elias de Almeida Filho, que morava no Parque Santa Cecília, foi a um festival de rock no Teatro Municipal. No local, ele teria encontrado com um antigo desafeto, morador do Núcleo Bauru 16.
Ao fugir, no lado de fora do teatro, o estudante foi cercado e agredido por vários adolescentes e adultos. Com trauma cranioencefálico, ficou internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) por cinco dias, quando foi constatada sua morte cerebral.
Apesar do grande número de envolvidos, somente Marcelo Nagao e Márcio da Silva foram indiciados. Além da morte de Elias, outras 14 pessoas saíram feridas.
O desentendimento, que teve seu estopim no show, porém, teria começado cerca de dois anos antes. As investigações apontaram que Elias paquerou a irmã de um adolescente, amigo de Chacal. Foi então que começou uma série de brigas constantes.
