Regional

Demora no conserto de relógios revolta igrejas em duas cidades

Lilian Grasiela
| Tempo de leitura: 4 min

José Reynaldo da Fonseca/Google

Igreja Santa Luzia, de Bocaina

Há cerca de um ano, moradores de duas pequenas cidades da região estão tendo que se deparar com um vazio nas torres de três igrejas. Os relógios, alguns com mais de 100 anos, foram retirados por um restaurador, que levou as peças para consertar e recebeu antecipadamente pelos serviços. Porém, até agora, o trabalho não foi concluído, o que têm revoltado a igreja e a comunidade.

Em Bocaina (69 quilômetros de Bauru), o caso já vem se arrastando desde setembro do ano passado. De acordo com o padre André Zacheu, o restaurador Luiz Carlos Zocca, de Jaboticabal, foi contratado para modernizar os relógios das torres das igrejas de Santa Luzia e Matriz de São João Batista, cada um com quatro mostradores.

“Isso incluía substituição de algumas peças antigas que não têm mais condições de funcionamento e a galvanização (revestimento com metais nobres para evitar corrosão) de outras”, explica. “A gente só fazia manutenções paliativas. A gente mandava consertar algumas peças, só que elas voltavam a quebrar”.

Arquivo/Éder Azevedo

Igreja São João Batista, de Bocaina

O padre conta que, por várias décadas, a manutenção dos relógios foi feita pelo pai de Zocca, que já morreu. “Nós não tínhamos outra referência”, diz. “Não têm pessoas no mercado que arrumam isso na região. Tem muitas igrejas em Araraquara que, simplesmente, acharam por bem não ter mais os relógios”.

Pelos serviços, ele recebeu R$ 10.115,00, valor que foi dividido em três parcelas, pagas em setembro e novembro do ano passado e janeiro deste ano. Segundo Zacheu, o pagamento foi feito antecipadamente porque o restaurador disse que precisava fazer uma cirurgia urgente. Porém, até o momento, o trabalho não foi concluído.

“Ele fala que não deu garantia do tempo de serviço”, alega. O pároco revela que, a cada telefonema, Zocca dá uma nova desculpa para o atraso. “Ele usou da nossa inocência para se beneficiar. Isso que é o mais difícil”, afirma. “Eu saio da minha casa todo dia e olho para o relógio quebrado. E isso me chateia”.

Entre as peças que ele levou para consertar, está um carrilhão da igreja de São João Batista, responsável por mexer os ponteiros do relógio. Um novo, de acordo com o padre, custaria R$ 40 mil. “Nós confiamos no nome da família. Nós deixamos essa responsabilidade na mão dele e estamos nos sentindo enganados”, desabafa.

O último prazo dado pelo restaurador para concluir os serviços venceu ontem. “Com essa matéria, poderá haver uma sensibilidade por parte do Zocca para que, realmente, ele termine esse serviço, que não é para mim. O relógio não é meu, é da comunidade. Ele faz parte da história da comunidade”, relata.

Amanhã, a igreja pretende registrar um boletim de ocorrência de preservação de direitos contra ele.

“Infelizmente, nós tentamos de todas as formas cabíveis e, até podemos dizer, cristãs ter paciência, só que, depois de um ano, a paciência terminou e a gente vai atrás de meios para garantir nossos direitos”, anuncia.

 

Divulgação

Matriz Sagrado Coração de Jesus mesmo problema

Caso semelhante

Na cidade de Nova Europa, região de Araraquara, a Matriz Sagrado Coração de Jesus enfrenta a mesma situação há aproximadamente um ano. Segundo o padre Everson Andrade do Prado, Luiz Carlos Zocca também foi contratado para restaurar o relógio da torre da igreja. “Nós pagamos mais de R$ 5 mil para essa pessoa e ela, de fato, conseguiu fazer algumas coisas, mas o final do trabalho ela não fez”, conta.

O padre conta que, na maioria das vezes, o restaurador não atende o celular. Quando ele consegue fazer o contato, Zocca diz que vai fazer o serviço, mas não cumpre a promessa. “A comunidade cobra do padre, cobra de mim. E eu não sei mais o que fazer”, diz. “O relógio aqui é uma questão de tradição. Em cidades pequenas, as pessoas gostam de acompanhar os horários”.

A reportagem apurou que, em fevereiro deste ano, Zocca foi condenado pela Justiça a pagar R$ 17.472,75 de danos morais à Mitra Diocesana de Jales por serviços pagos e não executados na Paróquia de São João Batista, localizada na cidade de Santa Fé do Sul.

Segundo sentença publicada no site do Tribunal de Justiça, em 2010, ele recebeu R$ 9.020,00 por microcomputador com relógio digital visando à reativação do relógio da igreja central. Após inúmeros defeitos e consertos feitos por Zocca, o equipamento teria sido levado para assistência técnica e não foi devolvido.

O JC telefonou várias vezes para o restaurador durante todo o dia, mas ele não atendeu as ligações. No início da noite, a reportagem conseguiu falar com ele, mas ele informou que estava ocupado e só poderia falar hoje, a partir das 8h.

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