Internacional

Egito: mortos em massacre passam de 600

Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min

Amr Abdallah Dalsh/Reuters

Acúmulo de corpos a espera de legista obriga o uso perfumes para disfarçar cheiro dos mortos

Partidários da Irmandade Muçulmana do Egito invadiram e queimaram um prédio governamental ontem, enquanto familiares tentavam identificar corpos mutilados que ficaram empilhados em uma mesquita do Cairo, um dia depois de as forças de segurança matarem centenas de manifestantes.

O Ministério da Saúde diz que 623 pessoas morreram e milhares ficaram feridas no dia de maior violência civil na história moderna do Egito, mais populoso país árabe.

Seguidores da Irmandade dizem que o número de mortos é bem maior, e que centenas de cadáveres ainda não foram contabilizados pelas autoridades depois da repressão policial e militar a manifestantes que reivindicavam a restauração do mandato do presidente deposto Mohamed Mursi.

A TV estatal disse, citando o Ministério do Interior, que as forças de segurança voltarão a usar munição real para repelir quaisquer ataques a seus agentes ou a prédios públicos.

Ontem, houve relatos de novas manifestações contra o governo provisório, mas sem que se repetisse a violência da véspera. Em Alexandria, segunda maior cidade egípcia, centenas de participantes de uma passeata gritavam: “Vamos voltar, em nome dos nossos mártires!”. Mas as ruas do Cairo estavam ontem excepcionalmente vazias, com negócios fechados.

ONU condena

O Conselho de Segurança da ONU apelou ontem a todas as partes no Egito que acabem com a violência e exerçam o máximo controle depois que centenas de pessoas foram mortas quando tropas e policiais reprimiram manifestantes que exigiam a reinstalação do presidente deposto Mohamed Mursi.

“A visão dos membros do conselho é de que é importante acabar com a violência no Egito e que as partes exerçam a máxima contenção”, disse a embaixadora argentina na Organização das Nações Unidas (ONU), Maria Cristina Perceval.


EUA vão rever ajuda ao Egito

O presidente americano, Barack Obama, anunciou o cancelamento dos exercícios militares entre os EUA e o Egito, previstos para setembro, como reação à repressão violenta da junta militar, que fez ao menos 638 mortos ontem em várias cidades do país.

“Nossa tradicional cooperação não pode continuar enquanto civis estão sendo mortos”, afirmou. A operação militar entre os dois países acontece a cada dois anos.

Os EUA pediram a seus cidadãos que evitem viajar ao Egito e, aos que estiverem no país, que saiam de lá.

Ele não anunciou o cancelamento da ajuda financeira de US$ 1,5 bilhão que os EUA enviam anualmente.


Centenas de corpos se acumulam em mesquita

Um dia depois do massacre que deixou ao menos 525 mortos no Egito, islamitas velavam ontem seus mortos em meio ao agravo da crise política no país.

Dezenas de corpos têm sido carregados para a mesquita de Imam, no Cairo, onde familiares lamentam as perdas e legistas identificam os cadáveres.

Os corpos são mantidos enrolados em panos brancos, manchados pelo sangue das feridas. No ar carregado, o cheiro da putrefação se mistura com o dos perfumes usados para disfarçar a podridão.

Abdallah Muhsein, 21 anos, chorava pelo pai, morto durante a repressão das forças de segurança durante o desmonte do acampamento islamita ao redor da mesquita de Rabia al-Adawiya.

“Nós estávamos nas ruas pela legitimidade”, diz. “Meu pai levou um tiro no ombro e o outro nas costas.”

Membros da Irmandade Muçulmana e simpatizantes da organização, da qual faz parte o presidente deposto Mohammed Mursi, afirmavam à reportagem que vão permanecer nas ruas até retomar o governo -hoje liderado temporariamente por Adly Mansur, após o golpe de Estado de 3 de julho.

“Vamos protestar todos os dias”, diz o professor de inglês Muhammad Gamal, 31. “Toda gota de sangue derramada faz mais pessoas virem às ruas.”

Após o massacre de ontem, as ruas do Cairo estavam hoje excepcionalmente vazias, com negócios fechados. Mas, com a abertura de vias bloqueadas por semanas por islamitas, a cidade tentava voltar a seu ritmo habitual.

 

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