O que leva uma criança de 13 anos a matar o pai, a mãe, a avó e a tia e depois cometer suicídio? É a pergunta que fazemos a nós mesmos, sem encontrar resposta. Segundo testemunhas, o relacionamento familiar era ótimo, comprovados por bilhetes com declarações de muito amor no Dia dos Pais. Menino tranquilo e bom aluno na escola. Impossível ser apontado como autor de uma chacina. As tragédias são sempre inexplicáveis - escreveu Shakespeare, depois de dedicar toda a sua obra a perscrutar os recônditos da alma e as baixezas humana. A maldade seria ilimitada quando temos pela frente um psicopata. Mas a crônica policial nos dá conta de autores de crimes bárbaros nos quais os psiquiatras forenses não conseguiram encontrar resquícios de perturbação mental.
As pessoas agem como seres normais, dedicadas à família e a uma rotina de trabalho. São considerados bons vizinhos, tranquilos, educados e, de repente, cometem atrocidades. Um pouco diferente da mulher traída que, numa situação emocional-limite, mata o marido, esquarteja o corpo, acondiciona-o em malas de viagem e espalha as partes no meio do mato. Mesmo assim chocante, tratando-se da mãe de uma criança que teve com a vítima e sem antecedentes criminais.
A hipótese mais perturbadora de Hannah Arendt é a de que o mal seja o resultado da ausência de pensamento. Pessoas "terrivelmente normais" e disciplinadas foram responsáveis pelo extermínio de milhões de judeus. A afirmação da autora era de que Adolf Eichmann não era um "monstro", embora tenha cometido monstruosidades como responsável pelos campos de concentração nazistas. Tratava-se, apenas, de um burocrata responsável pelo êxito estatístico da "solução final do problema judeu".
O excepcional filme "Hannah Arendt" (infelizmente filmes bons não são exibidos em Bauru), de Margarete Von Trotta, nos dá conta da descoberta da filósofa (ela não gostava de assim ser chamada), consubstanciada na expressão: a burocracia mata. O livro de Arendt, "Eichmann em Jerusalém", foi recebido como uma "defesa" do criminoso. A autora chegou a ser hostilizada pela sua comunidade judaica, como alguém incapaz de pensar igual a milhares de outros.
Quase 70 anos depois, em realidade e geografia diferentes, ouso dizer que a burocracia é capaz de matar, mesmo tendo à sua frente pessoas de bem, que pagam suas contas em dia, chefes de família amorosos e profissionais competentes. Em Bauru, 581 pacientes morreram à espera de internação nos hospitais, nos últimos três anos. A estatística banalizada, mesmo em se tratando de vidas humanas, corresponderia a um quase genocídio.
O Ministério Público resolveu intervir num esforço de impedir a continuação desse triste status. Nas metrópoles e nas grandes cidades, os números chegam a ser macabros. As pessoas morrem nos corredores, em macas. Médicos e paramédicos acostumaram-se a tantas dores e sofrimentos, inerentes à atividade profissional. Há no Brasil toda uma codificação legal sobre Direitos Humanos. Faltam os humanos direitos. O sofrimento e a morte daqueles que poderiam ser aliviados de suas dores e até salvos, infelizmente, tornaram-se comuns na blogosfera. Não mais comovem a opinião pública e nem preocupam ao Estado. Falta de verba é a única e definitiva desculpa.
Sempre que leio sobre fatos gerados pelo lado incompreensível da atitude do homem lembro-me do famoso conto "A terceira margem do rio", de Guimarães Rosa. Conta a estranha história de um pai que se evade de toda e qualquer convivência com a família e a sociedade, preferindo a completa solidão do rio, lugar em que, dentro de uma canoa, rema "rio abaixo, rio a fora, rio a dentro", sem nunca voltar.
A terceira margem do rio é aquilo que não se vê, que não se toca, que não se conhece. É a busca do desconhecido dentro de nós mesmos; um despertar para o mundo do inconsciente, do abstrato, ou da procura por explicações do mundo em que vivemos. Sem esses subsídios é impossível ler o mundo, ou não vale à pena nele subsistir.
O isolamento foi a forma encontrada pelo homem da canoa para entender os mistérios da alma humana, nas suas profundezas abissais. O rio sempre teve destaque na imaginação de Guimarães Rosa, pois "são profundos como a alma do homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranquilos e escuros como os sofrimentos dos homens".
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC