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O selinho entre o futebol e a homofobia

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 3 min

"Algumas pessoas acham que o futebol é uma questão de vida ou morte. Elas estão erradas. É muito mais que isso". A frase dita pelo grande treinador inglês Bill Shankly simboliza o que o futebol representa para alguns (para mim, por exemplo). E é por isso que um fato supostamente futebolístico chamou tanto a atenção. Na verdade, o reflexo extrapola em muito as quatro linhas. Para comemorar a vitória (com um penaltizinho bem maroto) do Corinthians, o atacante Emerson Sheik postou uma foto nas redes sociais dando um selinho no chef de um restaurante. Na postagem, ele cita o nome do estabelecimento do amigo duas vezes (como diria o comentarista Neto, "baita jogada" de marketing, por sinal). Pronto. Não se destacou mais nada. Nem o lance capital polêmico que decidiu a partida; nem a crise do São Paulo; nem o empate sem graça do Santos; nem a virada espetacular do Palmeiras. Nada. O Brasil se virou para o selinho do Sheik.

E é aí que percebemos como o mundo é preconceituoso. E ainda mais preconceituoso quando se fala no universo da bola. Muito legal dar amplo espaço a um homossexual na novela (carregado de estereótipos). Mais positivo ainda, além do vilão, ter um casal homoafetivo que quer adotar uma criança. Mas, e daí? Isso tem pouco efeito diante do inimigo a combater. Cinco pessoas de uma torcida organizada (????) do Corinthians chegaram a ir até o Centro de Treinamento (CT) do time exigir que o Sheik pedisse desculpas. Ora bolas. Desculpa do quê? "A gente não tira os bambis dizendo que eles são bichas? Aí vem falar que é normal? Para nós, não é normal. Não é homofobia nem nada, mas aqui não", explicou (????) um deles.

Não é homofobia? É muita homofobia, cara pálida. Como colocou perfeitamente uma amiga jornalista, "usar a frase ?eu não sou preconceituoso, mas...? é o argumento de todo preconceituoso raso e babaca". Mais do que os cinco que foram ao CT, uma chuva de comentários nos grandes portais de notícias criticavam a atitude do jogador. E eles iam desde "isso é algo anormal", perpassando por "você fez dois gols na final da Libertadores, mas não tem o direito de fazer isso" até chegar no popular argumento inepto do "como vou explicar isso pro meu filho?". O mundo é machista e homofóbico. O mundo futebolístico é muito mais. Somos todos preconceituosos de uma forma ou de outra. Eu sou e você é. Dizer que não somos e, logo depois, fazer a ressalva de que não aceitamos isso ou aquilo é ainda mais nocivo. Naturalizamos tal preconceito quando dizemos que ele não é preconceito. Defendo que, no mundo da "boleiragem", a zoação deve ser permitida. Na verdade, deve ser uma regra. É ela que nos apaixona e move as mesas de bar. Contudo, a zoeira não pode passar nem perto da segregação e do preconceito.

Mesmo com tal contexto, é inegável que evoluções ocorreram. Entretanto, a sociedade ainda está longe de ser tolerante. Não adianta dançar para o Feliciano dentro de em um avião. É preciso criminalizar a homofobia. Só com duras penas, os preconceituosos irão começar a refletir que é crime, sim senhor, reprovar pessoas do mesmo sexo andando de mãos dadas em um shopping ou se beijando no banco de uma praça. O arquivamento do projeto da "cura gay" foi visto como uma vitória por muitos. Em minha opinião, foi só mais um reflexo do preconceito velado. Triunfo da sociedade seria se fosse rejeitado por unanimidade. Isso mostraria que realmente todos entenderam que o doente não é o homossexual, mas quem propõe algo boçal assim. Para fechar meu dia, um porteiro me pergunta: "Ei, você que é jornalista. Viu que absurdo a história do companheiro de repórter que foi preso? Um absurdo". Antes que eu concordasse que é abominável alguém ser detido, mesmo que temporariamente, por conta de uma série de reportagens denunciando a espionagem norte-americana, ele emendou: "Um absurdo esse negócio de namorado de homem. Homem é homem, não é? Isso é tudo das culpa dessas novelas, viu...".

O autor, Vitor Oshiro, é corintiano, apostólico, romano; repórter do JC; e especialista em Linguagem, Cultura e Mídia

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