A globalização estreitou a relação entre os países. O contexto econômico é o mais emblemático e o mais visível. Se no passado uma crise econômica, por exemplo, demorava um período para atingir outros mercados, atualmente isso é instantâneo e vale qualquer porte de economia. Os países eram classificados em desenvolvidos, em desenvolvimento e subdesenvolvidos e foram reclassificados em outras nomenclaturas como emergentes e até mesmo analisados em grupos, como os chamados Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) que possuem economias semelhantes, e ainda em blocos econômicos como os tigres asiáticos, a zona do Euro, o Mercosul e assim por diante.
Neste contexto é evidente que a relação entre as moedas passou a ter um peso significado. Observem o caso chinês, em que inúmeros países do mundo questionam a desvalorização artificial da moeda local em relação a outras moedas no mundo. A mobilidade do capital e até mesmo a sua volatilidade passaram a ser realidade. A busca por segurança, liquidez e rentabilidade (denominado de tripé das decisões dos investidores) tem norteado as decisões dos investidores.
O Brasil, em particular, se apresentou dentro dos emergentes como uma boa aposta para o capital estrangeiro. Sem rentabilidade em países considerando desenvolvidos, como os Estados Unidos e inúmeros países da Europa, os investidores vislumbraram no Brasil um porto seguro para aportar seus recursos, combinando este tripé do investidor. Especificamente nos Estados Unidos, centro da crise de 2008 e 2009, os juros domésticos despencaram, aumentando a liquidez daquele mercado. Os juros básicos se aproximaram de zero, portanto, outros mercados, como o do Brasil, foram priorizados.
O Brasil, sem ter para quem exportar no volume necessário, passou a amargar déficits em transações correntes (resultado da relação do país com o resto do mundo) e o capital volátil, especulativo, cobriu os rombos existentes. Ingressaram fortemente no Brasil valorizando o Real diante de outras moedas. Com a recuperação econômica americana em curso, o Banco Central daquele país começou o processo de enxugamento da liquidez da economia, apertando mais a política monetária, com a elevação dos juros básicos.
Neste mesmo momento os denominados emergentes não passam por bom momento. O caso brasileiro é um exemplo em que a inflação se elevou e o produto interno bruto não deslancha. Na ótica do investidor é hora de retirar seus recursos das economias emergentes e buscar portos mais seguros, principalmente com a elevação da rentabilidade nos países desenvolvidos.
Fica fácil entender que a demanda por dólares aumenta à medida que o investidor estrangeiro quer trocar a moeda nacional pela moeda americana para sair do país, sem que haja oferta suficiente, elevando a cotação. Estamos em pleno momento de efervescência em que economia fraca, com inflação acima do aceitável, passa ser o prato feito para aqueles que não confiam da economia nacional.
Visando minimizar a pressão sobre a cotação, o Banco Central brasileiro tem entrado no mercado e ampliado a oferta de dólar. A própria fala do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, dizendo que quem apostar só na alta do dólar irá se dar mal, é uma demonstração clara que a munição não será pouca. Vale lembrar que quando o dólar atingiu os R$ 4,00 em 2002, no período pré-eleição de Lula, as reservas cambiais brasileiras não ultrapassam 10 bilhões de dólares e ainda dependíamos do Fundo Monetário Internacional. Atualmente o Brasil tem algo próximo a 370 bilhões de dólares, portanto, munição mais que suficiente para enfrentar qualquer exagerado do mercado. Em resumo: há turbulência, o mercado convive com o efeito manada, mas o Banco Central, se agir com rapidez, prudência e estratégia, conseguirá evitar que o dólar dispare e assuma um patamar que fique incontrolável. Esta é aposta.
O autor, Reinaldo Cafeo, é economista, diretor regional do Corecon e articulista do JC