“Aluga-se”. É só andar alguns metros por Bauru para se deparar com grande quantidade de placas com tal oferta. Por conta de vários fatores que retiraram a casa própria apenas do plano dos sonhos, o número de imóveis para alugar na cidade já superou a demanda. Com isso, economistas e o próprio setor confirmam: está mais difícil conseguir arranjar locatários.
O contexto se aplica principalmente aos apartamentos estudantis (próximos a universidades e de apenas um dormitório) e familiares de classe média. Ou seja, aqueles que, somados aluguel e condomínio, chegam a um valor máximo de R$ 1 mil por mês.
O investidor André Baptista, 38 anos, possui alguns apartamentos com esses dois perfis. “A oferta realmente está maior que a procura. Hoje, demoro de dois a três meses para alugar um apartamento familiar. Antes, era bem mais rápido”, confirma.
E a situação de André não é uma exceção. Por conta de programas governamentais de facilidades e subsídios como o Minha Casa, Minha Vida e da oferta de crédito privado para construção e aquisição de imóveis próprios, muitos estão migrando do aluguel para a prestação. Com isso, criou-se uma “gordura” de imóveis em Bauru à procura de um locatário.
O Conselho Regional de Corretores de Imóveis (Creci) confirma o fenômeno e acrescenta na lista de causas a ação intensa dos investidores. “A construção civil vinha em ritmo muito acelerado e isso atraiu muitos investidores. Porém, ao mesmo tempo, muitas pessoas compraram imóveis e saíram do aluguel. Com isso, a oferta ultrapassou a procura”, aponta o delegado regional do Creci, Carlos Eduardo Candia.
Ele exemplifica com um prédio no Jardim Panorama. “Antes, quase de imediato, esse prédio era totalmente ocupado por locatários. Hoje, está com 30% a 40% de ocupação apenas”, destaca Candia, complementando que há apartamentos entregues no semestre passado e que ainda possuem unidades vazias.
O diretor da área de comercialização de imóveis da regional Bauru do Sindicato da Habitação (Secovi-SP), Fernando César Pegorin, revela que, nos últimos três anos, cerca de 6 mil imóveis foram comercializados em Bauru. “Desses, aproximadamente 4 mil eram de padrão popular”. O fato explica o perfil dos apartamentos para locação que, hoje, estão vagos.
“Há um volume grande de imóveis no mercado. Com os lançamentos, muitos aproveitaram para comprar um imóvel e trocaram o aluguel pela prestação”, aponta Pegorin. “Mas o investidor que comprou o imóvel não perdeu dinheiro de forma alguma e ainda há força no mercado de locações”, ressalva.
Pechinchar
Tendo em vista este contexto atual, o que resta a quem está procurando por um imóvel para alugar? A resposta é simples: pechinchar. Muitos proprietários já estão diminuindo os preços dos aluguéis (leia mais abaixo) para “desencalhar” os imóveis.
“É uma época boa para fazer negócio. Neste período, as pessoas podem começar a procurar que vão achar imóveis com aluguéis mais baratos”, aponta Carlos Eduardo Candia, do Creci.
Aos que já moram de aluguel e não querem mudar do imóvel, a dica é entrar em contato com a imobiliária, apontar ofertas mais tentadoras e negociar.
Além de confirmar que realmente existem muitos imóveis sobrando pela conjuntura citada pelo setor, o economista Wagner Ismanhoto complementa que a pechincha dos locatários já ocorre com frequência.
“É um verdadeiro leilão”, pontua. “Para conseguir alugar, alguns proprietários mais afoitos aceitam baixar os preços dos aluguéis e isso vai sendo seguido por todo o setor. É um efeito dominó”, conclui.
De ‘aluga-se’ para ‘vende-se’
Com o contexto, alguns investidores já estão colocando à venda os imóveis que, antes, eram usados para conseguir renda com aluguéis. “Eu mesmo já comercializei alguns que eram usados para a locação”, conta o investidor André Baptista.
Após ver unidades sobrando em prédios que ficavam completamente ocupados, a medida foi adotada. Para o investidor, além do aumento da possibilidade de compra das pessoas, outro fator também colaborou para a questão: o desenvolvimento de municípios menores na região.
“Antes, muitos vinham fazer universidade por aqui e acabavam alugando um imóvel. Isso ainda continua. Mas, na região, há várias cidades que também já têm faculdades. Acho que isso colaborou para este contexto atual”, complementa Baptista.
Aluguel: 30% da renda
Aos interessados em alugar um imóvel, vale um alerta importante: os economistas colocam um limite da renda a ser comprometido com a moradia. Até 30% dos ganhos mensais da família devem ser comprometidos. E esse limite não é apenas referente ao aluguel.
“Esse valor engloba todos os gastos com a moradia. Ou seja, aluguel, condomínio, conta de água, de luz, entre outros. É uma medida de segurança ao orçamento”, aconselha o economista Wagner Ismanhoto.
Aluguéis tiveram queda de até 10%
Com a “gordura” de apartamentos para alugar, a estratégia é torná-los mais atrativos. E a melhor maneira de conseguir isso é pelo bolso. Assim, proprietários de imóveis já diminuíram o valor do aluguel.
“Estamos verificando este quadro de maio para cá. Os vários lançamentos acabaram retirando o mercado dos aluguéis, principalmente quando se fala em apartamentos. E a estratégia é diminuir mesmo os preços. A média de redução é de 5% a 10% por aqui”, relata Vera de Cássia Michelão Cabrera, gerente de locação de uma imobiliária bauruense.
Logicamente, os proprietários não ficam totalmente “felizes” em diminuir o valor dos aluguéis. “Mas eles preferem diminuir o valor e conseguir alugar o imóvel. Se não alugam, além de ficar sem aquela renda, precisam ficar pagando o condomínio”, aponta a gerente.
O economista Wagner Ismanhoto confirma que os preços praticados estão diminuindo. E, segundo ele, não é de hoje. “Há alguns anos, o valor do aluguel era de 1% em relação ao preço que o imóvel foi comprado. Hoje, este retorno é de 0,2% ou 0,3%. Enquanto o preço do imóvel subiu com o boom imobiliário, ocorreu o contrário com o aluguel”, complementa.