A longa espera no Pronto Atendimento Infantil (PAI) escancarou, mais uma vez, a insuficiência de médicos para dar conta de toda a demanda. O desespero e indignação de pais de crianças doentes, divulgados pelo JC na última quinta-feira, têm uma razão de ser.
Conforme reconhece o Departamento de Urgência e Emergência (DUE) da Secretaria Municipal de Saúde, o setor precisaria de mais 14 pediatras para proporcionar atendimento sem grandes transtornos aos usuários. Atualmente, trabalham no PAI cerca de 20 médicos, sendo que pelo menos dois estão afastados por problemas de saúde e um está em férias.
O número não tem sido suficiente para preencher todas as escalas de trabalho e, assim como ocorreu anteontem, a quantidade mínima de quatro profissionais por turno quase nunca é alcançada. A contratação de 14 novos médicos daria fôlego para o PAI e também garantiria a abertura de assistência para crianças em uma das Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) da cidade.
“Seria o suficiente para deixar, durante 24 horas por dia, três pediatras no PAI e dois na UPA do Bela Vista ou do Geisel, que descentralizaria o serviço”, destaca o diretor do DUE, Luiz Antonio Bertozo Sabbag. O volume de médicos atualmente contratado pela prefeitura nesta especialidade é 40% menor do que o idealizado pelo departamento.
Somente para suprir a deficiência do PAI, seriam necessários ao menos mais três médicos. A contratação, de acordo com o diretor, só não acontece por falta de interesse dos profissionais, que, embora se inscrevam e sejam aprovados em concurso público, dificilmente assumem as funções.
Chateados
Por este motivo, ele revela que precisa contar com a colaboração dos pediatras já contratados, que são chamados a cumprir plantões extraordinários e, muitas vezes, se dispõem a trabalhar na unidade por algumas horas, que são descontadas do banco de horas.
Mas, desde a semana passada, quando o Conselho Gestor do Pronto-Socorro Central (PSC) denunciou médicos pediatras de estarem batendo o ponto sem cumprir seus plantões integralmente, a negociação para preencher as janelas das escalas teria ficado mais difícil.
“Todos os médicos estão chateados e não têm mais a mesma disposição. Eles têm receio de chegar ao plantão, trabalhar por duas, três, quatro horas para descontar do banco e as pessoas acharem que eles estão abandonando o serviço”, pondera Sabbag.
De acordo com o diretor, foi esta dificuldade que provocou o caos no PAI na noite da última quinta-feira. Até as 19h, 203 fichas já haviam sido cadastradas na unidade. Mas, contando com apenas dois médicos ao longo de todo o dia, a troca de turno ocorreu ainda restando 52 crianças a serem atendidas.
Outras 45 chegaram após este horário, e, com a manutenção de apenas dois médicos de plantão, houve o colapso que foi alvo de intensa reclamação por parte dos usuários. “Uma terceira médica, que já tinha sido chamada para ajudar a preencher a escala, chegou por volta das 21h e o atendimento foi normalizado por volta da 1h da madrugada”, frisa.
Reclamação em Tibiriçá
Com o filho de 10 anos sofrendo com uma crise de bronquite, a panificadora Luciana Aparecida Bueno da Silva, 35 anos, procurou a unidade básica de saúde do distrito de Tibiriçá e, sem conseguir solução para o problema, acabou se somando às dezenas de mães que se aglomeraram no Pronto Atendimento Infantil, em Bauru, na noite de anteontem.
Moradora de Tibiriçá, ela conta que procurou o posto de saúde por volta das 10h de anteontem e que foi informada por funcionários de que a consulta só poderia ser realizada na semana que vem. “Disseram que, para fazer qualquer procedimento ou para dar medicação, precisava de avaliação médica. Saí de lá e fiz inalação no meu filho em casa e dei o remédio que eu tinha”, lamenta. Como o quadro de saúde do filho voltou a piorar à noite, Luciana o levou ao PAI, em Bauru, já no início da madrugada de ontem, quando o garoto foi devidamente medicado.
Por meio de nota, a Secretaria Municipal de Saúde informou que a unidade básica de saúde de Tibiriçá conta com pediatra apenas às sextas-feiras. Como não havia médico anteontem, uma ambulância foi disponibilizada para trazer a criança ao Pronto Atendimento Infantil, oferta que foi dispensada pela mãe.
Por conta de uma desistência na agenda médica de sexta-feira, a chefia do posto de saúde teria informado Luciana sobre a possibilidade de consulta para o período da manhã. No entanto, a mãe não teria comparecido à unidade.