A psicóloga Gislaine Aude Fantini dedica-se há 20 anos a tornar a vida de idosos mais feliz. Ela coordena a Universidade Aberta à Terceira Idade (UATI), mantida pela Universidade Sagrado Coração (USC), de Bauru.
Formada há 30 anos, a bauruense dedicou os primeiros 10 anos de carreira à sua clínica. A partir de um convite em 1993, Gislaine não fugiu do desafio de intervir em grupos da terceira idade, quando o termo nem era disseminado e o assunto ainda era tabu. Era um tempo em que a pessoa considerada “velha” era “encostada”. Duas décadas depois, passaram pela UATI cerca de 3.500 alunos. A cada semestre, 200 alunos se matriculam nas atividades. Os idosos estão com outro perfil e redescobrem o prazer de viver.
A UATI recebeu uma moção de aplauso da Câmara Municipal pelos 20 anos de existência trabalhando com a terceira idade. A moção foi proposta pela vereadora peemedebista Telma Gobi e lida na última sessão do Legislativo buaruense. Gislaine tem como modelo de vida sua mãe Yvonne Saliba Murad Aude, 84 anos e em plena atividade. Seu irmão, o advogado Gesner Abdala Aude, conta que Gislaine tem muito também do pai, Miguel Aude, pioneiro no comércio de Bauru, que também foi entrevistado da semana do JC na edição de 15 de fevereiro de 2009 ao completar 90 anos.
Gislaine encontra na família a força para dar atenção a quem precisa e não somente aos idosos. O esposo Waldomiro Fantini Jr. representa a segurança de um grande companheiro. As filhas Fernanda e Carolina são consideradas sua “grande realização”. A seguir, veja os principais trechos da entrevista com Gislaine.
Jornal da Cidade - Como iniciou o trabalho com idosos?
Gislaine Aude Fantini - Sou formada há 30 anos em psicologia na USC. Montei uma clínica, mantida durante 10 anos. Tinha uma especialização com autistas. Fiz opção acadêmica. Em 1993, a universidade abriu as portas para a terceira idade. Deu um pouco de ansiedade porque na época não havia literatura sobre idosos. Foi um grande desafio. Não existia um modelo de como trabalhar com idoso. Na época fui convidada para dar palestras em São Paulo e em outras regiões. Foi um trabalho pioneiro da USC e me deram liberdade para que realizasse esse trabalho. Mas existe uma trajetória. Começou com a política nacional do idoso.
JC - Qual é o perfil do idoso?
Gislaine - Na década de 90 tinha um perfil de idoso. Senhoras que nunca tiveram oportunidade de estudar. Fazíamos a formatura. A partir de 2000 senti toda uma mudança no perfil do idoso. Ele está procurando se atualizar nesse mundo tão rápido e tão informatizado. As pessoas que se encontram na chamada terceira idade, que é um termo social que a gente utiliza a partir dos 50 anos, têm procurado muito manter uma qualidade de vida boa. Isso tem feito um diferencial na vida dessas pessoas. Querem se atualizar. A alimentação e a questão de estética, o pessoal procura se cuidar. As pessoas estão envelhecendo. Isso me deixa muito feliz em poder trabalhar. Na realidade, até o idoso mais simples está procurando se cuidar, com alimentação saudável.
JC - Como o idoso está quebrando paradigmas?
Gislaine - A gente não tinha muita oportunidade de estar com nossos avós, que morriam mais cedo. A imagem que a gente tinha era daquelas pessoas que ficavam em casa: avozinhas de coque. Hoje em dia os avós são amigos dos netos. Temos visto esse encontro intergeracional, e isso é uma quebra de paradigma.
JC - Mas a turma da terceira idade tem se descoberto?
Gislaine - Outra quebra são as pessoas que sempre sonharam em subir em um palco e cantar. Antes, chegava numa determinada idade e o idoso não podia fazer isso. Você abre o jornal e quantos idosos estão atuando. Hoje mesmo (quinta-feira), no jornal tem mais de um evento de idosos atuantes. Hoje vão ao palco, cantando, dançando e desfilando. Está quebrando esse paradigma do idoso quietinho, que chegava numa determinada idade e não tinha mais nada a aprender. Ele achava que já tinha aprendido de tudo, não aceitava nenhuma opinião do outro e se fechava.
JC - O que interessa para eles, que já viveram muito?
Gislaine – Nossa frase dos 20 anos da UATI é “Viver e Aprender Sempre”. Essa frase já é um diferencial, porque vão para sala de aula na USC assistir aula de história geral, fundamentos de arte e cultura, de línguas e informática. Eles viajam e querem falar. Temos uma turma de alemão. Os homens chegam na terceira idade procurando informática e depois se integram no todo.
JC - O Brasil está preparado para atender as necessidades da terceira idade?
Gislaine - É difícil (silêncio). Falta muita coisa. Faço parte do Conselho Municipal da Pessoa Idosa (Comupi). Temos o Estatuto do Idoso. Tentamos fazer valer tudo isso, mas é difícil. Eu tenho esperança. Sou professora do curso de psicologia da USC e, dando aula há três anos, eu trabalho com os dois extremos: com jovens da graduação e com os idosos, e percebo que o jovem tem um olhar carinhoso e preocupado com o idoso. Eles pesquisam com os idosos e estão preocupados em realizar trabalhos com idosos. Tudo é uma conscientização de que todos nós seremos velhos. Os alunos matriculados na UATI têm o direito de cursar disciplinas do curso de graduação. Quando chega à sala de aula, são acolhidos superbem pelos jovens.
JC - Qual que é o principal drama vivido pelo idoso brasileiro?
Gislaine - Há 20 anos, que é o tempo da UATI e que trabalho com idosos, eu vejo que ainda é a síndrome do ninho vazio. É a solidão. Você sonha, casa, tem seu marido, filhos. Os filhos casam. No caso da mulher, o marido morre ou ela pode separar, e volta a ficar sozinha. Ela tem que conseguir reelaborar toda uma vida. A pessoa tem que ter garra para sair dessa situação. Muitas vezes, entra em depressão e precisa ter uma ajuda médica. O mundo evolui e o problema continua o mesmo. A pessoa não reelabora essa nova situação de vida que é estar sozinha, o que a leva à depressão. Aí a gente entra, acolhe essa pessoa. Não precisa ser o meu (UATI), porque Bauru está lotada desses programas. E é nesse grupo que ela redescobre. Vai cantar, dançar. Algumas falam que o sonho é falar inglês, espanhol. Temos turma de alemão. E é isso que a gente tenta oportunizar.
JC - Como as pessoas lidam com essa situação de um idoso com problemas?
Gislaine - Quem está de fora não consegue entender. Elas estão procurando e tem que conseguir resgatar. Temos vários alunos com mais de 80 anos. Se a pessoa aposentou com 55 ou 60, são tantos anos mais de vida que ela tem.
JC - Qual a reação dos idosos levados pelos filhos?
Gislaine - Esse é meu grande problema, porque tem muitos filhos que levam os pais e veem a importância do pai estar lá. Isso tem que sair da pessoa. Na maioria, os pais ficam um semestre e saem. Quando força, dificilmente a pessoa consegue permanecer porque está fazendo o gosto do filho, e não o dela. Geralmente, quando chega filho levando pai a gente recomenda atividades com psicólogos. Temos dois grupos. O Estação Maturidade e a Oficina de Crescimento Pessoal. São atividades com psicólogos e a pessoa descobre o prazer de viver. É o que todo filho quer. Outro dia um genro levou a sogra porque estava preocupado com a integridade dela. A pessoa descobre outro jeito de viver e de se relacionar bem, e melhora o relacionamento na casa. Passa a ter assuntos para conversar.
JC - Quem não vai para a sala de aula faz o quê?
Gislaine - As pessoas vão até a universidade e entram em um coral. Temos o coral EnCanto e um grupo de dança, o Baila Comigo. Temos teatro. As pessoas participam desses grupos e abrem um novo espaço. Vão fazer apresentações e viajam com o grupo. Às vezes, a pessoa não tem amigos e passa a ter. Lógico que não pode ter limitações físicas. Mas temos pessoas com mais de 75 anos que dançam lindamente. Claro que dentro dos seus limites, que a gente respeita.
JC - Como se define a forma de trabalhar com os idosos?
Gislaine - É um trabalho intenso que tenho que fazer como gestora e coordenadora da UATI. O que me ajuda é o fato de ser psicóloga, porque a pessoa chega até nós e a gente tenta identificar na pessoa o que ela gostaria de fazer e em qual atividade ela se enquadraria. Com isso, direcionamos qual a melhor atividade para ela. É um trabalho muito difícil e muito gratificante quando você vai numa apresentação e vê a pessoa se realizando no palco ou numa sala de aula. Eu não conseguiria fazer tudo isso sem o apoio incondicional da USC. Certa vez, uma senhora foi à aula, mas a USC estava fechada. A filha veio brava porque não avisei que não teria aula naquele dia. Gente, mas é feriado! Nas férias, eles querem continuar indo à UATI!
JC - Que lições aprende diariamente lidando com pessoas tão diferentes?
Gislaine - Respeitar a outra pessoa. Todos merecem respeito. Eu procuro fazer no meu dia a dia. Cada pessoa que aparece na minha frente, eu ouço, eu atendo na medida que posso. Às vezes, quando não consigo fazer, é por extrema falta de tempo. Meu pai, quando estava internado no hospital muito mal e as enfermeiras entravam para dar injeção... Uma vez eu falei para uma enfermeira que desse a injeção devagar, porque ele estava magrinho. Pedi para que tratasse bem do meu pai. Ela falou: “É lógico que eu vou tratar. Quando estudei na USC, fiz o curso lá, você me tratou tão bem no momento que eu mais precisei”. A gente não tem que olhar para quem fazer. A gente tem que fazer o bem todos os dias e respeitando as pessoas. Porque os dias mudam tanto. A minha atual pró-reitora de extensão e ação comunitária, a irmã Jucélia, há dez anos quando fez pedagogia foi minha estagiária. Hoje ela volta como minha chefe. Esse mundo não dá voltas? E você tem que respeitar. A base de tudo na vida da gente é o respeito. Se todos respeitassem uns aos outros, a gente viveria melhor. Esse fato é superpositivo. Ela voltar como minha chefe é legal, porque tem uma visão diferenciada dos idosos e valoriza muito.
JC - De que maneira a UATI se transformou em uma referência nacional de intervenção social junto ao pessoal da melhor idade?
Gislaine - Na UATI tenho professores que realizam projetos de extensão e os alunos de diversos cursos fazem pesquisa sobre o envelhecer. Temos o professor Elvio, que trabalha com informática para a terceira idade desde 1995. No ano passado, ele mandou o trabalho e foi aprovado em Minas Gerais. Foi apresentar o trabalho em Belo Horizonte. Muitas pessoas se interessaram como ele consegue oferecer para a terceira idade. Ele orienta alunos da graduação que trabalham com a terceira idade. Elvio tem todo um planejamento de como explicar para o idoso e o que precisa aprender. Agora ele mandou esse trabalho para a Espanha porque as pessoas querem saber como é a informática na terceira idade. Mas nós também temos um público que gosta de fazer coisas diferentes. O UATI/USC Fashion Day é uma noite de moda, dança e arte em que as pessoas da terceira idade vão ao palco desfilar a tendência de moda. Este é objetivo principal. Nosso olhar para isso é ver a alegria destas pessoas e muitas que estavam em depressão e vão ao palco para desfilar e se realizar. Deixamos um espaço para netos desesperados com câmeras para ver os avós no palco. É uma alegria imensa. Não importa a altura da pessoa. Importa é a pessoa exalar uma felicidade para contagiar as pessoas. Após o ‘Fashion’, muitas pessoas vão se matricular à procura dessa felicidade.
JC - E sua família completa essa realização profissional?
Gislaine - Sou uma pessoa muito realizada profissionalmente por fazer esse trabalho que traz retorno. Mas sem a estrutura da minha família, meu marido, filhas, minha mãe e irmãos, eu não conseguiria realizar esse trabalho. Somos muito unidos, tanto que hoje na entrevista para o JC meu irmão, Gesner Abdala Aude, me acompanha. E é importante.