Regional

Sebrae Itinerante vai aos municípios

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 13 min

Abrir uma empresa é razoavelmente fácil. O mais difícil é mantê-la ‘em pé’ nos dois primeiros anos. O empreendedor brasileiro não tem a cultura de procurar orientação antes de abrir um negócio para saber como está o mercado naquele setor. Por isso, o Sebrae dá uma ‘forcinha’ para aqueles que querem discutir um planejamento antecipado, a forma do atendimento, o investimento a ser feito, entre outras coisas.


Os escritórios regionais com atendimento gratuito são opções disponíveis para o empreendedor já estabelecido e para aqueles que pretendem abrir o próprio negócio. Como nem sempre “Maomé vai à montanha”, a entidade faz desde 2009 uma visita, um primeiro contato com os empreendedores de cidades menores - mais distantes do escritório - para levar orientação e informação através de sua unidade móvel.


O escritório itinerante vai visitar 11 municípios da região e deve voltar no mês de novembro, segundo o analista de atendimento do escritório de Bauru do Sebrae, Mário Sérgio Cappelozza.


“Até o final do mês, o roteiro previsto para agosto na região estará concluído. Alguns municípios já foram visitados. São 11 ao todo: Dois Córregos, Mineiros do Tietê, Macatuba, Pederneiras, Agudos, Duartina, Balbinos, Guarantã, Guaiçara, Promissão, Cafelândia. Nosso objetivo é aproximar a informação do público-alvo.”


Não só o Sebrae procura orientar os empreendedores e futuros empreendedores, mas também as associações comerciais de cada município. O grande problema enfrentado pelas entidades é mudar a cultura. Em algumas cidades, os empresários temem abrir as informações verdadeiras para um estudo do caso e serem multados pelas fiscalizações municipais, estadual e federal.


Em outras localidades, as mudanças para acompanhar as necessidades do mercado são respondidas com uma dose enorme de resistência e a estagnação é certa, alerta o economista Reinaldo Cafeo.  “Os empreendedores que não avançarem no processo podem ser ‘engolidos’ pelos novos empreendimentos. Fale a pena ousar.”


Os dois primeiros anos de uma micro ou pequena empresa são cruciais para o seu futuro. No Brasil, de cada 100 abertas, 75 permanecem em atividade após esse período, segundo estudo do Sebrae. O trabalho adotou 2009 como ano de referência.


O crescimento do mercado consumidor no País é apontado como um dos fatores que influenciaram na sobrevivência dos negócios, além da maior quantidade de empreendedores que abrem um negócio ao perceber uma oportunidade. Esse público planeja melhor o investimento, e os dados apontam que sete em cada dez negócios são abertos por oportunidade; os demais, por necessidade.  Em outros países, a taxa de sobrevivência é abaixo dos 75%. No Canadá e Espanha é de 74% e 69%, respectivamente.


No Brasil, de modo geral, os microempreendedores individuais lideraram a abertura de um negócio, uma vez que a legislação os favoreceu. Em função disso foram abertas muitas lojas varejistas e prestadores de serviço se estabeleceram. O setor de alimentação liderou o ranking na região de Bauru.

 

Bom atendimento é item essencial

Associação Comercial de Agudos se empenha para levar profissionalização para os micro e pequenos empresários

 

A Associação Comercial de Agudos quer levar aos pequenos empreendedores da cidade treinamentos intensivos sobre atendimento. Buscam profissionalização e qualidade, segundo o presidente da entidade, Vinícius Carvalho Lima.


“O primeiro ponto que nos incomoda é a qualidade no atendimento. Temos falhas. A qualidade no atendimento tornou-se um diferencial. Atualmente você percebe que numa rua comercial ou mesmo em grandes shoppings em cidades de maior porte, existem diferenças no atendimento de uma loja para outra. Fica evidente.”


Na opinião de Lima é preciso ter uma padronização no atendimento. “Falta normatização no atendimento. Não adianta o funcionário ser treinado e o empresário não se envolver. O funcionário vai usar apenas aquilo que ele consegue absorver. Ele leva para a prática somente aquilo que acha que é importante. Aquilo que está um pouco distante da capacidade de entendimento dele, ele ignora. Queremos envolver o empreendedor.”


Para garantir o treinamento, Lima se reuniu recentemente com o Sebrae para planejar as atividades do próximo ano. “Estava fazendo um planejamento estratégico para o próximo ano. Existe uma preocupação por parte do Sebrae em mudar sua forma de atuação que vai beneficiar os pequenos empreendedores. Eles tinham produtos genéricos e este ano estão buscando as necessidades. Em 2014 vamos atacar os pontos nevrálgicos.”



Vitrines


Outros pontos que deverão ser trabalhados para melhorar o desempenho dos micros e pequenos empreendedores de Agudos, de acordo com Lima, são a exposição de produtos e propaganda. “A vitrine, a visualização e o marketing.”


O gerenciamento financeiro da empresa, na opinião dele, é outro item que pode significar a morte do empreendimento. “Em menos de um ano. A pessoa imagina que para ser um empreendedor de sucesso precisa mudar seu padrão de vida. Altera tudo e sacrifica a empresa em função disso. Quando na realidade deveria ser o contrário, deveria sacrificar a vida pessoal para a saúde da empresa.”


Na visão dele, as pequenas empresas ainda sofrem com a dificuldade no item inovação. “Precisam de estratégias para isso de pesquisa e informações. Tudo isso favorece uma gestão mais adequada do empreendimento. Muitos pequenos empresários acreditam que o que ganham é suficiente e não precisam inovar, ousar.”


Lima observa que o número de microempresários individuais dobrou nos últimos dois anos desde que a lei do MEI foi aprovada. “Os últimos dois anos foram atípicos. Registramos cerca de 600 MEIS. Anteriormente à lei, eram no máximo 300.”

 

Sebrae vai até o empreendedor com unidade móvel do escritório

O Sebrae móvel foi criado em 2009 para atender todo o Estado de São Paulo levando informações e orientações para aqueles que pretendem abrir um negócio ou para aqueles que estão estabelecidos e querem mudar a gestão, incrementar o negócio.


O analista de atendimento do escritório regional do Sebrae Bauru, Mário Sérgio Cappelozza entende que o escritório itinerante é na verdade um abrir as portas para um relacionamento mais próximo do público alvo.


“É o início de um relacionamento com as pessoas que estão estabelecidas em pequenos centros, distantes do escritório regional. Priorizamos os pequenos municípios e aqueles que ficam mais distantes. Essas pessoas têm mais dificuldade de se deslocar até Bauru.”


A unidade móvel visitará 11 municípios em agosto. “Essa unidade serve o escritório de Bauru, Piracicaba e Botucatu. Dividimos e durante o ano dá aproximadamente quatro visitas do Sebrae móvel para cada escritório. Até a última segunda-feira, o escritório itinerante já havia feito 350 atendimentos. A previsão até o final do mês é atender 600.”


O perfil dos atendidos, segundo ele, são pessoas de meia idade. “Normalmente a população economicamente ativa. Entre 25 e 50 anos. Praticamente 80% dos atendidos são futuros empresários, empreendedores que na ocasião da visita buscam informações, estratégicas que possam adotar naquele tipo de negócio.”


O número de pessoas jurídicas atendidas é pequeno. “Para isso montamos uma equipe que vai junto com o escritório itinerante com o cadastro em mãos, visita aqueles micro e pequenos empresários já estabelecidos. Levamos o material de divulgação para que eles entendam o nosso trabalho.”


Cappelloza explica que nos pequenos municípios o acesso a Internet por parte dos empreendedores ainda é pequeno. “Todas as informações estão no site: www.sebraesp.com.br. Quem vai até o Sebrae é porque ouviu no rádio ou  viu no jornal. Dentre as principais dúvidas são sobre a legislação da MEI (micro empresa individual). Eles querem saber quais os benefícios, como fazem para se enquadrar.”


Cappelloza frisa que o atendimento do Sebrae é totalmente gratuito. “Pessoa jurídica, empresa consolidada é feito um agendamento e conforme o problema é encaminhado para o setor de marketing, produção, consultor jurídico, gestão de pessoas, temos orientadores para todas as áreas.”

Regras básicas

Se você quer abrir um negócio, tem que entender o mercado. “Tem que perceber o ambiente, no meio familiar, no meio dos amigos, as notícias da cidade, o comércio local. Não tem pesquisa que aponta. O empreendedor tem que buscar essa percepção para saber se o mercado tem potencial,” ensina o consultor do Sebrae Mário Sérgio Cappelloza.


A partir disso, o empreendedor tem que ir buscar os fornecedores. “Descobrir como é a concorrência do setor. Pensar nos equipamentos necessários e em quem vai colaborar para trabalharem juntos.”


Quando se fala em tecnologia, entende-se o conhecimento aplicado. “Uma receita de bolo, de um sanduiche, de uma comida. A forma de se fazer um atendimento, tudo isso é tecnologia.”


A legislação deve direcionar o negócio. “Para que, na hora de legalizar o negócio, ele não seja enquadrado em legislação inadequada. De repente, você monta uma MEI e em seis meses extrapola R$ 60 mil/ano de faturamento.”


O empreendedor tem que entender quanto vai investir, quanto vai faturar, quanto vai custar a manutenção da empresa. “E quando vai gerar de lucro. Tudo isso é planejamento do negócio. Essa questão do planejamento vale para a grande, pequeno e micro. É fundamental.”


Quando a empresa já está em pé, é importante reavaliá-la. “Mesmo que a empresa esteja estabelecida, é importante dar uma parada para planejar o que vai fazer no próximo ano. Utilizar as datas promocionais é fundamental”, diz Capelozza.

 

Empresas de Duartina sofrem com a proximidade de Bauru

Em Duartina, o maior número de micro e pequenas que abrem estão no comércio e prestação de serviços, confirma o presidente da Associação Comercial e Industrial de Duartina, Sílvio Lopes. “No último ano foram abertas 59 MEIS, micro ou pequenas empresas. Deste total, 27 fecharam.”


Ele comenta que às vezes o empresário fecha o estabelecimento e continua com a firma aberta. “Eles não procuram orientação. Nós sempre aconselhamos a procurarem ajuda de órgãos que possam ajuda-los. O perfil do micro e pequeno empreendedor são homens com mais de 30 anos. O que mais abre são empreendimentos voltados à saúde e MEIs.”


A proximidade com Bauru influencia no comércio. “Grande parte da população faz suas compras em Bauru. Muitos empreendedores individuais trabalham em Bauru e aproveitam para comprar porque o preço é mais baixo, são grandes redes de lojas.”

 

Mineiros do Tietê luta contra a inadimplência

O principal problema dos micro e pequenos empresários da cidade de Mineiros do Tietê é que a relação empresarial se confunde com a relação pessoal, explica a presidente da Associação Comercial e Industrial de Mineiros, Elisabete aparecida Alexandrino Rossetto.


“O consumidor da cidade deixa de pagar aqui para comprar em centro maiores, no nosso caso, Jaú. Isso ocorre porque o micro ou pequeno negócio é de propriedade de um parente, conhecido e a conta está marcada num caderninho. Eu digo sempre que o negócio não pode ser confundido com o parentesco, mas isso ocorre aqui ainda. Empresa é empresa, não podemos tratar a empresa como se fosse alguém de sua família.”


Ela aponta que a concorrência de preço de centro maior também é problema. “Nos centros maiores o preço é melhor, porque são lojas de grandes redes supermercadistas. Aqui temos pequenos empreendedores de artigos gerais, especialmente de roupas e sapatos. Temos loja que era do avô, passou para o pai e está com o filho. E algumas são de novos empreendedores. Temos lojas estilo boutique e as mais antigas.”

 

Pederneiras abriu 181 empresas em 12 meses

Em Pederneiras, os micro, pequenos e empreendedores individuais não perderam tempo. Assim que a lei do MEI foi aprovada, eles correram para legalizar a situação. Nos últimos 12 meses foram abertas 181 empresas. Porém, deste total, um número muito baixo fechou oficialmente, explica o secretário municipal de fiscalização tributária e urbana, Richard Mansano de Melo. “Acredito que o fechamento não atinja 10%.” 

 

Macatuba quer discutir horário de funcionamento

Os micros, pequenos e empresários individuais de Macatuba suprem a necessidade da população. A afirmação é do secretário municipal do Desenvolvimento Econômico, Frederico de Ávila Miguel.  O que falta na opinião dele são estabelecimentos de ensino particular.


Para ele, a proximidade com um centro maior, no caso Bauru, não atrapalha o comércio, mesmo porque quem consome fora da cidade é um público seleto que iria buscar produtos diferenciados independentemente da distância.


“Percebemos que os empresários, sejam pequenos ou grandes, resistem às orientações por temer fiscalizações de algum órgão público. Eles acham que passando informações para o Sebrae, por exemplo, a fiscalização vai em cima deles, então se acomodam. Para quebrar essa visão, é muito difícil.”  


Na opinião de Miguel, o que falta para eles é um aperfeiçoamento no atendimento, uma variedade maior de produtos e principalmente o horário de funcionamento. “Até pouco tempo, nos domingos e feriados todo mundo fechava, até a padaria. São dificuldades de cidades pequenas. Aqui abriram 76 MEIS no ano passado, são do setor varejista, especialmente de vestuário, acessórios e alimentos.”


Deste total, quatro foram fechadas em um ano. “Porque o ramo de atividade que a pessoa estava exercendo não se enquadrava na legislação municipal e ela teria dificuldade em se manter como MEI, então elas abriram como microempresa.”

 

Pequeno negócio requer diferencial

Economista ressalta a importância de conhecer bem o mercado e investir em novas tecnologias para aumentar potencial

O pequeno comércio pode ser engolido em muito pouco tempo se não adotar novas tecnologias e modernizar o seu negócio. Essa é a tônica do mercado, explica o economista, Reinaldo Cafeo.


“Temos uma nova geração de consumidores, empresários e concorrentes. Se esse empresário se acomodar e não se modernizar, não fizer fluxo de caixa, não motivar a equipe, ele vai perder espaço e pode ser engolido. Porque um dia vai aparecer alguém que faça um trabalho diferente e ele será engolido, essa é a tônica do mercado. É para isso que as empresas de pequeno porte, notadamente familiares, têm que estar abertas. O Sebrae leva um pouco dessas novidades até o empreendedor.”   


Ele explica que é uma situação de sobrevivência. “Com o passar do tempo, claro que alguns pequenos negócios de pai para filho vão sobrevivendo. Eles acabam passando uma tecnologia e conhecimento, mas os herdeiros fazem o mesmo. Isso gera uma estagnação. Em Bauru, por exemplo, casas que são extremamente tradicionais nesse mesmo perfil não saíram daquilo que são há anos. Há também exemplos de gente que teve uma visão mais ampliada. Montou uma franquia, expandiu, abriu filial, fez lançamentos, esse é um viés.”


A sobrevivência do comércio de pequeno porte em cidades menores também pode ser garantida com o uso de outro viés, ligado à diferenciação de produtos. “O que me leva a ir ao Restaurante do Polaco em Pouso Alegre de Baixo, região de Jaú. O primeiro contato aconteceu depois que várias pessoas me contaram que lá tinha uma leitoa a pururuca e um frango gostoso. Eu, em minha hora de lazer, fui até lá e constatei que era verdade. Busquei a diferenciação. Mesmo com fila de espera, confirmei que a comida era legal e passei a indicar para os amigos.”


O empreendedor conseguiu fazer um produto diferente e atrativo. “Os pequenos empreendedores dessas cidades têm que procurar uma saída para sobreviver, e ter um produto diferenciado é uma delas. Tem gente que não deixa de ir naquela loja que tem produtos típicos. Com o advento da Internet, shoppings abrindo na região. Com as facilidades de mobilidade, tudo fica diferente.”


Demanda


Ele frisa que o empresário tem que aproveitar que as estradas estão duplicadas e o acesso é fácil. “Se ele tem um diferencial, as pessoas vão naturalmente prestigiá-lo. A demanda vai aumentar e você pode passar a ser referência regional. Você atrai não só a população daquela localidade, mas também turistas e viajantes de negócios que já chegam com a indicação.”


A profissionalização é outro item que não pode faltar na agenda do empresário antenado com as necessidades do mercado. “O consumidor não aceita mais o amadorismo. É preciso investir na profissionalização. É uma exigência do mercado.”


Cafeo ressalta que nos pequenos municípios existem duas realidades distintas. “Dois mundos diferentes. Um, que engloba os pequenos empreendedores acomodados e que não querem sair daquela situação. Só estão pensando em fazer para sobreviver, substituindo o salário de empregado por uma renda. Esse vai ficar o resto da vida assim ou será engolido pelos novos empreendimentos que chegam todos os dias ao mercado.”


Há ainda os novos empreendedores que, apesar de não estarem em grandes centros, aceitam as inovações, tecnologias. “Eles estão trazendo coisas novas que atraem o consumidor. Aderem mais facilmente às novas tecnologias enquanto os empresários mais antigos, muitas vezes resistem, mesmo porque é um choque cultural.”

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