O lóbi corporativo dos médicos atua no Brasil, com sucesso, há mais de 40 anos. Privilegiou, durante todo esse tempo, filhos de famílias abastadas que conseguiam arcar com os altos custos de uma faculdade de medicina particular, ou que puderam frequentar boas escolas, desde o primário, até a preparação ao vestibular. Com as exceções de praxe. Durante a ditadura militar o Ministério da Educação chegou a proibir a instalação de novos cursos de medicina, alegando "saturação e baixa qualidade da formação profissional". Este é um dos motivos de Bauru não ter, até hoje, uma escola de medicina, embora seja um centro universitário e com hospitais que contemplam tratamentos de quase todas as patologias. O resultado dessa política foi desastroso: faltam plantonistas e pacientes morrem à espera de atendimento. Mesmo o município oferecendo salários que fariam inveja a qualquer outra categoria de profissionais especializados, os médicos preferem suas clínicas particulares e a atender conveniados. Ainda há aqueles que topam contratar a Prefeitura, desde que os horários não sejam tão rígidos a ponto de atrapalhar seus interesses particulares.
No caudal das consequências desse lóbi, o governo federal dá o seu golpe de mestre. Desafia as associações de classe e o Conselho Federal de Medicina e começa a importação de médicos do exterior. Era o impacto que o governo petista precisava para ingressar num ano eleitoral e ainda alavancar a candidatura do ministro da Saúde Alexandre Padilha, ao governo de São Paulo. Se conseguir suprir as necessidades da assistência médica nos grotões do país, terá a consagração ? mais uma vez - do povo sofrido e daqueles que acreditam em justiça social. Se não der certo, por violar a legislação trabalhista, a Constituição e as regras corporativas com força de lei, a culpa poderá ser debitada aos membros da atividade mais bem paga do país. Aqueles profissionais que se negaram a "fazer da medicina um sacerdócio", com medo de enfrentar a malária, febre amarela, caranguejeiras e o isolamento. O ministro Alexandre Padilha confirmou que 4 mil médicos estão de malas prontas para deixar Cuba rumo ao Brasil. Deve ter chegado o esquadrão precursor, enquanto outras levas vêm da Espanha, Portugal, Argentina. Somando todas as demandas feitas por prefeitos para o programa Mais Médicos, seriam necessários 15.460 profissionais. Quando foram abertas as inscrições para brasileiros, apenas 10,5% das vagas foram preenchidas. Se há localidades onde os profissionais brasileiros não têm interesse em atuar ? seja pelo salário, seja pelas condições de trabalho, seja por outras circunstâncias ? e, se há estrangeiros que desejam exercer a medicina nesses locais, nada mais lógico que aproveitar seu interesse. Bauru também deveria se inscrever. Quando as entidades de classe manifestam preocupação com a qualidade dos profissionais que estão chegando, referem-se especificamente ao Revalida, o exame necessário para que um médico diplomado fora do Brasil possa exercer a profissão por aqui. Para se ter uma ideia, dos 884 inscritos na edição de 2012 da prova, apenas 77 foram aprovados. No entanto, os estrangeiros do programa Mais Médicos foram dispensados do exame.
O Ministério da Saúde alega que esses médicos ficarão no Brasil em caráter provisório, e trabalharão apenas em locais para os quais forem designados pelo governo. Para quem mora num lugar sem médicos, um médico sem Revalida ainda é melhor que médico nenhum. O problema com o linguajar regional para comunicação com o paciente, também seria quase o mesmo com o um médico brasileiro. Para quem vai trabalhar no semiárido já existe o CDN (Código de Doenças Nordestinas). Uma espécie de dicionário que explica o significado de ispinhela caída, dor nos quarto, corpo reimoso, mijo doce, quebrante, zóio nuviado e outras expressões. O mais problemático é a forma de remuneração dos cubanos. Em vez de fazer o óbvio e pagar diretamente aos médicos, o governo brasileiro enviará o dinheiro à Organização Pan-Americana de Saúde, que o repassará ao governo cubano, que, por sua vez, fará o pagamento. Se for seguido o modelo de convênios entre Cuba e outros países, os médicos cubanos só levarão 30% daquilo a que teriam direito se tivessem outra nacionalidade. Até fevereiro de 2014, o Brasil enviará R$511 milhões a Cuba. É uma maneira de ajudar o princípio idealista do governo revolucionário com um objetivo econômico. Médico vira produto de exportação ou "escravo de jaleco", como dizem os opositores. A verdade é que essa prática inventada por Fidel Castro já existe há 50 anos e funciona em 107 países.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC