No último dia 21, o JC publicou, na coluna Opinião, ?O selinho entre o futebol e a homofobia? que eu escrevi sobre foto polêmica de Emerson Sheik. No dia seguinte, na Tribuna do Leitor, veio o texto ?O selinho entre Vitor Oshiro e a propaganda Gayzista? como uma resposta bastante direta para os meus argumentos. Caro Ricardo Gasparini, respeito sua opinião. E vejo muito mais validade nela justamente por ter reforçado o meu texto. Reafirmo: o preconceito mata. Quando é velado, conforme já tinha dito, é ainda mais perigoso. Apesar de respeitar a sua (que é SUA) opinião, elenco alguns dos pontos que eu (EU) discordo.
Quando o senhor se refere ao selinho do jogador no chef (os dois marmanjos, em sua visão), aponta que "qualquer ato sexual é passível de sofrer crítica quando realizado fora das normas de conduta moral de nossa sociedade". Fora das normas de conduta moral da nossa sociedade? Ora bolas, qual a sociedade que tem esta "moral que foi ferida" por um selinho entre dois homens? Desculpa, mas não é a minha. Desculpa, mas não é esta sociedade que quero para meus filhos. Já quando começa suas analogias sobre um beijo hipotético entre crianças na sala de aula, vejo livres, vagas e errôneas interpretações sobre o que eu havia escrito. O professor pode (mais do que isso: deve) se preocupar com qualquer atitude que ele acredite ser problemática em meio aos seus alunos. Porém, o docente não deve (mais do que isso: não pode) se preocupar mais ou menos pelo fato de a atitude ser tomada por crianças heterossexuais ou homossexuais. A muitos, falta entender que, independente das orientações sexuais, são seres humanos que estão ali.
Na verdade, totalmente ao contrário do que você interpretou de minhas palavras, penso que nunca deve haver dois pesos e duas medidas. Caro Gasparini, também não solicitei em nenhum momento que o senhor ache a foto do Emerson Sheik um "primor de imagem". Como disse, respeito sua opinião. Entretanto, já ouviu o adágio de que "sua liberdade termina onde a do outro começa"? Talvez, esta deveria ser a premissa máxima da tolerância.
Ninguém precisa achar a fotografia linda e bater palmas. Porém, sair com faixas ostentando a expressão "viado não" é preconceito. É muita homofobia. E, na minha (entenda, mais uma vez, que é minha) opinião, isso deveria ser crime. Prisão? Também.
Em relação ao seu "desafio" em apontar "um único fato que desabone a conduta moral de Marco Feliciano", está aceito de pronto. De memória, lembro de três. A primeira é a afirmação de que "o amor entre pessoas do mesmo sexo leva ao ódio, ao crime e a rejeição".
Ah, desculpa. Esqueci que, talvez, isso não seja falha moral em sua visão. Então, complemento: que tal racismo ao afirmar que africanos ascendem de amaldiçoados? E o que falar do vídeo em que ele pede a senha do cartão de crédito a um fiel? "Samuel de Souza doou o cartão, mas não doou a senha. Aí não vale", diz Feliciano. Mais uma vez (correndo o risco de me tornar repetitivo), ressalto que respeito sua opinião. E até aceitarei o seu conselho de ir estudar mais a democracia. Como jornalista (não jornalista entre aspas, como o senhor escreveu), é o que tento fazer a cada dia: dar um pouquinho de contribuição para uma sociedade livre e democrática. E ela não virá com homofobia. Ainda mais com homofobia travestida (já que estamos no clima, né?) de liberdade de opinião.
Bom, em relação ao preconceito que homossexuais sofrem todos (Todos!!) os dias, esclareci minha reflexão. Não vou misturar alhos com bugalhos e entrar em temas como o mensalão do PT, o golpe do comunismo, a matança na União Soviética ou se a dona Elizete deve ficar com o macaco Chico (que, na verdade, é fêmea... viu, nem os animais ligam para orientação sexual)!
Contudo, para terminar, assim como o senhor fez, posso lembrar de Joseph Stalin (1879-1953). Certa vez, ele disse: "a morte de uma pessoa é uma tragédia; já a de milhões é estatística". Segundo estatísticas do Grupo Gay da Bahia (a mais antiga associação que defende os direitos humanos dos homossexuais), só em 2012, 338 homossexuais foram assassinados no Brasil, o que gera uma média de um homicídio a cada 26 horas. Enquanto alguns acharem que é "liberdade de opinião" ofender alguém que é diferente, esses números só devem crescer. Grato pela interatividade!
Vitor Oshiro, jornalista diplomado e sem aspas