Este polêmico programa do Governo Federal gerou discussões inflamadas. Debates e opiniões divergentes são extremamente saudáveis à democracia. Mas desde quando Cuba foi invocada ao centro das discussões ocorreu uma queda sensível de nível. Se opiniões distintas estimulam e enriquecem o debate, o contrário, ou seja, a sua polarização o empobrece. Perde-se o foco em relação ao objeto, estereotipa-se o opositor e a reflexão torna-se um jogo de soma zero.
É difícil negar que o programa não possua uma matriz demagógica e eleitoreira, ?mais médicos? apenas resolverão parte do problema, precisamos de infraestrutura e muito mais. Entretanto, convocar médicos para atuar nos grotões é inadiável. Há muito o que fazer num país onde cerca de 700 cidades não possuem um único médico e quase metade da população vive sem saneamento básico. Se a medicina cubana é reconhecida por seu caráter preventivo, há uma potencial oportunidade para se aprender algo. Lembre-se, o intercâmbio é uma ótima maneira para evoluir, e consequentemente encontrar melhores soluções.
Do outro lado, os críticos do programa lançam acusações ora pertinentes ora fúteis e se esquecem do mais importante, que precisam elaborar uma alternativa plausível e urgente. Nosso sistema de saúde é um caos!
Os ditos ?formadores de opinião? contribuem para desviar o debate do seu enfoque principal. Surgem acusações e contra-argumentações, vindas dos dois polos, dignas do mais fajuto sensacionalismo. Mas como gostamos de uma polêmica! Para que refletir sobre as possibilidades de melhorar ou elaborar uma outra opção, buscar o bem-comum, se podemos vencer nossos oponentes com argumentos que se assemelham a uma marmita mal requentada do período da Guerra Fria?
Nesse meio tempo, criam-se bodes expiatórios e esquecemos que generalizar é confirmar a nossa própria falta de percepção. Mais uma vez perdemos o centro, gastamos o nosso tempo com picuinhas político-ideológicas. Vamos celebrar a nossa estupidez...
O autor, Diogo Paulo Brandão Farias, é historiador e professor de Relações Internacionais no IESB-Uniesp em Bauru