Economia & Negócios

?Falta de olhar estratégico comum emperra Mercosul?

Beatriz Bulla
| Tempo de leitura: 6 min

Para expandir a economia e ganhar espaço no comércio mundial, os países do Mercosul - e de toda a América Latina - terão de vencer juntos as barreiras de competitividade que emperram a produtividade e os investimentos. A avaliação é do ex-secretário de Indústria argentino e diretor da consultoria portenha Abeceb, Dante Sica.

O especialista falou à reportagem durante sua passagem pelo Brasil para conferências no Itamaraty e no Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic). “O que mais afeta é a ausência de um norte. Temos que ter olhar estratégico”, critica o analista.

Sica defende que os países avancem na discussão de infraestrutura com o estabelecimento de regras claras e um marco regulatório similar, para atrair a iniciativa privada. Um dos maiores obstáculos enfrentados hoje, de acordo com o argentino, é a falta de conectividade entre os países da região. “O contexto internacional cada vez mais modela as políticas locais e é onde temos que dar um passo. Como região temos que começar a olhar juntos.”

Para ele, o Mercosul está estancado do ponto de vista econômico devido à deterioração das relações entre Brasil e Argentina. Apesar dos problemas, ele ressalta que o setor empresarial brasileiro “não pode se dar ao luxo” de deixar o Mercosul em segundo plano e diz que Brasil e Argentina precisam trabalhar para se tornarem ricos, antes do envelhecimento populacional. “Estamos em uma etapa que se chama vantagem demográfica. Temos que nos fazermos ricos, antes de nos fazermos velhos.”

Com relação à Argentina, Sica diz que o restante do mandato de Cristina Kirchner será de baixo crescimento econômico com alta inflação. Acompanhe os principais trechos da entrevista.

 

Há uma sensação corrente de que o Mercosul está parado. Qual a saída?

Dante Sica - Nos últimos oito ou nove anos, do ponto de vista econômico, tivemos poucos avanços no Mercosul, muito porque as relações entre Argentina e Brasil se deterioraram nos últimos anos por distintas razões. Da parte da Argentina porque há um aprofundamento da política de proteção interna e de administração do comércio, que colocou muitíssimas travas. O Brasil já não é mais o País da época do Lula, que podia de alguma maneira frear algumas reivindicações do setor empresarial Os dois grandes países que eram o eixo formador de política hoje têm uma agenda quase inexistente.

 

Avançar nessa integração regional pode ser interessante para auxiliar no crescimento econômico?

Dante Sica - Os acordos podem ser uma condição necessária, mas não suficiente para melhorar o crescimento, porque não é preciso ter apenas demanda, mas também oferta. Por isso é preciso ter uma estratégia conjunta de recuperar a confiança dos setores empresariais com os sinais dos governos. Para não só avançar as negociações que permitem o ingresso dos nossos produtos, mas também consolidar fortemente o nível de investimento para poder aproveitar esse caminho que se abre. É necessário ter negociações inteligentes. O maior tema que nossas economias enfrentam talvez seja o dos problemas de competitividade sistêmica, ou seja, infraestrutura. Um contêiner de Santos a Lima ou de Buenos Aires a Lima sai mais caro do que um contêiner de Lima a Hong Kong. A conectividade terrestre, energética e a infraestrutura portuária são elementos que fazem a competitividade sistêmica do nosso aparato industrial. Temos um pouco de ligação entre Brasil, Argentina e Chile, mas nos falta melhorar a conectividade com o Pacífico e com o Peru e Colômbia. Necessitamos não só mais infraestrutura, mas melhorar a gestão da infraestrutura atual e diminuir as travas burocráticas.

 

Podemos dizer que são os problemas de infraestrutura e a falta de integração que mais afetam a região?

Dante Sica - O que mais afeta é a ausência de um norte. Temos que ter olhar estratégico conjunto. Já não alcança ter só olhar estratégico do Brasil por um lado, da Argentina por outro ou do Uruguai. O contexto internacional cada vez mais modela as políticas locais e é onde temos que dar um passo. Como região temos que começar a olhar juntos. Os problemas políticos também dificultam. A Argentina, por exemplo, condiciona toda sua política externa a uma política local e de alguma maneira os problemas do Mercosul passam para segundo plano.

 

O Mercosul está em segundo plano?

Dante Sica - Tenho a sensação de que há uns anos o Mercosul está em stand by, mas para avançar mais deveriam discutir algumas normas internas. Mas o setor empresarial brasileiro não se pode dar ao luxo de deixar de lado o Mercosul, porque é o primeiro destino de suas exportações industriais. O problema agora é que a atividade econômica não se movimenta, então os problemas de relacionamento entre Argentina e Brasil castigam muito mais.

 

Enquanto isso, a Aliança do Pacífico parece caminhar rapidamente.

Dante Sica - Do ponto de vista econômico temos dois blocos na América Latina. Por um lado todos os países da Aliança do Pacífico, que têm um grau muito forte de abertura ao comércio, com acordos de preferência do comércio com quase 80% do PBI mundial. Do outro lado temos os países do Mercosul, que tem pouco nível de acordo comercial, (menos de 7% do PIB mundial), e onde há problemas de produtividade. Creio que tem a ver também com a falta de estratégia em nível de negociação internacional que está tendo o bloco. O Mercosul tem energia, minerais e alimentos. É certo que temos problemas de competitividade sistêmica. A Aliança do Pacífico talvez seja mais eficiente em matéria de gestão comercial, mas não tem esse ramo completo de produtos.

 

Como os governos podem resolver os problemas estruturais que mencionou?

Dante Sica - O que têm que fazer os Estados é dar as normas, as regulações, e abrir espaço à iniciativa privada, com fortes controles. Quando se fala de conectividade em distintos países, fala-se em marcos regulatórios que sejam ao menos similares e não um obstáculo. Temos que avançar nisso: fixar as regras, encarar os projetos e dar espaço à iniciativa privada. Temos que ver como a região não só se fecha para proteger seu mercado, que é importante, mas como se abre para poder dar espaço às novas indústrias e plataformas industriais que cresceram. Como captamos financiamento para investimentos em infraestrutura. Brasil e Argentina estão em uma etapa que se chama vantagem demográfica. Ou seja, somos populações com mais jovens do que velhos. A Argentina entrou em 1995 e o Brasil em 2000, essa vantagem vai durar até 2035. Qual o desafio que temos como sociedade? Nos fazermos ricos antes de velhos. Temos outro bônus: os países que são complementários, que geram a demanda, em especial a Índia, entraram mais tarde nessa situação e vão permanecer por mais tempo. A Índia entrou em 2005 e sua população jovem vai crescer e demandar até 2050. Temos estruturalmente uma oportunidade espetacular para poder nos consolidar.

 

Há riscos de uma crise de dívida?

Dante Sica - Não. A Argentina tem alguns elementos que são distintos das crises anteriores e que não gerariam uma crise. O nível de endividamento das famílias segue sendo baixo. As empresas não têm grande nível de dívida, o setor público tem um baixo nível de dívida sobre PIB. Todos os fatores que geralmente são responsáveis por uma crise grave hoje não estão presentes. Creio que o restante do mandato de Cristina será de anos de baixo crescimento com alta inflação. A economia argentina tende a ficar estancada, com crescimento que vai depender muito mais dos fatores exógenos do que internos.

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