Tribuna do Leitor

Os médicos cubanos têm cara de... gente!


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"Escravos", "incompetentes", "com cara de pedreiro e doméstica", "voltem para a casa!". Foram com essas palavras e dedos em riste que membros do Sindicato dos Médicos e Michelines receberam a equipe humanitária desembarcante naquela cidade. Não, não foi em Brasília, contra o governo, mas em Fortaleza, em meio a roupas brancas, atmosfera, linguajar, xingamentos que, senão fosse o colorido das imagens, nos levaria a pensar se tratar de uma ação da lendária Ku Klux Klan nos EUA dos anos 20.

Ora, pelos olhares raivosos, até as pedras atiradas sabem, tudo foi dirigido aos médicos cubanos, um banho de desumanidade. Mas tal não me causou espanto algum, depois que eminente figurão, presidente de CRM, teria recomendado e feito apologia até da omissão de socorro para pacientes que tenham sido atendidos pelos estrangeiros. Misericórdia, Senhor Todo Poderoso! Um tipo de declaração que escandalizaria até Hitler!

Mesmo que se abstraia eventual xenofobia ou racismo, ainda assim nada justificaria tal reação, pois explicadas já se encontram todas as dúvidas levantadas, que a remuneração será diferenciada (bolsa é diferente de salário), que o contrato se deu conforme as leis cubanas (diferente da legislação brasileira ? até meus primos pequenos sabem disso), que a forma de atuar é de foco majoritariamente preventivo (o que, em tese, ajuda a diminuir o número de pessoas que buscam o ?remediar? nos atendimentos de hospitais e pronto-socorros). Ora, me faz lembrar episódio semelhante, quando José Serra implantou os medicamentos genéricos, ocasião em que, em semelhante histeria e espernear, diversos lobbies e classes vaticinaram os piores prognósticos, profetizaram catástrofes para o sistema, prenunciaram maldições ao mercado, verdadeiras macumbas discursivas e retetés corporativistas em razão de profundo receio (e/ou ressentimento?) de uma medida que poderia, eventualmente, lhes afetar os interesses.

É por médicos com esta mentalidade e postura que nós e nossos filhos serão atendidos? Impossível não questionar o resultado da orgia de autorizações de abertura de curso e ausência de aplicação de exames que evitem que pessoas sem nenhum idealismo e incontidas como os agressores de Fortaleza possam se graduar. Impressiona o quanto o vil metal pode fazer neste país: pode colocar um "atirador do Shopping Morumbi" para atendê-lo em um hospital, eleger Maulos Patufs e vários patifes para nos governar. Admira o histerismo de quem brada pela avaliação dos estrangeiros sem, ao mesmo tempo, fazer o raciocínio inverso, defender que se avalie e examine os nossos médicos, pois a população que será atendida por estes cubanos, portugueses, uruguaios (...) é a mesma que o médico formado aqui irá atender.

Haveria é receio de um sistema de preventividade com notável eficiência, ganho de custos e, consequentemente, adverso à filosofia de robusto e crescente enriquecimento pessoal do operador da cura, laboratórios e indústrias? Receio de que se adote uma política sanitarista e de prevenção e se diminua o movimento financeiro gerado pela indústria da doença?

Quanto ao ?Regime? (desculpa esfarrapada de quem não tem justificativa que cole para essa fobia médica), nada mais justo que se pague a César (Fidel/Raul) o que é de César, assim como sempre honramos nossas dívidas junto à Ahmadinejads, Saddams e Khadaffis pelo petróleo que sempre usamos.

Ao povo importa não se o atendente será cubano ou russo, que deputado e partido o providenciou, mas ser atendido! Tais debates e masturbações ideológicas só levam a se gozar: gozar na cara e na saúde do povo, como sempre ocorre. Tenho pouco mais de 20 anos, nasci em uma cidade diminuta e sem a realização de sequer um único ultra-som: prova de que ausência de aparelhagem sempre foi suprida pelo idealismo de médicos válidos em assumir compromisso com a sociedade que lhes custeou.

O Ministério da Saúde já demonstrou a qualidade e qualificação dos selecionados: todos tem especializações e já cumpriram missões; 84% têm mais de 16 anos de ofício. São todos revalidados: revalidados nos ideais de uma medicina mais humana, no reconhecimento da necessidade de retribuição ao investimento feito pela sociedade, revalidados no espírito das manifestações que fizemos em junho, na qual lembramos não apenas aos políticos que lhes pagamos os salários (porque esperamos justo retorno), mas também lembrarmos aos médicos que pagamos impostos e lhes financiamos caros estudos, não para que se foquem obsessivamente em aplicação de botoxes, bundas e peitos em atrizes e aspirantes à admiração, se obstinem à construção de suntuosas clínicas e coleção de imóveis na avenida Paulista, mas para que atendam nossa população, sobretudo a mais carente. Nenhuma implicância ou receio classista invalida o fato de que esses forasteiros são revalidados nos ideais de uma medicina mais humana.

Por isso, não há de se terminar esta missiva com um temível e questionável "viva à Revolução Cubana", e sim com um simples e justo "viva à uma medicina mais humana?, em razão da qual os médicos cubanos adquirem cara não de corporativista casta, mas de gente: gente como a gente que atende, porque somos todos gente! Sejam bem-vindos!


Oscar Luciano Gomes Neto

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