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"O cão engarrafado"

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Vivemos num mundo "wireless", isto é, sem fios. Muita coisa é produzida numa rede imaginária que varre a Terra e cobre o Universo, pelo menos até aos laboratórios espaciais e às sondas de exploração da galáxia. Acredito que existam fios secretos que sustentam essa rede, que na aparência é pura dispersão. A arte, por exemplo, é um desses liames a facilitar fugas do real para a criação do belo. Inevitável neste voo curto lembrar Vinicius de Moraes, o poeta da paixão, para quem o uísque, de tão amoroso, era o seu "cão engarrafado". Fiel até a última gota. Este fio líquido é que o levava à criação, justamente por livrá-lo dos nós que o prendia à realidade. Foi esta explicação que o "poetinha" me deu quando veio a Bauru pela primeira vez, no fim dos anos 70. Perguntei sobre a razão do copo de uísque sobre a mesa, em todos os seus shows. Não sei se estou me deixando embriagar, mas a digressão sobre o "wireless" é por minha conta, porque não se falava nesses "avanços" tecnológicos naquela época. Antes que me acusem de fazer a apologia do álcool, declaro-me contra o vício. Para mim, não funciona. Se eu beber fico mais distante de qualquer forma de produção. Prefiro o "cão encadernado" para provocar essa cisão entre o sujeito e a realidade. Um bom livro é fuga e presença ao mesmo tempo. Minha mulher fica brava quando durmo sobre a página aberta. Acordo e retomo o ponto. A lenda conta que, no período em que Vinicius foi cônsul em Los Angeles, o poeta teve que representar o governo brasileiro no funeral de um oficial morto na costa americana. Foi escolhido para fazer o discurso fúnebre. À beira do túmulo, embriagado não só pelas palavras, se não fosse o socorro de um ajudante de ordem teria desabado sobre o caixão. Em "O homem que matou o facínora", John Ford dizia pelo seu personagem na tela que "a lenda supera o real". Deve ser bem o caso.

Em todo o Brasil começam a pipocar homenagens e retrospectivas sobre o trabalho de Vinicius de Moraes, motivadas pelo centenário do seu nascimento, no mês que vem. Foi criado um logotipo do evento - é um "V" e um "M" que juntos lembram uma mulher na cama. Muito a propósito. O poeta se declarava "um monogâmico praticante". Mulher só uma. De cada vez. Casou-se nove vezes e todas as ex confessavam que foram muito felizes pelo amor infinito enquanto durou. Sua frase célebre "as feias que me desculpem, mas a beleza é fundamental", na verdade deveria ser substituída por outra ? "Nada mais bonito que os defeitos da mulher amada". Na sua poesia considerava as nádegas "importantíssimas". Aqueles furinhos de celulite é que as tornavam ainda mais sedutoras. "Grave, porém, é o problema das saboneteiras. Uma mulher sem saboneteiras é como um rio sem pontes". Vinicius é imortal pela sua obra, embora nunca fosse assim reconhecido pela Academia Brasileira de Letras. Nem a ela se interessou. Pelo seu lado boêmio, pela dedicação maior à música popular os críticos - pelo menos até agora ? deixaram de incluí-lo no rol dos maiores poetas brasileiros. Injustiça. Ninguém melhor do que ele cantou o amor, que é o grande mote dos versos de qualquer poeta. "Se o amor é fantasia, eu me encontro ultimamente em pleno Carnaval". A informalidade em que vivia custou-lhe sérios aborrecimentos. Era diplomata de carreira do Itamaraty, instituição conhecida pela sua rigidez hierárquica e o zelo quanto à postura conservadora dos seus membros. Acabou cassado pela ditadura militar que o acusava de largar as funções para cantar em shows e elaborar letras de músicas em papeis timbrados da chancelaria. Anistiado, obteve uma promoção póstuma a ministro de primeira classe, em 1998, dezoito anos depois de morto.

Uma das suas marcas era a dedicação aos amigos. Fez parcerias com Tom Jobim e formou dupla com Baden Powel, e depois com Toquinho que durou até a sua morte nos braços do amigo, o primeiro a socorrê-lo quando do enfarte na banheira. Quem sabe porque a amizade designe justamente a capacidade infinita de reconhecimento e de aceitação daquilo que somos. Quanto mais o mundo se fragmenta e se banaliza "wireless", mais cresce a necessidade de ter amigos onde ancorarmos os nossos barcos solitários. Amigo era a única coisa que Vinicius colocava acima da mulher amada: "Eu poderia suportar, embora não sem dor, que houvessem morrido todos os meus amores, mas, enlouqueceria se morressem todos os meus amigos".

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC


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