João Rosan |
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A titular da Sebes, Darlene Tendolo, e o presidente da ABD, Rick Ferreira, falam com os participantes do megaevento |
Apesar da tensão das discussões em torno da homofobia e direitos LGBTs no âmbito político, a sexta edição da Parada da Diversidade de Bauru não focou nas polêmicas da “cura gay” ou nas provocações do deputado federal Marco Feliciano (PSC). O evento teve caráter cívico, mas é claro, com muita alegria, animação e descontração e música eletrônica.
Às 13h, teve início a concentração em torno dos três trios que participaram do desfile: o da Associação Bauru pela Diversidade (ABD) - oficial da parada -, e os da Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes) e da casa noturna Labirinthus Internacional.
Debaixo do sol forte, com temperatura a 32 graus, a parada deixou a Praça da Paz por volta das 16h, após a execução do Hino Nacional. Mas a festa só acabou depois das 21h, com show de encerramento da cantora Kelly Key.
A estimativa da Polícia Militar - que disponibilizou 100 homens e mulheres para garantir a segurança do evento - é de que 60 mil pessoas passaram, em algum momento, pela avenida Nações Unidas e pelo Vitória Régia, durante a parada.
Apesar do clima de alegria, o evento deu seu recado. Presidente da ABD, Rick Ferreira inaugurou o microfone desta edição dizendo que os homofóbicos terão que se acostumar com a conquista de direitos LGBTs. “Nós não estamos pedindo. Estamos exigindo respeito. A nossa cidade é também sem limites para sonharmos e fazermos, nesta avenida, um espetáculo da cidadania”.
Rick lembrou a existência de ferramentas como o Conselho Municipal da Diversidade e a Defensoria Pública, que devem ser acionadas por vítimas de preconceito. “Não podemos continuar sendo discriminados”.
O presidente da ABD frisou também que, sem o apoio do poder público, a parada não conseguiria alcançar as proporções. “Fomos a primeira cidade do País a ter uma Semana da Diversidade, que antecede essa festa maravilhosa”.
“Direito é ter direitos!”. Assim acabou o discurso da titular da Sebes, Darlene Tendolo. A secretária enfatizou que Bauru se tornou referência nacional ao aprovar lei municipal que dá garantias a todos os cidadãos. “Nós demos o exemplo. Nossa cidade faz a diferença. Não à violência. Vamos celebrar a paz!”.
Economia em movimento
Darlene disse ainda que muitas pessoas de fora vêm à cidade prestigiar a Parada da Diversidade. “Os comerciantes ficam muito felizes com isso, principalmente os dos setores de alimentação e hoteleiro”, pontuou. A economia, inclusive, é explorada por profissionais não-bauruenses que se dedicam, exclusivamente, ao filão LGBT.
A paulistana Adriana Simone da Silva, de 44 anos, trouxe para a parada uma barraquinha com alguns dos artigos vendidos em sua loja voltada ao público da Diversidade. “Temos bandeiras, pulseirinhas, bottons... O pessoal adora”.
A comerciante conta que viaja pelo País durante todo o ano, de acordo com o calendário das paradas.
Seu “engajamento” começou em 1995. “Ainda nem havia grupo organizado para o desfile de São Paulo”, lembra Adriana, que veio a Bauru acompanhada da namorada Elizabete Gouveia, 44 anos.
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Milhares acompanharam o desfile dos trios elétricos, que começou com emocionada execução do Hino Nacional |
Início de tudo
Emocionada ao abrir a sexta edição do desfile, a madrinha da Parada da Diversidade de Bauru, Rubya Bittencourt, lembrou que, em 2008, muitos duvidavam do sucesso do evento. “Isso só foi possível graças ao público que prestigia a gente”.
Vereador e ex-presidente da ABD, Markinho da Diversidade (PMDB) afirmou que os gays, lésbicas, travestis, transexuais e transgêneros “saíram do subsolo de Bauru” e, hoje, já estão “na cobertura”, ao avaliar o avanço das conquistas LGBTs na cidade.
Além dele, estiveram no trio elétrico oficial da parada os parlamentares Roque Ferreira e Telma Gobbi (PMDB).
O prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB) também participou do desfile, mas, por chegar atrasado, não discursou. Ao JC, disse que o evento já está consolidado em Bauru. “É um grande avanço no combate ao preconceito”.
Curtição
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Gevaildo e o companheiro Franklin marcaram presença no evento |
Como a parada também é celebração, muita gente aproveitou o domingo quente para de divertir e paquerar. Caracterizados como “Os Canalhas”, Gilson do Nascimento, 18 anos, Marco Aurélio Pires de Oliveira, 26 anos, e Rodrigo Batista, 20 anos, improvisaram passinhos de dança, chamando a atenção do público.
Membros de um grupo de dança de Bauru, Olívio Lindolfo, 27 anos, Tatiane Almdeira, 21 anos, Bruno Miranda, 23 anos, Kadu Souza, 31 anos, e Mayra Graziele, 21 anos, também roubaram olhares vestidos de policiais. “É o figurino que usamos na coreografia de uma música da Britney Spears. Viemos prestigiar e mostrar que apoiamos a diversidade”, conta Mayra.
Diante de tanta badalação, flerte e paquera, a equipe do Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA) de Bauru não poderia ficar de fora da parada. Foram distribuídos, aproximadamente, 5 mil preservativos.
No entanto, a coordenadora do CTA, Ana Paula Valderrama Carvalho, explica que, atualmente, não existem os grupos de risco para Doenças Sexualmente Transmissíveis (DTSs), entre elas a aids, causada pelo vírus HIV. “Existem situações de vulnerabilidade. Por isso estamos aqui: divulgando o serviço e incentivando a prática segura”.
Relatos mostram que preconceito persiste
O casal heterossexual de namorados Guilherme Caetano, 19, e Heloísa Leite, 15, acompanhou, ontem, pela segunda vez, a Parada da Diversidade de Bauru. Eles gostam do clima da festa, da música eletrônica e acreditam que o preconceito contra orientações sexuais é cada vez menor.
A realidade, porém, é diferente para casais homossexuais. Namorados há um ano, o personal trainner Franklin Caprioli, 32 anos, e o administrador de empresas Gevaildo Souza, 34, chegaram de mãos dadas à avenida Nações Unidas.
Mas o gesto - tão comum para homens e mulheres - só é repetido em locais voltados exclusivamente ao público LGBT. “Não expomos por conta das nossas profissões, mas, principalmente, por causa de reações negativas que podem acontecer, tanto é que nunca fomos vítimas de preconceito. Mas é muito comum os homossexuais com mais trejeitos serem”, conta Franklin.
É exatamente este o problema enfrentado pela travesti Duda Hillary, 29 anos. Seu sonho é conseguir um emprego formal. “Não tenho exigências. Trabalho com o que for. Tenho o ensino médio completo, mando currículos, mas quando as empresas me chamam para entrevista e veem a minha aparência, não contratam de jeito nenhum”.
Travesti desde os 17 anos, Duda conta, no entanto, que conquistou o apoio da mãe, com quem mora, e de toda a comunidade onde vive, no Bauru 22. “Todo mundo me respeita e me quer bem. Escolhi a fantasia de Branca de Neve, inclusive, para homenagear as crianças que me adoram, me beijam e me abraçam”, relata.
Apesar das dificuldades, homossexuais buscam, cada vez mais, exercer seus direitos e cidadania. Cindia Cristina Laurindo, 28 anos, e Jéssica Aparecida Guimarães, 20 anos, já moram juntas, mas pretendem oficializar a união - que terá direito a festão - no ano que vem.
Diversidade e religião
Ausente dos discursos, as recentes polêmicas provocadas por posições fundamentalistas de grupos religiosos estiveram em faixas nos trios que diziam: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?”.
A Parada da Diversidade contou ainda com a participação de membros da Igreja Inclusiva de Bauru “Monte da Adoração”. Além disso, jovens ofereciam abraços grátis e pediam, em nome da Igreja - não identificada -, perdão pelo tratamento dedicado a homossexuais e afins.
Kelly Key e o público LGBT
Estrela da Parada da Diversidade de 2013, Kelly Key chegou ao parque Vitória Régia às 19h de ontem. Simpática e acessível, conta que a relação com o público LGBT se fortaleceu naturalmente. “Há três anos, recebi os primeiros convites para me apresentar em boates. Deu certo e, hoje, 80% da minha agenda é voltada para esses shows”.
Kelly explica que seu público e fãs não mudaram desde o ano 2000, quando sua carreira alavancou. “Aconteceu que aquelas crianças e adolescentes cresceram e, agora, vão a boates”.
Para adaptar os antigos sucessos ao gosto do público crescido, a cantora - em parceria com o DJ Mr. Jam - deu nova roupagem às canções, que ganharam batidas eletrônicas. Além disso, gravou canções em inglês. “Os fãs sempre pediam isso. A música Shaking fez o maior sucesso”.
No palco do Vitória Régia, onde contagiou o público, Kelly adiantou surpresas da nova turnê, que só estreia em 2014. “Estamos experimentando algumas coisas para saber como o pessoal reage”.


