Quioshi Goto |
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Gilson Santos Jr. volta ao local do salvamento com Aristides Leandro e Livina Lucy Leandro, os filhos |
O que é um super-herói para você? É aquele que voa e tem uma força descomunal? É aquele que foi picado por uma aranha radioativa e passou a combater o crime? Ou é aquele que tem garras mais duras que o diamante?
Neste fim de semana, Bauru conheceu um herói bem mais humano. Sem pestanejar, um homem de 27 anos entrou em uma casa em chamas para salvar seu vizinho, um aposentado de 80 anos.
O incêndio ocorreu na quadra 3 da rua Jusaku Matsumoto, no Jardim Vânia Maria. Era por volta das 5h da madrugada de domingo quando Gilson Santos Augusto Júnior passava em frente à casa de João Leandro e usou seu “sensor de aranha” para notar o perigo.
“Tinha uma pessoa mexendo no portão. Achei estranho pelo horário. Cheguei até a pensar que era alguém tentando furtar”, conta Gilson, que mora a duas casas do pedreiro aposentado.
Mas não se tratava de um furto. A casa do idoso, que mora sozinho, estava pegando fogo. Ao saber que o vizinho estava lá dentro, o fisioterapeuta pulou o portão. “Cheguei à sala da casa e vi que o teto estava inteiro em chamas. Vi que não dava para entrar por ali”, relata.
Foi então que ele foi até uma janela na lateral do imóvel e pulou dentro de um cômodo. Sem enxergar, ele somente escutava os gemidos do aposentado. Foi então que precisou ativar sua “visão raio-x”.
“Entrei e fui tentando encontrá-lo. De repente, percebi que ele estava caído no chão. Nisso, já havia muita fumaça”, conta o fisioterapeuta, com a voz bastante falha. O problema foi decorrente da fumaça inalada durante o salvamento.
João Leandro foi retirado do imóvel sem qualquer queimadura externa. Porém, por conta da fumaça, ele foi hospitalizado no Pronto-Socorro Central (PSC).
O aposentado ficou lá por mais de um dia esperando o que nenhum super-herói parece dar jeito em Bauru: uma vaga de internação. No começo da noite de ontem, porém, foi transferido para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Estadual (HE). Ele permanece em estado crítico, mas estável.
Já Gilson passou algumas horas na unidade de urgência, onde foi medicado e liberado em seguida. Ontem, ele voltou até a casa, onde refez os passos do salvamento. Na varanda da residência, estão os móveis carbonizados. Já no interior, todas as paredes estão tomadas pela fumaça preta.
Agradecidos pelo ato, estão os filhos do aposentado. “Ele está de parabéns. Se não fosse por ele, meu pai não estaria mais vivo. Não tenho nem palavras”, disse Livina Lucy Leandro, filha de João, após um abraço apertado em Gilson.
Medalha
E, como em toda boa história de super-heróis, não podia deixar de haver aquelas coincidências que deixam os fatos ainda mais sensacionais. Adivinhe a profissão de um dos filhos do aposentado salvo? Por incrível que pareça, ele é bombeiro.
“Se fosse na corporação, o Gilson ganharia uma medalha por esse ato. Só tenho a agradecê-lo e pedir que Deus sempre o abençoe. Ele não pensou no que poderia acontecer com ele e salvou uma vida”, destaca Aristides Leandro, 63 anos.
A Polícia Militar (PM) e a Polícia Científica foram acionadas. Suspeita-se que a origem do fogo tenha sido o ponto fica o sofá, na sala. Os familiares acreditam que a origem tenha sido um cigarro, uma vez que o aposentado é fumante. Os motivos do incêndio ainda continuam em investigação.
Enquanto isso, Bauru conhece um novo super-herói. Mais do que o ato isolado, vale o exemplo de ajuda ao próximo que, nos dias de hoje, parece ser tão ficcional quanto os personagens extraordinários dos quadrinhos.
Cuidado!
Apesar do ato heroico, o Corpo de Bombeiros não recomenda salvamentos assim. Segundo a corporação, os profissionais são equipados e treinados para agir em casos de incêndio. O ideal é sempre acionar o 193 para o atendimento especializado.
Vale destacar ainda que todo incêndio produz gases tóxicos, o que pode ser bastante perigoso para os envolvidos. Por isso, em qualquer caso de exposição, mesmo sem queimaduras, é preciso procurar socorro médico.
‘Por se tratar de um idoso, não pensei no perigo’
Como qualquer super-herói, Gilson Santos Augusto Júnior precisa manter uma vida normal para esconder sua identidade secreta. No caso dele, a rotina envolve dois trabalhos e um projeto. Tudo com idosos. Foi exatamente isso que motivou a ação.
“Eu nem pensei em mim. Quando fiquei sabendo que ele estava lá dentro, já entrei. Por se tratar de um idoso, não pensei no perigo”, conta o fisioterapeuta.
Quando tinha apenas 15 anos, Gilson tinha passado por um curso de brigadista. Ele, entretanto, conta que não utilizou nada do que aprendeu no salvamento do vizinho. “O que fiz foi para ajudar mesmo. Na hora, nem lembrei de nada daquilo que aprendi. Só pensei em tirá-lo de lá”.
Acredita-se que o incêndio já havia começado há mais de meia hora. Por isso, o socorro naquele momento foi fundamental. “Trabalho com idosos o tempo todo e isso mexe muito comigo. Faria novamente sem pensar duas vezes”.
